Tia ou Professor?

A formação de um ser humano acontece, inevitavelmente, através do aprendizado. Tiramos lições dos nossos pais, amigos, até mesmo de desconhecidos. De todas as pessoas que ocupam, em algum momento da vida, um papel de mestre, talvez um dos grupos mais marcantes seja o dos professores. Eles dedicam a vida à atividade, desafiando os limites entre a própria essência e o ato de ensinar. O mundo de múltiplos matizes que é comunidade da pedagogia, no entanto, enfrenta uma barreira surpreendentemente forte num cenário pós-moderno: as percepções de gênero da sociedade frente ao educador.

Rafael

Rafael Lupi é estudante de pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco “por opção mesmo”. Na faculdade, o rapaz encontrou uma realidade que, de certa forma, foge da visão estagnada do educador. “As escolas particulares têm no homem o perfil do professor, não de pedagogo, que cuida e estuda a criança.”Assim, as pessoas que passam pelo curso de pedagogia aprendem a lidar com a formação de conhecimento levando em conta a humanidade do aluno, há uma base de zelo muito grande. A aplicação desse processo no mercado de trabalho é natural às mulheres professoras, mas aos homens que escolhem rumar os mesmos passos, a história muda.

São muitos os funcionários de educação do sexo feminino. É correto dizer que muitas pessoas esperam uma moça doce e atenciosa guiando uma sala de aula. Um homem com o mesmo preparo e postura profissional, é uma figura que costuma erguer sobrancelhas. Trata-se de uma situação de puro costume, Lupi diz que há “um estereótipo, ainda que velado”. No setor de educação infantil, por exemplo, a realidade é ainda mais radical. A massiva maioria das pessoas lendo esse post provavelmente não é capaz de contabilizar sequer um professor homem durante essa fase de aprendizado. O teste assusta ainda mais quando se expandem as faixas amostrais. A equipe do Coisa de Meninx não teve professores homens no jardim de infância, tampouco nossos pais, ou avós. E você?

A caricatura do educador se mantém pelo status quo de muitas escolas e pessoas ligadas a elas. Na manutenção do que é de costume, instituições de ensino deixam de abrir portas para profissionais com muito a oferecer. Rafael Lupi afirma que já chegou a ser afastado de uma seleção de emprego antes mesmo do pleito à vaga. Uma colega de turma trabalhava no local, conhecia a política conservadora do colégio, e “reproduziu a vontade da empresa sem questionar”. As escolas precisam ser desafiadas, os colégios precisam se abrir. Professores são mulheres, são homens, são negros, brancos, homossexuais, deficientes físicos, transexuais. O mundo existe em diferentes cores, e escola faz parte dele. Aceitar educadores como eles são é contribuir para um desenvolvimento educacional democrático e realista.

Não apenas se deve ensinar português ou matemática em salas de aula, as lições sobre cidadania e preconceito devem estar intrínsecas na simples atividade de “tias”, “tios”, “professores”, “professoras”, “fessores” e todos os homens e mulheres que se dedicam à educação.


( imagem de fundo: Andrew Salgado artwork)

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