Tutorial De Como Ser Trans de Verdade

Arte: Kahalia | Instagram | Apoia-seTumblr

Autoria: Luci

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Alerta de ironia no título do texto! Primeiramente trans de mentira existe sim. Trans de mentira são as pessoas cis que fazem papel de trans na mídia. De resto, todo mundo que se identifica como trans é trans de verdade.

Me identifico socialmente como uma pessoa negra transfeminina, socialmente porque é só na sociedade que eu preciso ter um crachá me identificando, porque eu comigo mesma sou só a Luci. Eu preciso me identificar socialmente como negra, trans, transfeminina, não binária, pansexual, assexual fluida e mais um monte de coisa porque só assim que eu tenho a possibilidade de lutar pelos direitos que me ainda não me deram, de apontar as violências que me perseguem. Além disso foi só me identificando que consegui entender uma tonelada de coisas que eu sentia e vivia. Que isso fique BEM escuro, entendido?

E eu não estou fingindo, eu sou trans e não binária, mas fora da sociedade eu não sinto a necessidade de me dar um gênero, nem uma sexualidade, nem um nome certas horas. Não quero ter que pensar se o que eu estou vestindo vai me deixar feminina ou não, se alguém vai me identificar como feminina ou não e se isso vai me dar margem pra apanhar ou ser vítima de transfobia nas ruas.

Esses tempos tive muuuuuitos questionamentos na minha cabeça e muuuuita ideia rolando. E, ainda bem, todas tiveram conclusões. Por isso vou deixar a caixa alta pra vocês nunca esquecerem isso: SE QUESTIONEM, O TEMPO TODO, TUDO, TODOS, INCUINDO VOCÊ.

É só assim que a gente se liberta da ignorância, da intolerância, da falta de conhecimento, pensando, formando opinião própria. E hoje, estava aqui eu linda indo tomar banho, quando me deparo com o espelho e vejo uma PESSOA linda e amei pela primeira vez meu corpo, completamente. Foi a primeira vez que me senti realmente e totalmente livre e também a primeira vez que entendi o que eu tenho que fazer pra ser trans de verdade:

Primeiro passo: Deixar de só repetir discursos, mas entende-los e aplicá-los

Entender o que as palavras, frases e conceitos que a gente vive repetindo realmente significam e ficar passando elas na sua mente até fazerem sentido pra você: “Roupas não tem gênero” “Trans não é sobre modificar seu corpo ou estilo de vida” “Não binárie não é sobre ter uma aparência andrógina” “Sou trans, mas sou alguém além disso” “Gênero é uma construção social” “Nem toda pessoa trans quer modificar seu corpo” e etc.

Não adianta nada só ler a frase, tem que entender, tem que aplicar principalmente em você. Tudo muda ao seu redor quando você se posiciona, quando você forma seu pensamento crítico e principalmente quando você foge de ser um dicionário pronto e vira uma pessoa locutora de suas vivências.

Eu não to nada afim de forçar em mim uma “femininilidade” padrão cisheteronormativa seja nas roupas, cabelo e etc (até porque ser feminina não é sobre isso). Isso acontece dentro de casa, e penso que isso também devia continuar nas ruas em todo lugar. Não quero mais me esconder em polos de masculinidade ou feminilidade, roupas, maquiagem ou acessórios, quero usar o que der na telha, sair com a roupa que eu tiver afim.

Quando eu me vejo nua no espelho eu sinto algo faltando em mim, os seios desenvolvidos. Mas quando eu não to pensando nisso, eu não sinto falta de nada. Eu me questiono muito sobre isso, e realmente cheguei a conclusão de que ter ou não ter não é tão importante assim. Quando eu quiser, um sutiã vai preencher isso. Eu sou muito adepta de preservar o natural das coisas em mim, e isso me leva a pensar que se eu sempre tivesse morando sem ter contato com essa normatividade cisgênera e a ditadura dos (cis)gêneros, talvez o peito nunca fosse mesmo importante.

Até o dia que tive a ideia desse texto, eu nunca havia parado pra pensar que eu, mesmo falando coisas do tipo “coisas femininas e masculinas não existem, são coisas” “a coisa só tem gênero quando tá no seu corpo”, eu percebi que eu não colocava um brinco porque eu queria usá-lo pra ficar bonito, eu colocava pra me deixar mais encaixada nessa ideia de feminino que o mundo tem. E percebi um nova prisão, a do esteriótipo padrão cishetero feminino. E pensei “eu não doei minhas coisas que me deixavam desconfortáveis pra agora ficar desconfortável com outras coisas que eram pra me libertar”.

Passo dois: Entender realmente o que é ser trans

Feito o passo um, agora você vai conseguir entender um pouco além. Mais uma vez, não se limite a só repetir o que tá escrito aqui, mas entenda isso e aplique isso.

Ser trans na sociedade, é subverter uma informação quase pétrea cisgênera-hétero. Então não espere nada menos que retaliação. É quando não cair na prostituição, saber se virar por que não tem emprego. É ter que ralar bem mais que uma pessoa cis pra ter acesso a educação básica. É saber que as possibilidades de se relacionar afetivamente com alguém que não te esconde, que não te faz sentir mal por ser trans, que te respeita é quase como ganhar na loteria. É viver receosa com as notícias e os dados de estatísticas de transfobia e morte, então prepare-se para sentir o medo, a todo tempo. É acordar e ir dormir lutando o tempo todo contra o CIStema e a favor da sua sanidade. É ter a noção que tudo pra gente é mais difícil de conseguir, sempre a base de por favores, constrangimentos sociais. É saber que quem tá do seu lado a todo tempo te apoiando, vai sofrer também de muita coisa que você passa. É perceber finalmente que não somos doentes, nem pessoas fracas, mas é que nos tornam doentes, nos deixam cansades.

Tem uma tal disforia e você tem que saber quem ela realmente é. Algumas pessoas (to aprendendo hoje também) confundem o sentido dessa palavra com o Transtorno Dismórfico Corporal que é “um transtorno psicológico muito grave no qual uma pessoa se torna excessivamente obsessiva com algum aspecto da aparência física, a nível de se tornar extremamente depressiva”. A real disforia é um “sentimento de não-pertencimento/inadequação a um determinado gênero causado por uma falha em cumprir as expectativas de uma norma social perversa, que opera no sentido de deslegitimar corpos não-cisgêneros. A sensação, por exemplo, de que possuir determinados genitais deslegitima seu gênero pode ser um exemplo de disforia.” PORTANTO, ter disforia é algo totalmente plausível para nós pessoas trans que somos castras e induzidas o tempo todo a nos adequar ou readequar nossos corpos a natureza física dos corpos cisgêneros, ou seja, a nos submeter a processos que nos deixem com a cara e corpo de pessoas cis. É importante você se questionar porque isso pode ser o fim da guerra contra a sua disforia. Nós pessoas trans, assim como pessoas cis somos um pacotinho cheio de características corporais. O corpo cis e o corpo trans não funcionam ou tem mesma forma natural, e o certo não é que a gente se enquadre ou defina um padrão pra ambos seguirem, o certo é deixar que cada corpo seja o que é.

Chamam também de transição, o movimento que você faz quando tira o véu que te cobriram com um gênero que não tem muito a ver com sua própria (e sempre a mais importante) identificação. Transicionar não tem que significar que você tem que passar por um processo de hormonização, nem de cirurgias. Significa um processo de reconhecimento, de entendimento da sua trans-identidade.

Atenção, fiscal de gênero passando aqui no texto pra te falar o que é o policiamento de identidade. “É uma prática discriminatória de policiar a identidade sexual ou de gênero de outras pessoas, quando alguém diz que a identidade (ou a forma de se identificar) de outras pessoas está errada. Quem pratica policiamento de identidade vê, como questão de honra, obedecimento à natureza, moralidade, “normalidade sexual” e afins, que uma pessoa tenha expressão de gênero compatível com a sua identidade ou gênero designado. Também conta como policiamento exigir certas coisas na transição de pessoas trans, especialmente invalidando a identidade delas caso contrário. Questionar a validade das escolhas de nome e pronome/desinência de tratamento das pessoas trans.” Daí acontece a invalidação: a “prática discriminatória de dizer para alguém que o gênero ou a orientação da pessoa não existe ou não é válido. ”

Ah e não vamos esquecer a tal passabilidade. Passabilidade significa “passar-se por”, e no meio trans isso significa, “se passar” por um homem ou mulher cisgênero. E nesse pacote da passabilidade vem as frases disfarçadas de elogios (mas que não são): “nossa, mas ninguém nunca diria que você é trans”, “você engana bem, viu?”, “você parece muito com uma mulher/homem!”.

A pressão social acontece de várias formas para que você seja passável. Mas, um segredinho, nem todas pessoas trans tem a intenção de se parecer a alguém cis, e algumas outras não tem a informação pra entender que elas não precisam se submeter a isso. Mas a sociedade faz de tudo pra que você se enquadre em coisas que ela consegue absorver, e ser trans não se enquadra nisso. Não é certo acreditar que a transexualidade está relacionada basicamente a quanto a pessoa se parece cisgênera. Se cria uma expectativa muito grande sobre quem devíamos ser, mas não é obrigade a se submeter a nada disso. Se você for sempre aquilo que esperam de você e nunca o que você espera de você, ou nunca quem você quer ser, não adianta, o conforto não vai vir, a felicidade não vai existir. É também, preciso que todo mundo saiba que nem toda pessoa trans tem dinheiro ou recursos ou o desejo de passar por cirurgias e procedimentos estéticos.

Passo três: Entender o mundo que te cerca

É de vital importância que você entenda através de observação e questionamentos o mundo que te cerca. NINGUÉM vai ter a propriedade de falar 100% sobre como o mundo te trata, só você, então pare um tempo e reflita sobre tudo que te acontece. Você pode saber porque ele oprime mulheres, pessoas negras, gordas, fora dos padrões normativos, diverso-funcionais, LGBTI+, mas você ainda tem que ir além disso, tem que entender porque você passa com as pessoas e na sociedade a maioria das situações que você passa. Debata com outras pessoas também pra te darem outras ideias. Além de tudo, conversas assim de autodescobertas são poderosíssimas e super interessantes.

O mundo que te cerca te dá um pouco de tudo para preencher algumas de suas dúvidas, mas ainda há uma imensa cortina que você vai ter que sozinhe retirar pra não se manter na ignorância e não ser mais um fantoche. Por isso, aprenda com você mesme, tudo que puder.

Evitar depender que outras pessoas reconheçam quem você é, ou o seu gênero, às vezes, nos tira um peso das costas. Não que você não tenha o direito de reivindicar seu gênero pra sociedade, você tem e se puder, faça isso. O que quero dizer é, não espere dos outros isso. Não crie essa expectativa, porque isso vai, novamente te deixar prese naquela expectativa cisheteronormativa que ninguém (nem pessoas cis-heteras) querem e conseguem se encaixar ou vão se encaixar totalmente, e isso uma hora isso vai te decepcionar muito.

Você não precisa se formatar a algo pra ser reconhecide não. Nem usar tal roupa, ou fazer tal coisa pra alguém te tratar de alguma forma que você se reconhece. Por mais prazeroso que seja o reconhecimento de alguém de quem você é,. Você se reconhecer já deve ser importante e suficiente (porque chegar nesse ponto é um privilégio) enquanto a sociedade não atualiza suas regrinhas.

Entender que a identidade é SUA e que só você pode entendê-la mais que ninguém e também reconhecê-la mais que ninguém é de vital importância.

  1. Citações do texto: http://rexistencianaobinaria.tumblr.com/post/152515575208/glossário-termos-sobre-gêneros-sexualidades