Relato de uma mulher negra sobre as (des)Reformas de Temer
Miriam Hapuque Magalhães (Mulher Negra, LGBT e Militante do Juntos!)
“Quando uma mulher negra se movimenta, toda uma estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo está desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontra como mulheres negras, muda-se uma base do capitalismo” — Angela Davis em palestra na UFBA

Outro dia, durante a leitura de um jornal que trazia a notícia da aprovação das (des)Reformas Trabalhista e Previdenciária, não pude deixar de lembrar de minha mãe e de tantas outras mulheres que convergem nessa mesma trajetória de vida, em especial a nós, enquanto mulheres negras. Não existe nada de errado em desempenhar o trabalho de doméstica, muitas mulheres assim como mainha ganham a vida dignamente através desse trabalho, porém não podemos negar que infelizmente esse trabalho está ligado ao período escravagista, dadas às condições de trabalho e o baixíssimo salário e o fato de que a maioria de mulheres que desempenham essa função são mulheres negras. Estive pensando no quanto essas reformas atingirão essas mulheres.
Semelhante a mim, mainha começou a trabalhar ainda muito nova, tinha apenas 13 anos e trabalhava em troca do pratinho de comida. Eu comecei aos 15 anos como babá, ganhava menos da metade de um salário mínimo na época e mesmo com uma rotina e grandes responsabilidades, era esse meu pagamento no final de todo mês de trabalho duro, onde eu tinha que conciliar trabalho e escola. Meu pagamento era usado para ajudar nas despesas de casa e eu ficava com pouquíssima coisa dele. Mainha têm agora 47 anos e ao longo de sua trajetória profissional assinou a carteira de trabalho apenas 4 vezes, com tempo de permanência curto, pois as patroas tinham a opção de contratar outra empregada sem assinar a carteira de trabalho, ou seja, mainha sempre trabalhou na informalidade, pouco pode contribuir com INSS, mesmo querendo ter a carteira assinada e os direitos garantidos, porém as patroas sempre optaram pelo “ acordo “ onde ela ouvia e aceitava ou procurava outro trabalho. Tenho 27 anos e sempre trabalhei de forma informal também, tive minha carteira de trabalho assinada apenas uma única vez na vida. Essa realidade minha e de minha mãe é a realidade de muitas infelizmente.
Com a PEC das empregadas domésticas aprovada no ano de 2015, que regulamentava a profissão e garantia através de lei os direitos trabalhistas para as domésticas, ganhamos uma esperança de que mainha teria sua carteira assinada nos empregos posteriores, e assim como ela toda a categoria tinha esperança. Mas veio Michel Temer e o duro golpe: As (des)Reformas, que nada mais são que medidas para que patrões ricos economizem seu dinheiro, pois elas permitirão que os empregadores continuem como antes impondo às condições de trabalho e poderão negociar os direitos trabalhistas, o que constitui um enorme retrocesso e a perpetuação da exploração da classe e da precarização das condições de trabalho.
Mainha continua trabalhando de empregada doméstica, mesmo sentindo muitas dores no corpo provenientes das condições de trabalho às quais ela acaba se submetendo para manter o emprego. Eu atualmente trabalho como vendedora numa loja de roupas informalmente, assim como mainha e muitas outras mulheres. Talvez morreremos sem aposentadoria, ou seja trabalharemos até a morte e só a nossa organização e enfrentamento podem mudar o futuro.