Relato de Uma Relação Aberta Entre Uma Pessoa Cis Branca E Uma Trans Não-Binária Negra

Arte: Kahalia | InstagramApoia-se

Autoria: Luci

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Eu Luci, trans não binária* negra, por ter vivido uma relação aberta com uma pessoa cisgênera* branca quero falar sobre isso. Achei necessária a abertura de um diálogo pra pautar as situações que podem ser comuns a outras pessoas que estão vivendo a mesma experiência.

trans não binária*: pessoa que não se identifica com o gênero imposto ao nascimento e também não se identifica totalmente como homem ou mulher.
cisgênero*: pessoa que se identifica com o gênero imposto ao nascimento.

No começo quando foi aberta a relação, eu não tinha externizado minha expressão de gênero. Não tinha mudado minhas vestimentas totalmente, não passava tanta maquiagem etc. Então na mente das pessoas eu era só um gay afeminado.

E ali comecei a procurar pessoas em aplicativos que sempre usei quando me reconhecia no meio gay. Tirando a parte da opressão que já sofria sempre pela visão de “gay afeminada”, deu pra conversar com algumas pessoas.

O ABISMO: CIS — TRANS

Então me assumi trans, e comecei a me impor assim nos aplicativos colocando fotos minhas atuais de saia, maquiagem. O primeiro baque disso foi: as pessoas ficam dias até sem ninguém visualizar meu perfil.

Passei não utilizar mais esses aplicativos, porque ninguém me chamava, ninguém conversava comigo além de um “maravilhosa” “arrasou” “que lacre”. Percebi que o feedback era totalmente diferente. Senti que realmente ali não era meu espaço e que ninguém ia me querer ali. Passei a usar aplicativos héteros ou que no mínimo incluíam pessoas bi. E assim descobri que ali também não era meu espaço, ninguém me queria ali.

Todos os contatos que fiz com pessoas hetero/bi/pan não passaram de conversas, enrolações, de meu corpo sendo alvo de fetiche, curiosidade, novidade. Muitas pessoas combinavam comigo, liam meu perfil “Sou TRANS” e na mesma hora descombinavam. Daí, não consegui mais me envolver com ninguém.

Ao contrário, meu ex-parceiro era extremamente paquerado em todos os tipos de aplicativos que usava e facilmente conseguia se relacionar.

Era absurdamente explícito o quão ser uma pessoa de padrão étnico eurocêntrico te faz ser socialmente desejável. Não ter medo de se relacionar, nem de se preocupar com sua vida, com violência, com fetiche, com perceber que você só serve pra se relacionar na descrição, em ser tratada com seu gênero, raça e pronomes corretos.

Isso doía muito na pele. A solidão, sentir não ser tratada nem como humana, sentir que isso estava sendo divertido só pra quem se encaixa nos padrões cisheteronormativos.

Isso entrou em um monte de conversas nossas, mas ele nunca entendia porque isso acontecia. Tive que em várias dessas conversas também deixar bem claro que eu exigia nesses envolvimentos me vestir e ser que eu quisesse e queria ser tratada como “ela”. Ele achava perigoso, desnecessário e que eu poderia “me desmontar” pra ficar com outras pessoas: “é só uma gozada”, dizia. Quando, depois de muita conversa ele entendeu que ali não se tratava de alguém que “se veste”, mas se é, umas coisas mudaram.

NO SEXO A 3

Depois disso, quando ele achava alguém aberto a um menage, ele falava sobre a possibilidade de incluir — no caso eu — uma pessoa trans no sexo. E imediatamente muitas pessoas fugiam a possibilidade de se relacionar comigo, sem sequer ver minha foto: “ah não curto trans não”, diziam. Outras até se mostravam abertas a isso e deixavam nas entrelinhas que só fariam isso porque ele participaria. Das pessoas que ele conversou nunca acontecia de uma pessoa ter desejo de relacionar com a gente só porque eu também estaria lá. Das pessoas que conversei só queriam comigo, sozinha, pela discrição por já terem relacionamento com outras pessoas ou por medo da difamação social (tendo muito em mente que a palavra de um homem cis branco heteronormativo tem mais credibilidade que a da trans que é tida como louca), por fetiche em ver um corpo com pênis extereorizando feminilidade.

Não conseguimos mais fazer sexo a 3. E eu não consegui mais fazer sexo com outras pessoas.

São várias coisas que vem na cabeça quando se para pra pensar, “foda-se não vou também me relacionar com essas pessoas que não estão afim de mim por transfobia”, depois “mas eu quero me relacionar, quero me divertir com meu parceiro, será nunca vai rolar?” e depois ”por mais que não seja certo, talvez não seja tão ruim assim eu não usar as saias que eu tanto gosto, a unha pintada”. Terminava sempre em disforia, certas vezes extremas.

Muitas vezes me vi pedindo desculpas a ele por ter perdido o contatinho quando o convidou pra ficar com a gente. Eu sempre sabia que a culpa era minha mesmo.

A SOLIDÃO DA PESSOA TRANS NÃO BINÁRIA, FEMININA, NEGRA

Depois das tentativas, praticamente desistimos da ideia de sexo a três. Tinha muitos empecilhos — eu no caso.

Eu já estava desistindo de tentar ter uma relação aberta com ele, e ia “fechar” a minha parte. Doia demais passar por tudo isso, nem ele conseguia me fazer eu me sentir melhor ou acreditar que a nossa relação estava sendo ótima. Pensei que seria mais fácil pra mim engolir eu me privando da liberdade do que me privarem.

Isso tudo me levou a ver uma forçada solidão até dentro do relacionamento, na família, amigues, etc. Uma solidão como punição. Imposta por você ter características detestáveis e indesejadas na sociedade.

Pensando assim, enfrentei muita coisa pro relacionamento ser um pouco bom pra mim também, mas nunca estava sendo satisfatório. Uma pessoa que está do seu lado quando você é trans negra vai passar muitas vezes por esse processo de isolamento social, e perder seus privilégios por alguém — até depois do relacionamento terminar, porque se torna uma estigma social o fato de você sair com alguém trans — é algo que poucas pessoas farão, e isso também pode doer em você de duas formas. Uma por saber que a pessoas vai passar pelo que você passa por sua causa e outra por você saber que ela não vai fazer isso por sua causa. Vindo você a servir pra estar com a pessoa apenas em certos lugares, conhecer pessoas específicas.

Desde então me decidi a não priorizar relacionamentos com pessoas cis em geral. Mas priorizar relacionamentos com pessoas trans e negras. Por ser mais fácil, por ser mais uma força na sua luta, por ser alguém que vive aqui e te entende com propriedade, por ser menos doloroso pela compatibilidade de compreensão e empatia, por ser menos doloroso pra todo mundo envolvido.

Maria Clara Araújo dos Passos, hoje ainda reforçou esse meu pensamento em snaps contando “um dia conversando com um menino negro que eu me relaciono, ele falou sobre não precisar implorar pra que eu reconhecesse a humanidade dele. Isso tanto era uma situação que eu vivenciava com ele e ele comigo. Isso porque tanto eu quanto uma travesti, mulher negra, tanto ele quanto homem negro nós constantemente temos que fazer com que as pessoas nos vejam quanto seres humanos.”

Não quero dizer com esse texto que todos relacionamentos de pessoas cis trans de duas raças diferentes vão passar por isso.

Senti (sinto) ainda o peso de se reconhecer. Trago em minha existência e no corpo símbolos de resistência contra a normativa social. E assim eu toco em muitos pontos frágeis da sociedade. Pontos com a transgenereidade, a feminilididade e a negritude. Sempre símbolo de opressão e colonização de corpos.

Li isso hoje e acho que eu vou encerrar o texto com essa fala:

“ Mulheres negras e mulheres trans são frequentemente preteridas quando se trata de ter relações amorosas estáveis. Como é que a gente pode pedir pra pessoas que nunca tiveram a chance de viver a monogamia tradicional que a sociedade vende como maravilhosa desconstruírem a monogamia e se engajarem em relações livres?

[…] É complicado problematizar monogamia quando estamos falando de alguns recortes que abrangem pessoas que sempre tiveram/têm dificuldade em construir relações de afeto e respeito mútuos. “

Essa foi minha experiência — que obviamente não deve e nem vai servir pra todos relacionamentos de pessoas cis trans de duas raças diferentes. E você, tem alguma?