Reflexões sobre Movimento Estudantil

Por Iago Gomes (Militante do Coletivo Juntos! e estudante de Filosofia na UEFS)

O movimento estudantil cumpre uma tarefa importantíssima na construção de um outro modelo de sociedade. Sua construção histórica é fundamental para entendermos todo o processo de disputa interna ao capitalismo e crucial como táctica para as conquistas, afinal possuem tarefas necessárias e está mergulhado no otimismo da nova geração e conhecem na carne os problemas de uma sociedade marcada pela exploração e opressão, consequentemente é a juventude sem casa, sem trabalho, sem escola e sem medo que pode aprender e ensinar os caminhos da transformação.

Porém a trajetória de luta e aprendizado é marcada por erros e acertos e carrega sempre as marcas do contexto social e histórico em que estão inseridos. Não somos somente sujeitos individuais, mas produtos de uma série de elementos que mesmo sem nos darmos conta nos influencia e nos torna sermos o que somos. A ideia de “movimento” é porque estamos o tempo inteiro em transformação e como consequência e causa o mundo em que estamos também. Não à toa, nossas emoções, nossa forma de pensar, nossas escolhas e confusões atingem um grau elevado em momentos de crise econômica tão intensa, porque nossas vidas são afetadas diretamente pela falta de emprego, pelas exigências que a escola e a universidade nos impõe, pelas cobranças familiares, pela incerteza no futuro, pela situação em que se encontra o lugar que estudamos, que moramos, etc.. Nós, militantes, não somos heróis e imunes de tudo isso. Somos sujeitos inseridos diretamente dentro de um sistema que possui inúmeras e infinitas contradições e que nos afeta.

Muitos textos têm tratado do quanto a militância tem adoecido os sujeitos de forma a afastar a juventude de uma aproximação com ela. Meu desafio é mostrar em como o ambiente de militância não é uma bolha isolada do sistema, em como ela não é o problema maior e em como se tornou um desafio refletirmos o ambiente e as práticas militantes para que não se tornem uma impossibilidade na vida das novas e novas gerações.

O primeiro ponto é a repetição. Pertencemos a um século em que aprendemos a questionar o tempo inteiro. Não se trata da geração problematização, mas da geração que busca refletir o tempo inteiro sobre o nós e o vós. Não aceitamos mais em ambientes de militância práticas LGBTfóbicas, machistas, racistas, gordofóbicas, etc.. Isso quer dizer que elas não acontecem? Não. Isso quer dizer que elas sempre foram comuns dentro e fora da militância, porque fazem parte de um sistema que naturaliza as opressões. Não concordamos com direções velhas ditando o que devemos fazer sem ao menos buscar construir um método dialético que nos faça entender o quanto isto ou aquilo é importante. Questionamos os métodos e construções ideológicas que falsifica a cultura da democracia profunda, como o estalinismo. Essencialmente esse último ponto nos trás outros desafios que é o de avançarmos em debates caros para a esquerda, no beber das experiências práticas, como Junho de 2013, nas lutas dos secundaristas nas ocupações de escolas, na luta das mulheres e do movimento negro sem perder a tradição com o legado que Lênin e Trotsky deixou em contrapeso ao declínio levado por Stálin à URSS. Enfim, a repetição de erros da esquerda tradicional que se ausenta de beber dos novos fenômenos são questionadas e dentro do Movimento Estudantil isso pode ter uma repercussão positiva (nas organizações e espaços onde é bem vinda a crítica), ou pode ter uma repercussão negativa (nas organizações e espaços em que acham que isso se trata de um fenômeno ruim para a tradição militante).

O segundo ponto é o método. Muitas vezes em que em espaços de militância questionei esse ponto, organizações mais apegadas à tradição e endurecidas não enxergaram com bons olhos, com isso talvez seja um ponto polêmico, mas necessário. No Brasil, com as Jornadas de Junho de 2013, um marco na nova geração, novos desafios surgem para a esquerda. Questionados, os sindicatos e velhos partidos foram colocados contra a parede. Já não se admite mais grandes trios elétricos a frente de manifestações; não era aceito líderes e figuras mais velhas falando pela nova geração; a representação de somente homens/brancos/héteros/cis passou a ser questionada; a flexibilização das pautas, alinhando as identitárias às mais econômicas passou a ser uma exigência, etc.. São muitas as modificações dos métodos da nova geração e que culminaram em grandes radicalizações das lutas recentes no país e no mundo: ocupações de escolas, primavera feminista, secundaristas contra Trump assim que o mesmo foi eleito, etc.. É a prova material que os sindicatos e antigas organizações têm muito a aprender com a nova geração, principalmente em épocas duras com a aprovação da Reforma Trabalhista e o fim da obrigatoriedade do imposto sindical. É verdade que a geração ainda é marcada pela perda de contribuições importantes da tradição militante, por exemplo a dificuldade em unir a teoria à prática. Somos uma geração muito afetada pelas redes sociais, pelo bum da internet e esquecimento dos livros. Temos lido e produzido muito pouco. Isso tem nos limitado em aprender/ensinar com a teoria e aprender/ensinar com a prática. É preciso aprender com a tradição: formar organismo, ter reuniões de trabalho e espaços de estudos periódicos, formação e debates sobre a conjuntura atual, participar de mobilizações de rua, de bairros, nas escolas e universidades, etc..

“À primeira vista, naturalmente, parece que aprender o comunismo é assimilar o conjunto dos conhecimentos expostos nos manuais, folhetos e trabalhos comunistas. Porém essa definição seria demasiado absurda e insuficiente. Se o estudo do comunismo consistisse unicamente em saber o que dizem os trabalhos, livros e folhetos comunistas, isto nos daria facilmente exegetas ou fanfarrões comunistas, o que muitas vezes nos causaria dano e prejuízo, porque estes homens, depois de haver lido muito e aprendido o que se expõe nos livros e folhetos comunistas, seriam incapazes de coordenar todos esses conhecimentos e de trabalhar como realmente exige o comunismo.” (Lênin em As Tarefas Revolucionárias da Juventude Comunista)

Terceiro ponto, a individualização. Não aprofundarei muito nesse aspecto por entender que como efeito do capitalismo e o aprofundamento após a ascensão das teorias pós-modernizantes a partir da década de 80, já é muito discutido, mas é necessário exemplificar. Os balanços individuais de militantes, onde os mesmos passam por uma “judicialização”, com direito a interrogatórios e questionamentos morais é um problema. Fazer, por exemplo, de um DCE ou uma Assembleia Estudantil instâncias onde as organizações e demais militantes fecham o cerco sobre militantes apontando aspectos individuais e morais é cruel e adoece. É uma prática que precisa ser questionada, afinal a construção de um projeto oposto não é coletivo? Porque então os acertos são coletivos e os erros são individualizados? Não posso deixar de comentar em como isso se dá no trato às opressões. A nova geração está em constante aprendizado. Cometem racismo, machismo, LGBTfobia e outras formas de opressão e devem ser punidos e educados para que avancem. O método do escracho que tem relação com todos os pontos deve ser utilizado para nossos inimigos reais, que tem consciência do que fazem e nunca se colocam a disposição de avançar, e jamais deve ser colocado como final em si mesmo. É tático. Não pode servir de autofagocitose de nossos aliados e de si mesmo.

Por fim, o quarto e último ponto, o autoritarismo*. O capitalismo nos impõe o tempo inteiro uma forma de agir, de pensar, e consequentemente reproduzimos isso em nossas relações. A escola, a família, a Igreja fazem isso. Aprendemos a impor nossa opinião e isso é fortalecido por muitos fatores como gênero, identidade sexual, raça, classe social a qual pertencemos, além das condições históricas e culturais dos locais em que nos inserimos. Por exemplo, na Bahia a marca do coronelismo exposta ainda no carlismo² e que marcou gerações que viveram e o enfrentaram sendo movimentos sociais e movimento estudantil universitário, nos deixou feridas e métodos que nos endureceu, somado a isto a manutenção da política com os governos do PT no estado e que desesperançou quem creditou ao partido um projeto construído conjuntamente explica não a diferença com métodos de quem constrói coletivos e/ou partidos (afinal, diferenças ideológicas existem), mas ajuda a compreender o porquê que o autonomismo e os autonomistas repudiam, confrontam, escracham e perseguem a militância organizada, usando métodos como questionar a negritude de pessoas negras de pele clara, chamar de “colonizadas” pessoas negras organizadas, rir de falas em espaços públicos, etc.. Esse ponto também nos faz abrir um leque de reflexões como a necessidade de aproximação de direção com a base. De buscar o diálogo como um exercício de superação da autoridade sem entendimento e avançar numa unidade coletiva, afinal sempre que estamos exercendo o autoritarismo, estamos também sendo LGBTfóbicos (calando LGBTs), racistas (silenciando negras e negros) e machistas (apagando, assediando e silenciando mulheres). E muito já nos pesa a história que sempre nos matou e continua nos matando.

Quero colocar que essa discussão não se encerra com somente esses pontos e que minha intenção é abrir um debate necessário para a juventude que tem se tornado protagonista da luta política no país e no mundo, estando a frente de grandes momentos de nossa história. Que aprendamos com nossos erros e que a gente construa solidez coletiva, servindo ao que Lênin/Trotsky e muitos outros revolucionários tanto produziram e ensinaram sobre: as tarefas necessárias para junto à classe trabalhadora do presente (porque seremos a do futuro) construa uma sociedade sem exploração e sem opressão, aprendendo com o movimento da prática da realidade, como em muito aprendemos com a luta da juventude e em sintonia com a tradição da luta revolucionária.

*Não confundir o termo autoritarismo aqui empregado com o usualmente usado para se referir a defesa de Marx da emancipação da classe trabalhadora e a tomada de poder.
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