Quando pensamos em feminismo, uma das primeiras coisas que vêm a nossa mente é a palavra igualdade. Afinal, o feminismo nada mais é do que um movimento que busca igualdade entre os sexos como falamos no artigo sobre introduzir o feminismo para leigos ou machistas.
Então, por que precisamos do feminismo negro?

Nem todo mundo fala sobre esse assunto, por isso o abordamos em nosso encontro quinzenal e agora trazemos um pouco da discussão para que você compreenda porque precisamos falar sobre o feminismo negro.
Preparada(o)?
O Brasil e o Feminismo Negro
Para falar sobre o feminismo negro, precisamos primeiro falar um pouco sobre a história do movimento.
O movimento feminista chegou ao Brasil no século XIX, esse período é conhecido como primeira onda (porque marca o início do feminismo em nosso país) e é repleto de reivindicações das mulheres pelo direito ao voto, vida pública e trabalhar sem precisar da autorização do marido.
No início dos anos 1970, em plena época de ditadura, surgiu a segunda onda que reivindicava valorização para o trabalho da mulher e lutava contra a violência sexual. Nessa mesma década, em terras norte americanas, Bervely Fisher, militante negra, estava denunciando a invisibilidade das mulheres negras dentro das pautas feministas.
Com a ajuda da fundação National Black Feminist, o feminismo negro começou a ganhar força a partir da segunda onda. No Brasil, isso começou nos anos 1980. A socióloga Núbia Moreira tem uma interessante citação sobre esse episódio:
“A relação das mulheres negras com o movimento feminista se estabelece a partir do III Encontro Feminista Latino Americano ocorrido em Bertioga em 1985, de onde emerge a organização atual de mulheres negras com expressão coletiva com o intuito de adquirir visibilidade política no campo feminista. A partir daí, surgem os primeiros coletivos de mulheres negras, época em que aconteceram alguns encontros estaduais e nacionais de mulheres negras. Em momentos anteriores, porém, há vestígios de participação de mulheres negras no Encontro Nacional de Mulheres, realizado em março de 1979. No entanto, a nossa compreensão é que, a partir do encontro ocorrido em Bertioga, se consolida entre as mulheres negras um discurso feminista, uma vez que em décadas anteriores havia uma rejeição por parte de algumas mulheres negras em aceitar a identidade feminista.”

A partir de 1990 teve início a terceira onda do feminismo, nesse período muitas feministas começaram a enfatizar que as mulheres eram oprimidas de diferentes formas dentro de seus contextos sociais e, por essa razão, era necessário levar em consideração a classe e raça na discussão.
As mulheres negras ou pobres, por exemplo, não precisaram lutar pelo direito de trabalhar sem a autorização do marido porque esse “direito” elas sempre tiveram. As mulheres negras e pobres lutavam pelo direito de ser consideradas pessoas.
O Feminismo Negro
Após a terceira onda ficou clara a necessidade de dar voz a todas as mulheres, levando em consideração o racismo, a classe social, lesbofobia e transmisoginia.
A melhor forma de entender a importância do feminismo negro é através do discurso de Sojourner Truth, uma ex-escrava norte americana e ativista dos direitos das mulheres, que chocou o mundo com seu texto “E não sou eu uma mulher?” em 1851:
“Bem crianças, onde há muita algazarra, deve haver alguma coisa fora da ordem. Eu acho que com essa mistura de negros do sul e mulheres do norte, todos falando sobre direitos… os homens brancos vão estar em uma enrascada rapidinho. Mas sobre o que estamos falando aqui?
Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, serem levantadas sobre valas e ter o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, ou me deu qualquer “melhor lugar”! E não sou uma mulher? Olhem para mim!
Olhem para meus braços! Arei a terra, plantei, juntei a colheita nos celeiros, e nenhum homem podia se igualar a mim! E não sou eu uma mulher? Eu podia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem — quando eu conseguia comida — e suportar o chicote também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei meu luto de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?
Daí eles falam dessa coisa na cabeça… como eles chamam isso? Intelecto. É isso mesmo, querido. Bem, o que isso tem a ver com os direitos das mulheres? Ou com o direito dos negros? Se o meu copo não tem mais que um quarto, e o seu está cheio, não seria maldade não deixar que eu tenha minha meia medida cheia?
E aí vem aquele homenzinho de preto ali e diz: “Mulheres não podem ter os mesmos direitos que homens porque Cristo não era mulher!” Ora, de onde veio o seu Cristo? De onde veio o seu Cristo? De Deus e de uma mulher! Homens não tiveram nada a ver com isso. Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo sozinha, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de colocar ele de cabeça pra cima de novo! E agora que elas estão pedindo para fazer isso, é melhor os homens deixarem!”
Dizendo SIM a beleza negra
Um reflexo da colonização é a valorização de características europeias que persiste até os dias atuais, sendo muito utilizada para diminuir a mulher negra na sociedade.
Alisar o cabelo porque o “crespo é feio”, ouvir piadas pelos lábios carnudos, achar o nariz feio por ter o formato diferente e sofrer com a hiperssexualização desde a infância são situações que perseguem as mulheres negras levando-as a, muitas vezes, esconder suas características naturais em busca da aceitação da sociedade preconceituosa.
Só nos últimos anos as fabricantes de brinquedos começaram a se preocupar em disponibilizar bonecas negras. Isso significa que milhares de meninas negras, de diferentes gerações, cresceram sem qualquer representatividade nos brinquedos que consumiam.
As mulheres negras sofrem com os estereótipos desde a infância, muitas afirmam ter ouvido que não podiam ser mamãe nas brincadeiras de casinha porque eram negras e as bonecas, que representavam suas filhas, brancas.

Antes de finalizar, gostaríamos de trazer um trecho do livro “Quem tem Medo do Feminismo Negro?” de Djalma Ribeiro:
“Somos fortes porque o Estado é omisso, porque precisamos enfrentar uma realidade violenta. Na época da escravidão mulheres negras tinham de ser fortes o suficiente para cometer infanticídio, causando um “prejuízo” aos senhores de engenho e se declarando como donas de suas fertilidades.
Internalizar a guerreira, na verdade, pode ser mais uma forma de morrer. Reconhecer fragilidades, dores e saber pedir ajuda são formas de restituir as humanidades negadas. O direito à saúde mental nunca foi alcançado pela população negra, ter acesso à tratamentos psicológicos sempre foi um lugar de privilégio. Hoje o feminismo negro luta também por esse direito.
Nem subalternizada nem guerreira natural: humana.
Mulher mulata e de mulher do cuidado.
Porque grupos historicamente discriminados — como mulheres, negros e mulheres negras — carregam estigmas e estereótipos criados pelo machismo e pelo racismo. Como diz a historiadora Joan Scott em “O enigma da igualdade”, “como objeto de discriminação, alguém é transformado em estereótipo”.
Infelizmente a população negra como um todo tem interiorizado os estereótipos. A hipersexualização dos corpos negros, o silenciamento, julgamento de intelectos inferiores, não demonstrarmos sentimentos por sobrevivência, foram absorvidos pela população. O feminismo negro diaspórico com seus grupos de militância buscam trabalhar essas questões na mente dessas pessoas, o feminismo negro é o que chamamos de processo de cura.”
Por sofrerem opressões diferentes, as mulheres negras necessitam de voz para lutar por coisas que as mulheres brancas sequer cogitam que possam acontecer com elas, por isso precisamos do feminismo negro.
Quer saber mais sobre o tema? Essas são as indicações do Fluxo para você:
· Espaço: Casa de Cultura da Mulher Negra
Av. Pres. Wilson, 10 — Gonzaga, Santos — SP, 11060–210
· Livro: Ain’t I a Woman?, Bell Hooks, de 1981. (Foi inspirado no famoso discurso homônimo de Sojourner Truth, proferido na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio, em 1851)
· Livro: Quem tem medo do feminismo negro?, Djalma Ribeiro.
· Pesquisa: Mapô, núcleo interdisciplinar de estudos em raça, gênero e sexualidade da Unifesp
· Blog: Blogueiras Negras
· Música: Na Beira — Luedji Luna
· Estudo: Dossiê das mulheres negras
