Zilda Hessel

Zilda Maria Hessel é executiva de Tecnologia e líder em grandes empresas dos setores financeiro, serviços, seguros e saúde. Nesta entrevista, ela gentilmente nos oferece uma história real sobre a jornada de sucesso da mulher no mundo corporativo e compartilha conosco sua busca incessante pelo desenvolvimento pessoal e profissional.


Sobre por que a Zilda seguiu os caminhos da Tecnologia e como se manteve na área, mesmo enfrentando algumas dificuldades no início

Em casa, somos quatro mulheres. Todas as quatro muito boas em raciocínio lógico: professora de Matemática, contadora, TI… Na minha geração, se dizia que ia ganhar dinheiro quem trabalhasse com Processamento de Dados. Eu, com 14 anos, pensava em fazer faculdade de Educação Física, mas minha irmã orientou sobre essas questões financeiras e me empurrou para Tecnologia. Eu sempre gostei de Matemática e confesso que estava curiosa pelo curso de Processamento de Dados; com um empurrão e curiosidade, me formei no curso técnico.

Uma das minhas responsabilidades era conseguir um emprego para poder pagar a escola, então, no primeiro semestre, eu já estava desesperada por uma oportunidade no mercado. Meu primeiro emprego foi como programadora trainee em uma empresa de Engenharia, mas, apesar de ter conquistado a vaga de trabalho, durante o curso técnico eu tive muita vontade de mudar de profissão.

Eu nunca vou me esquecer: o professor de Algoritmos e Lógica entrou na sala de aula e propôs o primeiro exercício. Ele veio com uma caixinha de fósforo e falou assim: “Eu quero que vocês escrevam o que vocês têm de fazer para pegar a caixa de fósforo, ir até o corredor, acender o fósforo, apagar o fósforo e voltar”. Isso pode parecer trivial agora, mas o meu algoritmo parava na porta, porque eu tinha me esquecido do passo “abrir a porta”!

Para mim, aquilo foi uma demonstração de que eu não tinha lógica nenhuma e de que tudo dali para frente seria um horror. Depois vieram as aulas com números binários e eu não conseguia assimilar como é que tanto zeros e uns, colchetes, parênteses e chaves podiam significar tanta coisa — me achei uma retardada… Então, quis mudar de curso, mas não consegui.

Eu não era a única que tinha dificuldades, mas a minha autoestima ficou comprometida. Estava acostumada com notas altas, com elogios da minha mãe e das minhas irmãs. Sendo assim, na primeira situação de fracasso, eu entendi que não ia ser fácil passar por aquilo.

Aí vieram as aulas de Basic. E imagina: se eu não conseguia acender o palito da caixa de fósforo, como é que eu ia conseguir programar Cobol ou Basic? Meus programas eram horríveis no começo. Mas, quando meu primeiro programa funcionou, — nossa! — foi a coisa mais linda da minha vida. Eu lembro que eu voltei do trabalho para o colegial e falei assim: “Descobri o mundo!”. E, naquele dia, o sol estava brilhando mais.

Trabalhei e paguei meu colegial. Nunca mais quis mudar de profissão: era programadora! Aos 17 anos, fiquei grávida do Felipe e minha vida mudou muito. Esta foi a minha maior sorte: eu nunca tive opção de desistir porque eu tinha um bebê para cuidar. Se antes eu tive de trabalhar para pagar o colégio, depois eu tive de trabalhar para criar meu filho.


Sobre como a Zilda conseguiu conciliar a carreira com a maternidade e sobre as pessoas que a ajudaram no caminho

Meu segundo filho é o Gabriel. Eu já tinha começado a fazer faculdade de Análise de Sistemas. A faculdade era horrível: não tinha elevador, eu estava com 30 quilos a mais, a carga horária era exaustiva, o sistema de ensino era muito exigente e eu trabalhava também. Faltava um ano para terminar a graduação, mas larguei.

Minha terceira é a Luiza. Em 1996, eu já era analista sênior, com muitas responsabilidades e uma equipe para liderar. Então, eu me forcei a voltar para faculdade e me formei em Ciência da Computação.

Se eu tivesse que falar de algum sacrifício, eu não saberia apontar com certeza. Desde muito cedo, eu tive de aprender a lidar com os problemas: as coisas foram acontecendo e eu fui resolvendo, nunca nada me doeu. A única coisa de que sinto falta é da época em que a Luiza era criança, pois eu tinha uma rotina de trabalho e estudo muito apertada, então quem cuidava dela à noite era o meu marido e eu perdi alguns momentos. Nessa época, eu trabalhava 300 horas por mês, basicamente o dobro do que se trabalha normalmente. Ganhei um bom dinheiro, comprei um apartamento com o meu marido, minha carreira deu um salto, mas não me lembro de a Luiza começar andar…

Família Hessel

Eu acho que consegui conciliar minha carreira com a maternidade porque nada a gente faz sozinha. Eu acho que eu tenho o mérito de ter tido coragem, de ter sido destemida, mas o meu marido é incrível, a minha mãe e minha sogra também sempre deram suporte na educação dos meus filhos. E, apesar da minha rotina atribulada, no tempo em que eu estava com meus filhos, eu estava focada e dedicada a eles.

Às vezes isso se tornava um pouco confuso, por exemplo, se eu estivesse em uma festa e desse um problema no meu trabalho, eu saía da festa e ia resolver o problema. Em compensação, se eu estivesse trabalhando e um filho meu ficasse doente e precisasse de mim, eu também deixava meu trabalho e ia cuidar do meu filho, porque o meu comportamento dava esse crédito com as empresas.

E as mulheres precisam saber escolher uma parceria bacana. Eu tive dois maridos: um é um cara super tradicional que adoraria que eu ficasse em casa, cuidando dos filhos, cuidando da casa; o outro é um cara super arrojado que me motiva, que morre de orgulho quando dou uma entrevista, quando saio no jornal ou ganho um prêmio. Os dois são ótimos. O meu primeiro marido é maravilhoso para a segunda mulher dele, que combina mais com o estilo dele. O Marcelo combina comigo assim. Então, se a mulher encontrou um cara que está disposto a dar suporte financeiro para que ela seja dona de casa, para que ela cuide dos filhos e, principalmente, se é isso que ela quer, por que não? Você percebe? Não tem certo ou errado, tem escolhas e renúncias.


Sobre as coisas que movem a Zilda e sobre os lugares de onde ela consegue extrair tanta energia

Sempre trabalhei em lugares que exigiam dedicação 24/7 e minha vida sempre foi assim: intensa, mas organizada. Tenho tempo para ficar com meus filhos, pratico esportes todos os dias e leio muito. Eu diria que, para esse ritmo de trabalho, independentemente de gênero, é preciso de muita energia. Não é impossível fazer, tanto que eu fiz: sou casada há 21 anos com a mesma pessoa, meus 3 filhos são saudáveis, estou com a saúde em dia. Dá para fazer, mas requer suporte.

Durante muito tempo o que me moveu foi a necessidade de sobrevivência. Aos 14 anos, eu precisava sobreviver para pagar os meus estudos. Dos 18 até os 36 anos, eu precisava sobreviver para que os meus filhos fossem saudáveis e cidadãos melhores. Pratico esportes porque gosto e para ter saúde mental: já joguei tênis, squash, vôlei e natação. Cinco vezes por semana eu corro de 30 a 45 minutos e depois faço um pouquinho de musculação. Minha rotina é esta: eu preciso acordar e praticar esporte. E agora eu faço MBA, às terças e quintas-feiras.

Dessa forma, eu penso que, hoje, com meus filhos criados e um trabalho que me dá prazer, acabo procurando situações para me manter motivada. Hoje eu percebo que corri muito na vida, e isto é uma dica para as mulheres da próxima geração: não precisa correr tanto quanto eu.

Eu ainda tenho mais 40 anos para viver, no mínimo. Quando fiquei meio perdida, pensei em voltar a estudar e estou fazendo esse MBA executivo, que é uma possibilidade para continuar aumentando os meus desafios. Sempre que penso nas coisas que aconteceram, percebo que hoje está tudo muito bom. É neste momento que volto a buscar uma nova visão de verdade, para correr o resto da maratona. Como eu disse, estou apenas na metade dela.


Sobre a liderança feminina e sobre como gerenciar equipes de tecnologia

Minha postura frente às equipes com que trabalho é sempre a de que todos estamos no mundo para trocar: aprender e ensinar. O primeiro passo para ser uma líder, independentemente da área de atuação é ter humildade para entender que não sabemos tudo e que os cargos em uma empresa são simplesmente papéis diferentes. É como um jogo de futebol: há onze pessoas em campo e há uma pessoa, do lado de fora, que o coach.

O técnico não é o time, mas sim o líder, que é um papel importante, mas quem vai fazer gol são os jogadores; e é preciso humildade para entender isso.

Um segundo ponto importante é compreender que as pessoas são diferentes. Hoje eu uso 90% do meu tempo no trabalho para observar o outro, com muita atenção no resultado que pretendemos atingir. Preciso ser sensível para escolher o melhor jeito de abordar uma pessoa e motivá-la, porque a mesma forma de abordagem pode trazer resultados diferentes, de acordo com as distintas pessoas com quem trabalhamos. É preciso estar com a mente e coração abertos para entender como são as pessoas e para escolher a melhor forma de comunicação com elas.

Não podemos falar da maneira como queremos, mas sim da melhor maneira que as pessoas entendem.

É meio piegas falar isso, mas ser gestora é mais ou menos como ser mãe: tem que administrar conflitos entre irmãos, fazer a criança estudar, lavar louça… É preciso dar carinho e amar, saber motivar e repreender, oferecer feedback… Eu talvez vá morrer sem saber se eu fui uma boa líder, porque eu estou sempre buscando mais os meus defeitos do que as minhas qualidades.

No fundo, a minha meta é que um dia um estagiário possa ser meu chefe, porque dessa maneira eu vou saber que fiz um bom trabalho. A diferença entre bons líderes e bons chefes é que os primeiros estão preocupados em formar um bom profissional.

Para as pessoas que estão iniciando a carreira, eu sempre digo que é importante conhecer a si mesmo para não se cobrar demais e não cobrar demais o mundo. O que eu quero dizer com isso é que a vida é feita de escolhas e a cada escolha, uma renúncia. É preciso estar consciente disso para conseguir ir em frente ao invés de remoer o que já passou. Sempre que eu entrevisto uma pessoa para vagas de estágio, eu pergunto quais são os planos dela para os próximos 5 anos.

A geração que está entrando como estagiária agora quer ser diretora em 5 anos. Ou ficar milionária em 5 anos. Isso não é ruim, mas é preciso ter em mente como faz para chegar até esse objetivo. Por exemplo, eu contrataria uma pessoa que me dissesse: “Quero ter uma barraca de coco no Guarujá, mas, para isso, eu preciso juntar dinheiro e, para juntar dinheiro, eu preciso trabalhar e fazer o meu melhor”. Não tem jeito: se a pessoa quer a barraca de coco no Guarujá, ela vai ter de abrir mão de muitas coisas, por exemplo, do glamour, do terno e gravata, do ar-condicionado, de ter uma mesa bacana no escritório etc. Se a pessoa quer ser diretora, vai ter de abrir mão do Sol, da bermuda, de só conviver com gente de quem gosta e vai ter de se adaptar ao mundo corporativo, que é cruel e tem uma porrada de desafios.

Se a pessoa se conhece e sabe o que quer, é muito mais fácil de ela conseguir fazer as escolhas e aceitar as renúncias. Então, eu repito que vale a pena para todo mundo gastar mais tempo pensando no que realmente deseja e em quais são os seus valores. Mesmo quando eu era jovem eu sempre soube o que eu queria: sempre quis independência financeira e sempre quis liderar.


Sobre as coisas que poucas pessoas sabem sobre a Zilda e que é bonito de contar

Quando eu fiz 40 anos, meus filhos me deram um Wolverine de presente e esse foi o primeiro presente que eles compraram com o dinheiro deles. O Wolverine é o meu super-herói predileto, porque ele é mal-humorado, faz o trabalho dele, mas não pede para ficarem de nhénhénhem. Os personagens de que eu mais gosto são o Wolverine e o Homem de Ferro, mas agora fiquei meio decepcionada com o Tony Stark porque ele vai tomar decisões erradas na Guerra Civil. No filme, concordei muito mais com o Tony Stark do que com o Capitão América, mas nos quadrinhos as justificativas do Capitão América são mais fortes.

Eu também coleciono carrinhos e motos em miniaturas, não tenho muitos, mas sempre compro quando vejo algum bonitinho. Lembrei porque eles ficam no mesmo lugar onde está o Wolverine.

Como sou da geração do final dos anos 80 e 90, gosto muito de rock nacional. Era apaixonada por Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Led Zeppelin, ACDC, Pink Floyd… Gosto de MPB e agora tenho ouvido Los Hermanos porque meu filho do meio adora.

Um dos primeiros livros mais voltados para profissão que li foi a biografia do Jack Welch, que é um cara incrível e tem valores muito parecidos com os meus. Eu acho que todo mundo devia ler a biografia do Stevie Jobs, para saber bons e maus exemplos; ele foi um cara meio desequilibrado, fez coisas fantásticas profissionalmente, mas fez coisas terríveis na vida pessoal. Eu gosto muito do Amyr Klink também, cujos livros oferecem momentos ímpares de reflexão. Ah, e eu amo Harry Potter!

Entrevista: Carolina Bonturi e Sidney Orlovski / Texto: Camila Vilarinho / Edição de texto: Carolina Bonturi / Fotografia: Arquivo pessoal / Edição de imagem: Carolina Bonturi

Like what you read? Give coaShe. a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.