Querido K, 9 de julho de 2017

Hoje eu vi aquela nossa amiga gritando por ajuda e não pude fazer nada. Lhe escrevo essa carta para contar sobre como me senti impotente, sobre como eu não posso mudar o mundo e como isso me faz sentir pequena e assustada. Escrever alivia o peso do sentimento de solidão, inclusive, é isso que eu acho que essas doenças são: solidão. Acho que elas são sobre nós e sobre como ficamos presos na nossa mente procurando por respostas que nem a fé ou a ciência tem, nos tornamos reféns do medo de nunca encontra-las.

Eu estive presa em minha própria cabeça com um milhão de porquês não respondidos. A solidão vem do mundo vir se tornando cada vez mais pesado e nada ou ninguém conseguir deixa-lo mais leve, ninguém pode me ajudar. Dizem por ai que é minha responsabilidade lutar pela minha melhora e que só eu sou capaz de faze-lo, o problema é que tem doído cada vez mais me sentir perdida por não saber por onde ir nem por onde começar.

Querido K, eu tenho medo de acordar amanhã sabendo menos do que sei hoje e hoje já não sei nada. Viver tem causado muita dor e meu estoque de analgésicos chegou ao fim, tem causado medo e eu cansei de tremer sozinha no meu quarto durante a noite. Me falta o ar, sufoca não saber o que acontece depois do fim, e me enlouquece pensar que pode ser só um retorno à escuridão, exatamente como quando fecho os olhos e somos só eu e minha consciência num infinito vazio dentro da minha cabeça. Será por isso que instintivamente procuro adormecer toda vez que quero fugir do desespero que me faz desejar não existir? Seria a morte um sono infinito?

Toda noite, antes de dormir, eu fico presa num mar de indagações sobre porque as coisas são como são, e porque as coisas acontecem, e porque o céu é tão grande, e porque eu permaneço aqui. O único alivio é saber que há o amanhã, que quando eu abrir meus olhos será dia, e eu poderei tentar de novo, tentar ver as coisas de forma diferente. Mas e se esse alivio desaparecesse? Seria eu presa nos questionamentos de porque as coisas foram como foram e de como poderiam ter sido, seria o mesmo desespero que sinto todas as noites mas sem a chance de descobrir as respostas. Isso é assustador

Eu tento esquecer de mim, de todo esse peso que tem na minha cabeça, tento pensar colorido, mas tudo fica cinza quando eu lembro que há tanta dor no mundo e eu não posso suga-la, tudo fica cinza quando um amigo chora e tudo que consigo fazer é chorar por meu melhor não ser solução, por doer assistir a dor. Eu só queria conseguir segurar o mundo pra esse tanto de gente cansada, mas ele é muito grande e eu muito pequena. Eu, que me sinto tão inútil quando diante dos sistemas existentes nos quais tento incessantemente me encaixar, queria ser útil ao menos abraçando as feridas das pessoas que choram na janela de seus apartamentos, choro esse que faz chover no estacionamento de seus prédios.

Eu sei que “sou apenas uma dentre outros 7 bilhões de humanos de uma única espécie, entre outras 3 milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha que gira em torno do sol, que é apenas uma das milhões de estrelas que compõem a via láctea, que é apenas uma galáxia entre outras 200 milhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer” como Cortella disse uma vez. Eu sei que não farei algo grandioso, que não serei uma grande revolucionaria, nem que vou ser alguém importante o suficiente pra mudar o mundo, mas eu queria pelo menos marcar com algo bom a vida de algumas pessoas, que são pequenos mundos individuais.

Eu sempre penso comigo que eu não preciso construir edifícios, mas que gostaria de poder lhe oferecer abrigo em meus afagos e algo para comer. Que eu não descubra a cura das doenças, mas que eu seja morfina. Que eu não faça algo grande, mas ao menos descubra como tornar menos dolorida a passagem de alguns por aqui. O triste é que ultimamente sinto-me muito cansada e desacreditada, porque também sei que tudo que fiz, faço, e um dia farei, ainda será pouco. Bukowski disse “Todos vamos morrer um dia, que circo! Isso deveria fazer com que amassemos uns aos outros. Mas não faz” e me dá imensa dor pensar nos que vem e vão sem amor.

Querido K, hoje eu vi aquela nossa amiga gritando por ajuda e não pude fazer nada. Nada além de chorar e questionar o mundo e minha existência, mas deixa, ninguém pode me ajudar.

*Da série: coisas que gostaria de te contar.*

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