O puto sal.

Cínthia Klumpp
Jul 21, 2017 · 3 min read

Para o carro desalinhado às listras do chão. Abre o cinto bate a porta duas vezes pra fora, maçaneta risca o carro ao lado- ai que saco vou dizer que não fui eu- pra dentro, tranca.

Pegou o primeiro carrinho que viu tava bêbado o coitado andava em zigue e em zague e as mãos guiavam sem razão a curva não feita entre as prateleiras. Esqueceu a lista em casa a culpa é do João. Vai de cabeça mesmo e vê no que dá. Maçã, banana não estraga logo, manteiga sem sal, ovo só de galinha criada solta não tem mercado de merda. Papel higiênico tá longe e carrinho chato não dá a volta — pego outro não pego outro- fica esse que já tem compra.

Toca celular o som é o mesmo do desperta-a-dor. Tá na bolsa no fundo escondido. Tira chave de casa do carro lenço de papel de pano escova de dente de cabelo lápis de olho e de cor- a vida ali dentro tem conteúdo, ali fora tava em falta. Telefone foi encontrar no cantinho atrás da carteirinha que guarda cartões, não moedas. Parou de tocar era José. Não queria falar mesmo foda-se.

Pensou na lista. Amaciante shampoo fio dental sabão em pedra. Caminho esperto pra não dar volta a mais com carrinho bêbado. Setor de limpeza dois carros emparelhados dono folgado tem de monte dá licença meu senhor que meu carrinho é torto e curva longa não faz não. Bate em um em outro puta que pariu mercado de merda e gente sem educação. Toca celular enfia a mão na bolsa-saco sai de primeira graças a deus. Era Mariza oi tô bem e ocupada quer o quê? Quer dar uma volta papear bebericar tô afim não Mariza desculpa aê, satisfação não devia desligou e percebeu que era sal que não tinha.

Olhou pro lado azeite azeitona pro outro era lata latinha e latão. Forçou a mão carro empurrou a curva fez e deparou chocolate biscoito e pão. Aqui não era. Empurra mais e do outro lado só pode ser farinha maizena feijão arroz tudo em saco. Cadê o sal? Larga carrinho. Vai pra frente e vem pra trás. Sal aqui e ali não tinha. Cadê um moço nesse mundo pra perguntar onde é que tá. Esse mercado que não presta me falta sal. É, dá pra ver. Pega carrinho ei moço ei moço e o sal onde é que tá. Ué tá em temperos não sabe não. E não sabia que sem gosto tava a vida, não agradeceu nem pra trás olhou. Tempero do outro lado, braço forçou a curva fez foi de primeira.

Agoniada o avistou o puto sal que não tinha e sem não dá pra ficar. É, dá pra notar. Na unha feita e afiada o plástico entrou, a vontade do sal era grande e o saco furou. Escorre sal, escorre. Faz no chão do mercado um tapete branco que bonito. Ali ajoelhou. Ali respirou. Ali caíram uma, duas, três, parece que eram sete lágrimas furando o chão de sal. Ali fez-se um pleonasmo, ainda tinha sal do lado de dentro.

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    Cínthia Klumpp

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    quero comer o mundo. só que de vez em quando vomito.

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