Um barraco de travestis, gays e drags

Ocupação Big brother/Recife-PE

por Filipe Mendes

08–07–2015


Passou-se muito tempo até que eu voltasse ao Big brother. Fugi por muitas estradas ou talvez tenha aberto outros infinitos, perverso e livre de coração. Resolvi re-aproximar-me já com os peitos fechados pronto pra trabalhar e documentar o que víamos quando estávamos com as cabeças cansadas dez anos atrás. Eu e mais alguns amigos frequentávamos o ambiente que era uma antiga fábrica abandonada num bairro de prestígio da zona sul e terminou sendo ocupada por grupos da comunidade Beira-rio. Não haviam distinções de classes na época, todos éramos galos velhos, bichos e pardais. Alegre como um rio falava Belchior em meus ouvidos quando encontrei Ketlin Fly, clara e fácil, falando das coisas que acontecem todo dia e sem muita conversa disse que gostaria de fotografa-la. Pegou o celular e chamou Lucas o gay pra ajudar na preparação e disse que estava aguardando o companheiro travesti. Paola chegou nervosa e impaciente mas resolvi logo falar pelos cotovelos pra que ela deixasse de frescura e entrasse na onda também, ela estava com medo sei la do que. O barraco estava muito quente e com os três fumando ao mesmo tempo comecei a fotografar durante a preparação da drag, enquanto feria-lhes a intimidade. Queria desconstruir e trazer nessa inserção o que existe de mais bonito naquele ambiente visto como um lugar deprimente por quem passa e olha de lado. Adoro aquelas pessoas. Essa história é de apenas um barraco da comunidade Big brother.



Depois que consegui registros suficientes e de estarmos muito a vontade, resolvemos descer para o meio dos carros no horário de pico pra fazer uma única foto rápida, pra finalizar. Foi o tempo de um sinal vermelho, os carros buzinavam, as pessoas gritavam, zombavam, não era um gesto de valor mas de deboche e preconceito. Até então estávamos envolvidos na magia da personagem Drag, naquele momento sentimos o peso do mundo, caiu a ficha e subimos pra o barraco (como eles chamam) mas é uma casa. Ela chegou, tirou a roupa, a peruca e o silêncio. Talvez tenha abraçado o mundo inteiro naquele gesto de entrega no ponto mais alto da laje, talvez ela tenha se sentido livre por alguns segundos lá em cima, e talvez seja esse o sentido de transformar-se, de simplesmente ser, de libertar-se.


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