Um momento a sós.

Parece que faz uma década desde a última vez que conversei com você. Parece que tudo mudou, interna e externamente.
Parece que eu deixei de ser você e hoje eu sou você e você sou eu. Parece complicado, mas minha mente é complicada, então até que faz sentido.
Lembra de quando falaram para nós que um raio nunca cai no mesmo lugar duas vezes e que todas as nossas incertezas um dia nos acostumaríamos e ficaríamos satisfeitos por ser quem somos? É, acho que esse dia chegou.
Claro, quem vai me dizer isso é você. Você sempre dizia coisas negativas quando eu planejava algo, estabelecia uma meta ou pensava em ir falar com uma garota:
“Você acha que ela iria querer falar com você? Quem você pensa que é?
“A sua maior chance você já desperdiçou, chegou a hora de sentar, chorar e desistir de vez.”
Quem diria que noites sem dormir me fariam desacreditar de você, me fariam acreditar que eu posso e eu consigo. Se quando eu deixava você tomar conta você dizia que o céu era seu limite, eu acredito agora que o meu limite é em Marte.
E por mais que eu escute sua voz, minha voz, ainda sussurrando baixinho em meu ouvido eu insisto em não te odiar. Por todas as vezes em que você, eu, ajudou na tarefa de me auto-sabotar, por todas as vezes em que eu senti que deveria lhe ouvir e dar um passo para trás, por todas as vezes que eu gritei no canto mais escuro do nosso quarto e só você ouvia e ria, por todas essas vezes eu te agradeço.
Agradeço, porque hoje, minha incerteza é algo que compreendo e tudo que conquistei devo a ti. A vida não é um mar de rosas, a voz dentro da minha cabeça no final das contas me serviu de guia e me ensinou a entender que minha natureza não é fácil. Que é mais fácil chorar e desistir do que se levantar e tentar mesmo que a probabilidade de falhar seja alta.
Desde a nossa última conversa, meu cabelo cresceu, comprei roupas novas, estou até usando óculos, ando de cabeça erguida pelas ruas e até esboço um sorriso para as pessoas, dou mais risadas, confio mais em mim e em você.
Depois de quase dezenove anos de existência, essa é a primeira conversa entre eu e eu mesmo em que não se ouve risos e nem choros, apenas vê-se um abraço entre pedaços fragmentados de uma mente complicada.
