A Garota Dinamarquesa e o Encontro com a Felicidade!

Eddie Redmayne é uma das pessoas mais graciosas que Hollywood já nos apresentou. Em seu novo filme, “A Garota Dinamarquesa”, ele não deixa dúvida a respeito da qualidade de suas performances e de sua incrível capacidade de atuação. Nesse filme, Eddie retrata a primeira transexual (Einer/Lili) a passar por uma operação de mudança de sexo, e o faz de maneira delicada e emocionante, nos levando a conhecer a alma e o coração daqueles que foram considerados loucos por não se encaixaram nos padrões que a sociedade impõe. Somos programados para afastar e rejeitar tudo aquilo que não entendemos e que difere da realidade com a qual estamos acostumados, nos esquecendo de como a rejeição e a falta de compaixão podem machucar uma alma. O que a “Garota Dinamarquesa” nos mostra é que quando você não entende algo, ou alguém, a primeira coisa que você deve fazer, ao invés de rotular como loucura, é tentar entender, sem medo, de coração aberto, buscando empatia.

E quem faz o papel da compaixão e solidariedade no filme é Gerda (Alicia Vikander) a esposa de Einar ( Eddie Redmayne), ela nos dá uma aula sobre o amor incondicional quando não só aceita, entende e respeita, mas também ajuda seu marido a descobrir a Lili que vivia dentro dele. É durante uma brincadeira entre marido e mulher, que possuem uma genuína relação de amor, desejo e confiança, que Einar se veste de mulher pela primeira vez, permitindo desabrochar a Lili que nele habitava e encontrando nela sua verdadeira felicidade. Durante o filme assistimos Gerda perder o marido aos poucos, observando-o se transformar na mulher que ele nasceu para ser. Apesar de seu luto e sofrimento, ela respeita sua busca pela felicidade em uma demonstração de amor dos mais genuínos, de uma esposa que aceita seu marido em toda sua complexidade e em todas as suas formas e que respeita a mulher que ele se tornou, assim como sempre respeitou o homem que ele foi um dia, sem jamais pedir nada em troca. Trata-se de um amor que não comporta preconceitos, pois mesmo que Einar não vista mais as mesmas roupas, não se comporte mais da mesma maneira, ou não seja mais homem, Gerda ainda consegue reconhecer a pessoa por quem se apaixonou, na alma, no coração que permanecem em Lili. Das maravilhosas cenas que o filme apresenta, talvez uma das mais belas seja a que o casal se encontra diante de um psiquiatra, enquanto Einar diz: “Doutor, eu acredito que dentro de mim, em minha alma, eu sou mulher! ”. Quando seus olhos encontram o de sua esposa, Gerda responde: “Eu acredito também! ”. Trata-se de uma afirmação simples, mas que tem grande poder, causando um imenso impacto em alguém que luta para encontrar o impulso e o incentivo para livrar-se das amarras sociais e se tornar aquilo que acredita ser.

Por sua vez, Einar, que ao fim do filme se torna Lili, nos apresenta uma lição de coragem e autodescobrimento como poucas vezes retratada no cinema. Nos preocupamos tanto com como vamos lidar com as diferenças do outro, como vamos explicar aos nossos filhos, como vamos entender e respeitar a decisão do próximo, que ignoramos completamente a batalha interna e o conflito que vive no coração de quem não se encaixa nos modelos sociais, nos esquecendo que a vida e as escolhas do outro não nos dizem respeito. “A Garota Dinamarquesa” nos mostra a jornada de um homem descobrindo a sua alma e se reconhecendo como mulher. O sofrimento que Einar passa para se tornar Lili nos é transmitido de maneira extremamente tocante por Eddie Redmayne, que nos encanta e conquista tanto em sua versão masculina, quanto em sua versão feminina, nos provando o quanto ainda somos egocêntricos como sociedade, e o quanto ainda precisamos aprender sobre empatia e solidariedade. A primeira cena marcante do filme é quando vemos Einer olhar o retrato que sua esposa fez dele com o corpo de mulher, nesse momento percebemos em seu rosto que ele se reconhece, se encontra, se ama e se admira naquela forma, com aquele corpo e não com o que o pertence. Posteriormente, em uma cena absolutamente impecável, vemos Einer, agora como Lili, conversar com seu amigo a respeito da cirurgia que acabou de fazer, em um diálogo incrivelmente bem montado, seu amigo pergunta: “Mas então, o médico te fez mulher? ”, Lili responde: “Deus me fez mulher! ”. Nos olhos de Eddie, conseguimos encontrar um brilho e uma luz de quem se aceita, se respeita e se ama acima de qualquer rótulo imposto.

Se Einer olha no espelho e se vê como Lili, se sua felicidade e sua plenitude residem em ser mulher e não homem da maneira como nasceu, quem somos nós para dizer o contrário? Por que achamos que podemos rotular como louco, esquizofrênico, esquisito, diferente, ou qualquer outro adjetivo pejorativo, aqueles que possuem uma alma e um coração que não se encaixam na forma como veio ao mundo? A evolução da sociedade só chegou em forma de tecnologia e ao nos alienarmos em nossas bolhas digitais esquecemos de crescer como ser humano, ainda somos medíocres e pequenos, não sabemos respeitar a felicidade do outro, e achamos que aqueles que não estão dentro das regras e padrões em que vivemos não cabem no mundo. Uma alma não deve permanecer conturbada, sofrida e escondida só porque o mundo não a entende, todos merecem ser felizes, todos têm direito de buscar sua felicidade, de lutar por ela, de tentar se encontrar e reencontrar se preciso. Pessoas felizes e completas tem muito mais a oferecer para o mundo do que aquelas que escondem sua alma por medo de rejeição. Quanto mais Lilis tivermos por aí, melhor o mundo vai se tornando. Sejamos todos como Gerda, que abraça o desconhecido e o cobre de amor e compreensão, respeitando que cada um sabe o que é melhor para si, que não existe maior conhecedor de nossa alma do que nós mesmos, portanto as decisões que tomamos em busca da felicidade só cabem a nós. Respeite os transexuais, respeite os homossexuais, respeite as mulheres, as crianças, mulçumanos, negros, respeite o ser humano, em toda sua beleza e complexidade. Falta tanto amor e alegria no mundo, vamos usar de inspiração aqueles que foram corajosos o suficiente para achá-los.