Nélida Piñon, A Camisa do Marido

A “Camisa do Marido” (2014), de Nélida Piñon, narra conflitos e situações familiares. Muitas vezes analisando microcosmos. Ao todo, são nove contos. A autora utiliza técnicas narrativas bem variadas e uma diversidade vocabular interessante.

Os contos que mais gostei foram “O trem” e “Dulcineia”. No primeiro, acompanhamos os devaneios de um pai, que vive com a família vive no interior de Minas Gerais, numa cidade que parece ter sido esquecida, inclusive pelo trem, que deixou de passar naquela estação, restando apenas uma estação deteriorada junto a uma carcaça de trem. Quase como os restos de um navio no fundo do mar. O pai, que vive de alimentar as fantasias dos filhos, leva a família para passar uma tarde dentro do trem, que viaja de lá para as cidades mais interessantes do mundo — Paris, Bogotá, Bagdá, Cuzco etc. Nesse percurso, a escritora possibilita um universo poético, em que tudo é possível e a loucura é mais do que alimento.

No conto “Dulcineia”, revivemos a história de Dom Quixote e Sancho Pança. Esses personagens são reavivados por Nélida. Quando param numa taverna, Dom Quixote fica fascinado pela humilde garçonete Maritornes, que é confundida, pelo cavaleiro, com Dulcineia, provocando uma crise existencial profunda na mulher que jamais sequer imaginou-se ocupando um lugar de maior importância do que o lugar social que lhe foi pré-estabelecido. Uma linda reflexão filosófica, inclusive sobre a condição de uma mulher humilde, à época. A revelia dos mais diversos abusos e variadas intromissões naturalizados, inclusive para a vítima, que só passa a questionar isso tudo quando percebe a possibilidade de ser alguém diferente.

Os contos de Nélida não são tão curtos e, às vezes, até tem o aspecto de romance, a narradora parece não temer o tempo e o espaço no momento de construir a estória. No conto que dá nome ao livro, temos a oportunidade de visualizar os fatos por meio de vários narradores, a mãe tem mais espaço, e os filhos entram vez ou outra para dar seu ponto de vista, ou contar sua versão dos fatos. Demonstrando que as relações familiares são difíceis de ser compreendidas e que versões simplistas não são suficientes para abarcar os meandros das relações humanas, especialmente daquelas mais íntimas e complexas.

Um livro para quem não tem pressa e para quem gosta de polifonia narrativa.

Redação: Ananda Sampaio

Revisão: Ceiça Souza

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