Apenas um cigarro

Sou um maço de cigarros. Menos que isso. Eu sou um único cigarro (o que me fez imaginar que eu poderia ser 20?!). E sendo esse único cigarro, você, fumante, me acende e traga quando sente que o pulmão pede aquele gosto do Hollywood vermelho. E eu queimo quando o fogo do isqueiro azul encosta em mim, e ele vem cheio de boas intenções. O que se espera de um cigarro? Um alivio? Um desabafo? Um refúgio pra desestressar o dia de mágoa? Uma forma de sentir aquele gosto que só eu, cigarro, tenho? O que se espera de uma noite de um cigarro acesso e um espaço enorme dentro do peito? O que se espera de um fumante que nunca foi real? Um fumante imaginário que vem, delicia e depois joga a bita apagada no cinzeiro? Uma explicação seria bastante para que eu, cigarro, pudesse me colocar no meu lugar de ser fumado e perecível? Uma dúvida explicada me faria sentir um cigarro de sabor? Um cigarro único? Um charuto cubano? Ou só me traria a tona o preço de ser nada além de uns tragos durante uma transa que evolui e regride em uma velocidade que eu não consigo acompanhar? E mais um trago é dado em mim, que, no momento, já não sou mais tão intenso como no início do ato de me acender. Por que não deixar o vício de fumar -que aumenta o fogo que arde em mim enquanto você me traga de forma sem igual — e passar a fumar outros lábios de veludo? Talvez se você passasse a me tratar na condição de eu ser um cigarro, acho que eu chegaria ao cinzeiro sabendo que o meu fim chegou enfim e que você, fumante, conseguiria -com um sorriso ou dote musical- uma nova forma de fumo que fosse menos dramática e não te deixasse sinais nas costas. Sinais esses que foram feitos no auge do ato de me fumar. E um cigarro dura quanto? Cinco minutos? É esse o meu tempo para conseguir ser inesquecível ou único? Mas do mesmo maço que eu cigarro vim, existem mais dezenove como a mim. E será que esses outros cigarros te trarão, fumante, um gosto igual ao meu? Eu sou apenas um cigarro. E essa condição de ser apenas um me parecia tão suficiente ontem, quando, nesse horário, estava eu envolto em algum teor alcoólico. Vai ver eu, cigarro, só me vejo como bom quando somado a algumas doses de algum drink que me deixe um pouco tonto e me faça ser ainda mais transparente. E essa transparência algum dia, me fará ser um trago único? O último cigarro do maço? Ou aquele que se desejou tanto que ao ser acesso encheu a boca com a fumaça vinda dos deuses? A culpa não é sua, fumante, pela degradação de mim mesmo. A degradação de passar de boca em boca, e de trago em trago, ir sumindo, rumando meu caminho ao cinzeiro. Eu cigarro, você fumante, e uma vida com toda a fumaça e cheiro de canela por todos os tragos passados e pelos que ainda virão.
#EPN #EscritoresePoetasNãoSabemDeNada
