Quantas pessoas trans ainda tem que morrer pra sua piada perder a graça?

Foto: Hector Mata/Aft/Getty Images

“Quantas pessoas transgêneras precisam morrer para que você se conscientize?”

Por: Luci Silva
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AVISO: menção de morte, suicídio e violência

“Sua piada mata travesti todos os dias”.

Quando lemos essas palavras, pensamos estritamente sobre a transfobia que impacta diretamente nos números alarmantes de assassinatos e agressão física que atingem a população trans. Já que no Brasil um assassinato de uma pessoa trans acontece a cada 28 horas. Mas será que é só esse tipo de violência que mata pessoas trans e travestis todos os dias?

Pesquisas mostram que neuroatipicidades como a depressão e ansiedade incidem nesse grupo de pessoas com mais frequência, demonstrado no dado de que 41% dessas pessoas já tentou cometer suicídio. E, combinando essa a outras estatísticas, vemos esse número crescer cada vez mais se as pessoas são marginalizadas pela sociedade de outras formas, como, por exemplo, sendo negra ou pobre.

O suicídio da população trans pode ser associado a inúmeros fatores, os principais são: bullying e cyberbullying, medo da não aceitação familiar e/ou social, isolação social, depressão; expulsões que acontecem dentro de casa, no mercado de trabalho e no meio escolar; entre outros.

A palavra transpsicogenerocídio (-trans -psico -gênero -cídio) estará sendo utilizada pela primeira vez nesse documento para dar foco e visibilidade a esse fato. Ela se refere exclusivamente ao suicídio da população trans pela negligência social e impossibilidade de resistência e existência social. A comunidade trans, inclusive, fala muita sobre esse assassinato social, para retirar a culpa da vítima sobre sua morte e direcionar ela a sociedade.

Um caso recente que veio a mídia de um transpsicogenerocídio, foi o de um adolescente trans que se matou depois de enfermeiras insistirem em tratá-lo no feminino. “Kyler era vítima constante de cyberbullying e sua mãe recorreu ao hospital na tentativa de obter ajuda quando seu filho externou seu desespero. Segundo sua mãe, as enfermeiras o tratavam insistentemente no feminino e se referiam a ele como “uma garota”, o que apenas intensificou seus sentimentos de ansiedade e depressão. O comportamento dos funcionários do hospital o deixaram ainda mais agitado e traumatizado, culminando em seu suicídio no dia 18 de maio. Ele tinha apenas 14 anos.”

Foto: SunwardFlag

Agressões psicológicas às pessoas trans acontecem diariamente, em diferentes níveis e espaços. No Brasil, não há qualquer canal de denúncias ou leis específicas para se recorrer nesses casos, o que faz uma grande maioria das vitimas desistir debuscar justiça. E não sendo denunciado, o assunto não vem a ter a atenção necessária.

A violência psicológica é muito comum na internet. O chamado cyberbullying é completamente nocivo para pessoas em geral, sendo elas neuroatípicas ou não. É uma agressão que pode provocar fins trágicos nas vidas das vitimas agravando ou causando pensamentos suicidas e neuroatipicidades em geral.

Há também, um grande problema da mídia em seus conteúdos envolvendo gênero. A abordagem que é feita com pessoas trans e trans não binárias reflete a realidade: toda uma sociedade sem recursos e desprovida de conhecimento pra lidar com essas pessoas. O que temos então além da invisibilidade, são materiais informativos que abordam o assunto de forma rasa e falha. Impedindo que o diálogo aja eficientemente e eduque pessoas.

A falta de informação é a maior vilã, mas não a única, pois também há pessoas educadas para respeitar a diversidade deixando prevalecer suas crenças pessoais. Isso deixa que coisas tão importantes como as formas de tratamento social (nome social e pronomes), sejam banalizadas o tempo todo. Se nem o mínimo tem importância e é sendo valorizado, percebemos estar bem longe de qualquer equidade social.