O voo de Ícaro tucano-petista

Em meados dos anos 1990, o PSDB deixou um legado econômico, como o PT deixa um legado social a partir dos meados de 2000. Ou seja estas duas correntes construíram um labirinto para matar o Minotauro que continha as chagas históricas que desestruturavam o Brasil. Agora acompanhamos um preconceito odioso — dos dois lados, oriundos das duas partes.

É claro, temos que reconhecer, o governo federal, sob comando petista, comete uma trapalhada atrás de outra. Abriu sua própria caixa de pandora e os seus demônios a assombram como nunca antes na história deste País.

Enquanto isso, em território paulista, sob domínio tucano, que já foi governo federal (deixando muita sujeira debaixo dos tapetes ou engavetadas), governa o estado mais rico, ignora-se as atrocidades governamentais. Ninguém bate panela pró-merendão, trensalão, sigilo de documentos públicos e violência policial. Temos um momento de seletividade aguda por parte das instituições republicanas. 
Sim, existe uma seletividade de escândalos. Parece que o outro lado é divino, sanitarizado, como se fosse um lugar ‘bem cheiroso’. Nem o partido do legado social, que é ignorado por suas conquistas e nem o partido do legado econômico que teve o seu legado reconhecido pela atual oposição estão com os seus poleiros limpos.

Os dois partidos tiveram a sua origem na esquerda, com membros que ajudaram a democratizar o País, ambos foram oposição tosca ou não e foram ou são governo. O resultado é que a coisa está tão deturpada, disforme e cretina que muitos se esquecem que o poder está nas mãos dos 513 + 88. E eles são mais ou tão nocivos quanto a figura que está no poder Executivo.

Temos agora um partido que rouba toscamente e outro partido que rouba de forma sofisticada que age como arauto da honestidade, parecendo mais uma caricatura de partido que foi um dia. Ou melhor, só ver pelas prévias municipais de São Paulo para perceber como o partido está tão partido. Acho interessante que idéias opostas sejam respeitadas e que a discussão seja saudável. Vivemos em democracia e cada um apoia ou acredita no que quiser. Democracia, do grego ‘δημοκρατία’, vem da contração de demos (povo) e kratein (governo), ou seja, o governo do povo, para o povo, e pelo povo. Mas, não isso que ocorre…

O juiz-heroi em uma manobra jurídica e desnecessária mostrou sua face política que pode custar a estabilidade nacional. Ou seja, estamos próximos do estado de natureza hobbesiano. Onde vale tudo, todos contra todos, com direito a queda das instituições.

A periferia, ou camadas mais baixas, saem às ruas mostrando seu lado e nas camadas mais elevadas, indignadas por uma derrota em 2014, batem palmas e panelas para pedir a troca de governo na base da porrada. Metade do País fez uma escolha e essa metade foi majoritária contra uma outra metade insatisfeita.

O raio-X de alguém que tenta observar o ritmo desta sociedade fluída é que estamos doentes, somos hipócritas, egoístas e com o egoísmo tucano-petista o País está se acabando politico-economicamente. Fala-se tanto em independência do Estado, mas no fundo querem mamar sem ser incomodados. Batemos palmas para maluco vamos matar o câncer matando o resto saudável do corpo do paciente. Ou seja, mate o paciente para matar o câncer.

Se ninguém percebeu é isso que estamos fazendo aqui nesse País. Matamos o Minotauro da miséria e da inflação das últimas décadas, por meio do labirinto que construímos, porém, ficamos presos na nossa arapuca. Então, com nossa criatividade, usamos asas artificiais com a cera do mel de abelhas, penas de gaivota e mesmo sob a advertência de Dédalo, ‘não voe para muito perto do Sol, nem para perto do mar’, por um instante, aconteceu o voo de Ícaro, que pulou, voou alto, viu o Sol, as asas derreteram e ele caiu nas águas e com o peso das asas molhadas estamos afundando no mar Egeu.

Eu confesso cansaço por ver e ler comentários políticos. A coisa está muito no senso comum, e o aprofundamento não é perceptível, porque voltamos ao vórtex do egoísmo e da debilidade que toma conta de grande parte das pessoas.

Fique bem claro: não é nada pessoal, o comportamento humano é engraçado e risível e quero acreditar muito que não vamos virar uma Venezuela. No máximo, se continuarmos com um comportamento pueril, vamos lembrar um rascunho de Grécia falida.

Não defendo nem A nem B, só quero mais clareza neste País, pois estamos tomando um caminho muito perigoso onde todos perder. Por um momento todos poderiam ganhar, mas novamente estamos perdendo… Ou melhor, quase todos perdem… Basta ler o noticiário econômico, pois alguém (vários) com certeza está (estão) ganhando muito com isso de forma tão sorrateira quanto as práticas tucano-petistas. 
Mas, somos fortes e podemos sair do abismo, para quem sabe não voar perto demais do Sol, mas, tornar-se o Sol, como deus mitológico Apolo, para voltar a brilhar novamente.

A imagem publicada deve ilustrar melhor o cenário que o meu devaneio derramado por aqui.

Charge de Guilherme Bandeira.

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