Coisa de menino?

Sabe-se que não é comum encontrar mulheres em universos considerados masculinos, como o das artes marciais. Porém, hoje em dia, o sexo feminino vem rompendo barreiras das mais variadas vertentes. Tendo ciência de tal realidade, nós do “Coisa de Meninx” resolvemos ter uma conversa com duas moças que apresentam um comportamento que, de um ponto de vista sexista, pode parecer contraditório. São elas Érica, de 35 anos, cirurgiã dentista e Mirela, 24 anos, formada em direito, ambas treinam Krav Magá.

Érika

Érica trabalha numa área em que não é tão comum mulheres sofrerem discriminação, visto que, culturalmente, a área de saúde não possui aparente restrição de gênero. Apesar disso, a Recifense nos contou que, sempre que o assunto é sua paixão por artes marciais, sente um estranhamento vindo das pessoas ao seu redor, espanto esse que, na maioria das vezes, vem acompanhado da típica expressão sexista: “Mas isso é coisa de menino”.

A dentista nos contou que admira o tema desde criança, sempre assistia filmes de kung fu e afins e disse que a mãe sempre achava um pouco estranho, mas nada que a ofendesse consideravelmente.

A maioria das pessoas não aceita a ideia de mulheres praticando atividades culturalmente masculinas pelo fato de isso comprometer sua “feminilidade”. Mas, de fato, o que seria essa feminilidade? Há um padrão de feminino? Quando se olha para Érica e para Mirela, não se tem dúvida de que se tratam de mulheres, por que praticar uma arte marcial comprometeria sua feminilidade?

Mirela à esquerda

Para Mirela, também recifense e formada em direito, lutar não tem nada a ver com ser ou não feminina, muito menos com sexualidade (embora não sinta discriminação por parte dos colegas de treino, a moça nos contou que as meninas praticantes de lutas marciais costumam ser consideradas lésbicas), mas sim com o movimento certo e pela simples admiração por um esporte.

De fato, a ideia de fragilidade feminina arraiga-se na sociedade do patriarcado. A ideia de que o homem é um ser ativo e bélico, enquanto a mulher é um ser passivo e pacificador. Tal construção também pode ser identificada nas citações usadas por Mirela acerca de como pessoas de fora da academia observam seu comportamento:

“ Quando diziam que uma menina fazia boxe ou fazia qualquer tipo de arte marcial, diziam que tinha a ver com sexualidade, que era lésbica, porque era uma coisa que não era feminina, era uma coisa mais grosseira. Dependendo da forma como ela também treinava… ‘Não, é lésbica!’ Porque vê só como ela tá batendo! ‘ Ela não bate tipo ‘ai, meu pulso’… Além da menina ter que ser feminina, não poder fazer esporte, tem que bater de uma determinada forma… “

Apesar desse tipo de comportamento advindo da maioria da sociedade, as moças declaram que não se importam com a forma de as pessoas olharem para seu modo de vida. Para Érica e Mirela, artes marciais também é sim coisa de menina, porque ser menina não é sinônimo de ser frágil, ser menina é reconhecer em si a feminilidade, independente das construções alheias.

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