Como Escrever Sobre Pessoas Trans Sem Ser um Lixo Transfóbico

Artista: Kahalia — Instagram — Facebook — Apoia.se

Uma guia básica para jornalistas, estudantes, pesquisadories e pessoas cis no geral.

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Vou contar um segredinho pra vocês, jornalistas: pessoas trans são seres humanos, iguais a vocês! Pessoas trans são, além de todas as diferenças óbvias e importantes, pessoas comuns, que merecem respeito e dignidade. Se uma se dispõe a contar sua história, é obrigação básica des jornalistas ou da equipe produzindo a matéria respeitar essa pessoa, prover um ambiente confortável e deixar espaço pra ela respirar um pouco; ou seja, tá proibido invadir o espaço pessoal dela.

Não é porque alguém é trans que essa pessoa automaticamente seja obrigada a falar sobre seus genitais, não é porque uma pessoa está sendo entrevistada sobre o fato dela ser trans que a entrevista precisa girar ao redor de seus genitais. Chega de tratar a gente como pintos, bucetas e outras genitálias ambulantes! Ser trans vai muito além do que você tem entre as pernas, e de como você nasceu. Ninguém nasce “no corpo errado”, porque não existe corpo errado: o que existe é uma imposição de uma expectativa excludente de que todo corpo será de tal jeito, de acordo com o padrão cisgênero e diádico (não-intersexo). Até porque ninguém “nasce” menina ou menino, a gente nasce um ser humano e somos rotulades e temos gêneros impostos a nós de acordo com o que a gente tem entre as pernas. O gênero “de verdade” não é o que consta nos documentos ou na genitália, mas o que a pessoa reivindica pra si mesma.

Outra coisa, ficar perguntando constantemente sobre genitálias, sobre como a pessoa era antes de se assumir ou de iniciar a hormonização pode engatilhar a disforia de gênero1, uma sensação extremamente desagradável2 de desconforto com seu corpo/seu gênero, que pode levar a crises de pânico ou qualquer outro problema que poderia ser facilmente evitado. Mas não é porque a pessoa é trans que ela é obrigada a sentir disforia em relação ao seu corpo ou aos seus genitais. Existem várias formas de disforia, disforia social, por exemplo: uma sensação de disforia ligada a situações sociais, como alguém errar seus pronomes ou te tratar como o gênero errado, ou a maneira em que a sociedade te percebe e te trata por causa de sua aparência etc. A disforia também aparece como sintoma de várias neurodivergências e outras condições médicas, como a depressão, transtorno de personalidade borderline, o estresse e transtornos de ansiedade etc…

Como eu disse antes, o seu dever é oferecer um ambiente agradável e confortável à pessoa que você vai entrevistar/que vai colaborar com seu trabalho. Pense nela como um ser humano digno de respeito, independente das diferenças entre vocês dues (2). Você perguntaria pra uma pessoa cis se ela tem pinto ou buceta? Você se sentiria tranquile se algume desconhecide qualquer chegasse perguntando isso a você? Se é considerado desrespeitoso ou constrangedor quando rola contigo ou com outra pessoa cis, pode crer que o mesmo vale pras pessoas trans. Elas não são robôs sem sentimentos e nem bichos exóticos de outro planeta feitos com o único propósito de entreter vocês e saciar suas curiosidades. E além disso tudo, se a pessoa quisesse mostrar seu nome de registro ou suas fotos de “antes”, não acha que ela teria mantido o nome e o visual? Qual é a porra da necessidade de ficar mostrando nome de registro, “Fulano virou Fulana”; “Quando Fulana era Fulano”; “Nasceu fulane”; qual a porra de necessidade de mostrar uma foto de uma mulher trans quando ela usava barba e bermudão? Porra cadê o bom senso?

As pessoas trans não foram criadas com o único objetivo de ser a wikipédia personal das pessoas cisgêneras, nem toda pessoa trans tem paciência pra responder toda e qualquer dúvida que poderia ser facilmente respondida por uma pesquisa de 1 minuto no google, e nenhuma delas é obrigada a ser paciente. Nem toda pessoa trans se sente confortável pra falar sobre seu gênero ou sua experiência, as violências e as dificuldades que a transfobia causa nas nossas vidas, e isso é um direito delas, a gente deve respeitar a privacidade delas e não devemos forçar a barra. Mas se você conseguir achar alguém disposte a responder suas dúvidas ou a fazer uma entrevista, tenha o mínimo de boa vontade pra pesquisar por você mesme algumas coisas, ok? Faça uma pesquisa básica primeiramente, e depois conversa com a pessoa pra ver se suas fontes são confiáveis ou válidas, ou pra descobrir qual é a versão dela (porque a transgeneridade não é algo unidimensional ou exata, também). É legal comparar as informações e ver como a comunidade trans é diversa e especial.

É fato que você realmente não vai achar tudo só pesquisando pelo google, até porque existem várias fontes de péssima qualidade, MAS você se esforçar o mínimo pra tentar compreender o assunto que você mesme escolheu pra estudar/abordar já mostra uma boa fé pra pessoa trans que vai te dar uma força. Tem hora que parece que as pessoas cis-hetero escolhem falar da transgeneridade, ou qualquer outro grupo marginalizado, como as divergências sexuais (LGBQ+), só pra ganhar biscoito ou pra surfar na onda de popularidade momentânea do assunto. Esse tipo de atitude, de chegar lá sem saber o básico do assunto, e esperar que a pessoa te dê uma aula, quase sempre de graça, sobre toda a história e toda a complexidade da comunidade trans, às vezes de madrugada (cadê o bom senso?), escorar mesmo na pessoa sem se esforçar pra refletir sobre suas respostas etc., e depois nem ao menos agradecer pela paciência e a disposição faz a gente se sentir uma bosta. Aposto que a maioria das pessoas trans assumidas, independente se são militantes, já receberam várias mensagens de estudantes do ensino superior pedindo ajuda pra abordar o gênero, a sexualidade, o caralho a quatro num trabalho, de pessoas desconhecidas mesmo, e depois de fazer praticamente TODO o trabalho árduo, DE GRAÇA, foram descartadas. Geralmente esse povo nem sequer manda os resultados das pesquisas ou falam como foi a apresentação do trabalho etc., simplesmente usam a gente como ferramenta de pesquisa e vazam. Quantas dessas pessoas trans já receberam mensagens de pessoas desconhecidas chamando elas pra tomar um café, um suco, ir a um rolê (de forma totalmente inocente e sem segundas intenções), duma pessoa que quer conhecer quem elas são além da transgeneridade? De pessoas que querem se tornar amigas, que querem dar apoio sincero, que se interessam realmente pelo que a pessoa passa e quer realmente entender como podem ajudar a causa Trans e os seres humanos dentro da comunidade T? “T-lovers” (popularmente traduzido como “travequeiros”) não contam.

Esses dias vi uma corrente se espalhando entre mis amigues no facebook, “o que você sabe de mim além do fato deu ser trans?”. Redes sociais não são muito boas pra medir o conhecimento que você tem de alguém, mas o fato da maioria das pessoas não procurar descobrir nada além disso, tratar as pessoas trans como espetáculos de circo (“ahazou, mana”) e nada além disso, ou tratá-las como professoras dispostas a darem aula 24h sem agradecimento algum etc. faz a gente refletir sobre como é ser trans na sociedade.

Quando vocês tratam a gente desse jeito diferenciado vocês estão exotificando a gente, separando nós do grupo das pessoas “normais”, das pessoas que podem ser o que quiserem, das pessoas que merecem amor e afeto, que merecem ter uma identidade complexa e ilimitada. Além dos aspectos negativos da exotificação, aquela tentativa de romantizar a comunidade trans também afeta a gente. “Lacrou, diva!”, vocês tem toda a disposição pra comentar nas nossas postagens e nas nossas fotos de perfil, mas e aí? Quem quer beijar a gente, quem quer transar com a gente fora da internet? E mesmo assim, existe muita gente que fetichiza pessoas trans, que só quer se relacionar fisicamente com a gente porque sente “curiosidade” etc. Isso é bem escroto. Mas e aí, quem quer andar de mãos dadas em público conosco, quem quer assistir um filminho, só dar uns abraços e conversar com a gente? Perguntar como foi nosso dia, perguntar quais são nossos interesses, nossas ambições, que memes a gente gosta? Quase ninguém, porque esse papo de “ai as trans são maravilhosas” só fica na internet mesmo, ninguém tem disposição de abrir mão de seus privilégios pra assumir um rolê mais íntimo ou construir uma relação duradoura e substancial com a gente, seja de namoro ou amizade ou qualquer outro tipo. Será que é mesmo tão empoderador receber centenas de elogios na foto de perfil e não encontrar 01 alma que queira desenvolver algo contigo, como fazem com as pessoas cis? Além disso tudo, tratar a gente como seres místicos, como fadas ou unicórnios, meio que desumaniza a gente e abre brecha pras desculpinhas tipo “ai mas você é tão linde que eu nem sei lidar”, e aí desaparece para sempre. Até porque quase ninguém consegue alcançar as expectativas elitistas e distorcidas da mídia, de vocês cis, sobre o que é ser trans e como uma pessoa trans deve parecer.

Enfim, pessoas trans vão muito além de objetos de estudo pra gente cis, e a gente tá cansade de vocês procurarem a gente só pra esse papel. Não é porque alguém é trans que a totalidade de sua vida se resume a isso, existem outros assuntos pra incluir nas entrevistas (“como é a vida de uma professora trans”…), e se vocês insistem em falar sobre a nossa transgeneridade, ao menos faça de maneira empática, e não como uma criança que vai ao zoológico fala dos animais que viu lá. E além de tudo, busquem outras entrevistas, outros artigos, verifiquem que vocês não estão produzindo mais do mesmo de sempre, tentem quebrar os moldes do que pode significar um texto sobre a transgeneridade ou uma pessoa trans, tentem inovar. Um primeiro passo e uma grande inovação seria tratar a gente como ser humano.

*Obs: não sou aquelas pessoas chatas que ficam reclamando da tal da “geração tombamento”, só usei “lacrou” etc. porque são gírias comuns no meio LGBTQ+ e são frequentemente usadas em relação à gente, imagino que por causa da imagem das drag queens glamourosas etc. que o povo insiste em projetar nas pessoas trans.

1 Disforia de gênero: Sentimento de não-pertencimento/inadequação a um determinado gênero causado por uma falha em cumprir as expectativas de uma norma social perversa, que opera no sentido de deslegitimar corpos não-cisgêneros. A sensação, por exemplo, de que possuir determinados genitais deslegitima seu gênero pode ser um exemplo de disforia.

2 A disforia não deve ser confundida com o Transtorno Dismórfico Corporal: um transtorno psicológico muito grave no qual uma pessoa se torna excessivamente obsessiva com algum aspecto da aparência física, a nível de se tornar extremamente depressiva.

~Texto por Cosmo