Adota-me

Te vi a primeira vez assim, sentada perna de índio na grama, cabelo amarrado, camiseta azul marinho listras brancas, crianças em volta num círculo torto. Dei bom dia e tu de costas me girou a cabeça. Não sorriu e teu olho bola grande segurou a minha piscada. Era você. Na etiqueta do teu peito bordas descoladas escreviam teu nome errado: Laila. Oi Laila. La-í-la, me arremessastes assim, com esse hiato doído que saía do fundo do teu estômago, essa separação entre você e a vida que me desafiaram a te levar pra casa. Nossa casa agora.

Te descobria às avessas olho na fresta da porta, cheiro da roupa, fino traço da letra, a rejeição por bolas e homens de barba, a passada de mão nas costas dos cães, o olhar parado em bebês, a compulsão por arrancar flores quando ninguém te via, o jeitinho que encostava tua cabeça ao me abraçar, teu choro torrencial ao passar de ano, todos os anos, teu oi ao atender o celular quando a chamada era esperada. De todo meu conhecimento de ti, ainda me apego no teu olho bola grande que segura minha piscada e me diz sem dizer que teu hiato é eterno.

Te segurei a mim com todas as mãos, mas sabia que tua partida era certeira e sem pistas, porque Laila eu te queria, mas La-í-la você é. É esse rombo em ti que te traz à vida que segura minha piscada. É tu La-í-la que vai fechar esse buraco, não eu como tentei.

Agora volta, que abristes em mim o que tanto faltava pra nossa conexão. Volta que tenho um hiato no peito, Laíla. Volta e fecha ele, que já sei a dor que tu tem. Volta e me chama de mãe. Só uma vez.

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