o tamanho das coisas

não sei bem se um transtorno obsessivo compulsivo, mas o mau encaixe da tampa traseira do ventilador me despertou duas sensações: preguiça e ódio. preguiça por ter de desmontar e, consequentemente, limpar todas as peças, para novamente encaixá-las. ódio, por tentar de forma estúpida empurrar sempre a tampa frontal na esperança da traseira se encaixar. nunca deu certo.

hoje queria descansar. precisava de um sono. fortaleza, cidade quente como o xinim de uma ninfomaníaca, não respeita suas preferências pessoais. ou você pode pagar para desfrutar de um ar-condicionado, ou você passará boa parte da vida sob o domínio dos ventiladores. Essa segunda opção, minha sina desde que cheguei.

assistia a um filme incomodado com o barulho desgraçado da hélice que, ininterruptamente, parecia se regozijar de prazer por tirar de mim o juízo do merecido descanso. enquanto girava, o tec tec da hélice viçando a tampa traseira parecia o capeta cutucando o sono de uma criança.

na primeira tentativa, o filme que assistia continuou rodando. cenas repetidas de anos atrás. clube da luta, um clássico que chegou ao netflix. como a intenção era só a de passar o tempo, não me incomodei com os diálogos perdidos. espremi a grade de proteção. dois segundos depois lá estava o tec tec novamente.

respirei fundo. pisquei pausadamente. olhei para o ventilador e pensei: continue a nadar.

meio minuto depois, lá estou empurrando novamente a hélice, desta vez com um pouco mais de força. resultado: nenhum. o capeta manteve sua existência. novamente pensei. desta vez, já com certo grau de prudência: seja calmo com ele.

bastaram alguns segundos e comecei a me coçar por dentro.

a preguiça já dando lugar à coragem. será que vou ter que abrir essa merda toda só para encaixar essa desgraça direito? sim — um anjo suspirava em meus neurônios. relaxa, é só um barulhinho, desapega — dizia o capeta.

o tec tec interminável tomou conta de mim. já não conseguia mais manter atenção nas imagens e legendas. comecei a tremer. o clube da luta dessincronizado em minha mente por causa de um ventilador de merda que, entre um tombo e outro, decidiu se desencaixar.

pela última vez pressionei a grade. já não media a força. mantinha, apenas, o cuidado de não quebrá-la mais. é meu único em funcionamento. um novo, maior, decidiu por si só entrar de greve em pleno domingo sabe-se lá por quê. da última vez que foi à oficina (isso, há três dias), revelou que havia um fio solto. parara de girar. nesta madrugada, acordei suando feito tampa de chaleira e quando a mente sonolenta despertava sob a escuridão da noite, o silêncio reinava na sala onde decidi repousar. quebrou essa merda de novo — pensei. liguei o primo pobre e, talvez pelo cansaço, consegui apagar novamente e não fazer do tec tec um pesadelo nas horas que restavam até o despertar do dia.

a coceira foi aumentando. olhei novamente para o ventilador. dei um soco. dois. fiz dele quase um sparring. nada adiantou.

parei o filme. respirei fundo. desencaixei trava por trava. tirei a grade frontal, lavei. retirei a hélice, lavei. retirei finalmente a grade traseira, lavei.

agora essa merda está secando e, aqui, a incerteza de que todo esforço pode ser em vão. ou não.

oremos.

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