Você existe sim

“Você pode pintar por cima de mim, mas ainda estarei aqui”

Foto: Clara Linhares Fotografia
Entrevista por Bárbara Luiza

Aviso de gatilho: menção de estupro, transfobia, deslegitimação de gênero, genitais, violência

Historicamente, dois gêneros foram estabelecidos no âmbito social: o feminino e o masculino. Todavia, existem pessoas que não se identificam com eles: as autointituladas “não-binárias”. Elas não gostam da obrigatoriedade de se encaixar em um sistema falido que invalida existências e limita as possibilidades do ser. A luta des não-bináries é muito importante para o crescimento da liberdade individual. Trata-se de trazer visibilidade para pessoas que foram silenciadas por não se identificarem com os padrões impostos por uma sociedade conservadora e exclusivista. Para falar sobre, entrevistei e não-binárie Cosmo Kahalia (Kahalia).

- Glossário
*Cis: Alguém que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer.
*Trans: Alguém que não se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer.
*Intersexo: termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual ou cromossômica, que não parecem se encaixar nas definições típicas de sexo feminino ou masculino. Por exemplo, uma pessoa pode nascer parecendo ser do sexo feminino do lado de fora, mas tendo a maioria de sua anatomia interna tipicamente masculina. (Fonte: http://gecopros.blogspot.com.br/)

*O artigo “ê” é usado para representar pessoas de todos os gêneros.

-EU: Qual artigo você utiliza para referir a si próprie? É o mesmo para todes es não-bináries?
COSMO: “Eu, pessoalmente, tenho uma fluidez de gênero que está entre o masculino e o neutro, gosto de pronomes neutros e masculinos. Gênero é um espectro imenso com inúmeras possibilidades de identificação, cada não-binárie tem uma preferência diferente. O que precisamos fazer é perguntar para a pessoa como ela gostaria de ser tratada e respeitar isso. Não podemos simplesmente olhar para alguém e deduzir o gênero delu pela roupa/corpo. Não-bináries não precisam se encaixar em um padrão fixo e limitado. Não é porque alguém usa batom e saia que automaticamente irá querer ser tratade por pronomes femininos. ”

EU: Existe diferença entre os conceitos de “sexo” e “gênero”? Qual é?
COSMO: “Olha, é um assunto complicado que está sendo debatido entre biólogues, outres cientistas e pessoas trans (etc). Estus estão dizendo que não faz tanto sentido assim o termo “sexo biológico”. Existem por exemplo pessoas intersexo, como um homem com cromossomos xy com pênis e com ovários. Cromossomos também não definem tanto assim o “sexo” de alguém. Não importa o gênero que está na identidade da pessoa, na certidão de nascimento. Se ela diz que o gênero é tal, então pronto. Basta respeitar. “

EU: Há pessoas que acham que, se não houvesse sido criado o conceito de “gênero”, a opressão seria menor ou inexistente. Como você se sente acerca dos gêneros, em geral?
COSMO: “Muita violência é fruto dessa imposição de gêneros binários na sociedade. Acho que não deveriam ter imposições sobre as pessoas. Não deveríamos ser obrigades a desempenhar papéis de gênero de acordo com nossos genitais. A questão da abolição de gênero é algo interessante, acho válido sim, porém na nossa sociedade atual creio que isso não seja possível. Por enquanto, acho que devemos mudar o que for possível, como criar novos nomes para descrever gêneros não-binários, para as pessoas se sentirem representadas e incluídas em algum deles, se for o que as deixam confortáveis. Por exemplo: eu sou uma pessoa não-binarie, e dentro disso sou uma pessoa com gênero fluído. Quando descobri que existe uma nomenclatura que descreve o que eu sinto, me senti muito feliz em saber que pertenço a um grupo e que há outras pessoas que entendem o que passo. Me sinto muito bem me denominado não-binarie/gênero fluído. Têm pessoas que não gostam disso, que sentem que não precisam de “rótulos”. O que importa mais é respeitar cada pessoa e fazer o que estiver dentro de nosso alcance para melhorar a situação. “

EU: De que forma a sociedade lida com a sua identidade? Você é respeitade?COSMO: “A sociedade força muitos papéis de gênero na gente: se você se identifica como mulher precisa se depilar, usar vestido, usar maquiagem, ter vagina, voz fina; se você se identifica como homem, precisa ter um peitoral liso, voz grossa, usar roupas escuras e que cobrem seu corpo, cabelo curto, ter pênis; se você é trans, você precisa fazer tudo o que for possível pra se aproximar à imagem de uma pessoa cis: cirurgias, terapia hormonal, se vestir de acordo com o estereotipo tal de seu gênero, etc; se você é não-binarie, não tem direito de se vestir de modo “masculino” ou “feminino” porque quer, você precisa ser uma pessoa de aparência neutra ou se aproximar ao “oposto” de seu gênero.
No meu caso, quando meu gênero flui para o masculino: um homem trans não pode usar batom ou ter cabelo longo/colorido, não pode se sentir confortável com seus peitos sem sutiã, precisa fazer mastectomia ou escondê-los com um sutiã compressor (binder). Quando meu gênero flui para o agenere/neutro: uma pessoa agenere não pode usar batom e saia e coisas “femininas” se essa pessoa foi COERCIVAMENTE designada mulher ao nascer (AFAB ou DMAN); uma pessoa agenere não pode usar roupas “masculinas” ou ter pelos faciais ou cabelo curto se a pessoa foi COERCIVAMENTE designada homem ao nascer (AMAB ou DHAN).
Se você fugir de qualquer estereótipo de gênero imposto a você, sendo cis, você é aplaudide, é revolucionarie. Homem cis de saia e batom vai mudar o mundo, muito legal; mulher cis que não se depila está afrontando o patriarcado, um orgulho. Se você discorda desses papéis de gênero impostos e se sente à vontade para se expressar da maneira que quiser sendo uma pessoa trans, você não é “trans o suficiente/trans de verdade”, “está querendo chamar atenção”, “está confuse”, “está de frescura”, “não é o gênero que diz ser”.
No meu caso, não me sinto nem um pouco mulher, porém nasci com vagina e peitos, não sou tão alto assim, sinto muito calor em Goiânia e prefiro usar roupas confortáveis e frescas, mesmo que sejam saias shorts e tops curtos, adoro a cor rosa, pinto meu cabelo e deixo ele crescer, não tenho dinheiro pra comprar um binder, não sinto vontade de fazer cirurgia pra retirar meus peitos, não quero tomar testosterona, não quero mudar meu jeito para me adequar ao estereotipo de masculinidade, gosto de roupas e acessórios com lacinhos, unicórnios, brilhos, glitter e miçangas.
Mesmo com tudo isso, eu continuo me sentindo homem/agenere. Continuo usando pronomes masculinos/neutros. Mesmo assim sinto orgulho em dizer que sou sim trans não-binárie.
Mesmo que a sociedade não me respeite, erre meus pronomes e tente me forçar à um molde ultrapassado e obsoleto de “mulher” só pelo que tenho entre as pernas. Mesmo que dentro da própria comunidade trans tenha que enfrentar rejeição e desrespeito. Mesmo meu professor deslegitimando não-bináries durante a aula.
Quem sabe de meu gênero sou somente eu, não preciso da validação de mais ninguém. Estamos aqui para questionar esse CIS-tema binário, opressivo e inadequado. “

EU: Com que meios você acha que se pode desconstruir preconceitos impregnados no imaginário coletivo?
COSMO: “A internet tem ajudado bastante na disponibilização de textos, pdfs, traduções e outros, e na acessibilidade à essas informações. A informação não é algo que só existe na Universidade, a internet está aqui para ajudar a gente a sair desses moldes academicistas. Varies autories estão publicando materiais simples e fáceis de entender. Aliás, através das redes sociais, a gente faz grupos sobre assuntos trans. Tem um que faço parte, GENDERFLUIDS Brasil, que está aqui para as pessoas de gênero fluido no brasil, com informações traduzidas e debates em português, para a gente ver que no próprio país podemos nos identificar com outras pessoas que não são só gringos que estão questionando e combatendo as imposições de gênero na sociedade ocidental. Através do Facebook, YouTube, Tumblr etc, a gente tem acesso a outras pessoas trans não-binaries que estão dispostas a nos ensinar sobre a vivência delas com palavras simples, textos, desenhos, vídeos, documentários independentes, entrevistas de jornais e blogs independentes, etc. Tudo isso está ampliando o público desses assuntos, as informações estão chegando para muitas pessoas com esse meio de divulgação, a tecnologia está aqui para ajudar a gente. Através de desenhos e tirinhas/quadrinhos de pessoas trans, a gente está espalhando informação. Estamos aqui para te mostrar que você não é uma pessoa estranha/solitária que não se encaixa na sociedade. Mostrar que você tem sim um lugar, que existem pessoas que querem te ajudar e te acolher. Estamos aqui para ajudar e explicar e mostrar que não existem apenas 2 caminhos (homem e mulher). Através da absorção dessa informação a pessoa tem condições de refletir e pensar sobre seu gênero e, muitas vezes, descobrir que esse sentimento dela tem sim um nome. Existe um grupo de pessoas que sentem o mesmo que ela e que estão aqui para fortalecer e empoderar a pessoa através do questionamento diário que a gente vê em páginas e blogs e canais pela internet. A gente está abrindo as mentes de outras pessoas, para ter uma nova visão, uma visão que não é binarista e cissexista. Uma visão que abrange todas as pessoas. “

EU: As pessoas não-binárias se incluem nas causas feministas?
COSMO: “Feminismo, ao meu ver, está aqui para todas as pessoas que são prejudicadas pelo patriarcado e pelo CIS-tema machista, racista e capitalista em que a gente vive. O feminismo deveria defender os direitos das pessoas não-brancas, das pessoas trans (binarias e não-binarias), das pessoas com divergências neurológicas, das pessoas pobres, das pessoas exploradas no trabalho etc. Pessoas não-binarias estão dentro do termo guarda-chuva “trans”: a gente sofre com o patriarcado, a gente é forçade a desempenhar certos papéis de gênero. Se você nasceu com um genital e é coercivamente designade a tal gênero (homem ou mulher) e foge do estereótipo, pode ser vítima de violência psicológica, financeira, sexual etc. Se você nasce com vagina e não se comporta “ como uma mocinha”, pode sofrer por isso. Até pessoas cis que estão fora desse comportamento sofrem, mas a intensidade é maior quando você é trans. Existe o “estupro corretivo”, usado para tentar manipular seu comportamento e torná-lo agradável aos olhos de seu agressor. Existe a violência física, o bullying na escola, a violência verbal (quando as pessoas te xingam na rua/na escola/em casa porque você não se veste/não age de tal maneira), violência financeira (quando dinheiro/coisas básicas como comida ou roupas ou moradia são negadas a você porque não está de acordo com os desejos de seu agressor), violência psicológica (“não vou te amar se você cortar seu cabelo, não vou deixar você sair até que depile suas pernas, você me deixa triste quando usa essas roupas de “traveco” “), uma manipulação emocional para tentar te tornar a pessoa errada e te deslegitimar (também conhecida como “gaslighting”) etc. Essas são agressões mais graves, mas é uma pirâmide de opressão. Atos “menos graves” estão na base de frases como “coisa de menina/de menino”, “você não pode brincar com bonecas/carros”, “você não pode vestir essa saia/essa camisa”, “você não pode cortar seu cabelo/deixar ele crescer/pintar ele”, “não criei filho pra ser bicha/não criei filha pra ser sapatão” (infelizmente ainda é comum confundirem sexualidade com gênero), “Filha, mas você é tão bonita pra sair assim sem maquiagem com essas roupas largas parecendo macho…”, errar de propósito os pronomes de alguém após a pessoa te avisar quais pronomes ela usa, agir como se o gênero da pessoa fosse uma brincadeira pra “chamar atenção/uma invenção” de quem “não tem mais nada pra fazer”, deslegitimar o gênero de alguém (“ah mas você sempre gostou de rosa”, “ah mas você usa vestido”, “ah mas seu cabelo é longo”, “ah mas você não toma hormônio”, “ah mas você não fez cirurgia”, “ah mas isso não existe”, “Deus fez o homem e a mulher, você não pode inventar essas palavras de qualquer jeito”, “você está confuse”, “você não sabe de nada, olha sua idade”…). Enfim, uma série de injustiças e violências são sofridas pelas pessoas não-binaries e o feminismo deveria estar aqui para ajudar a gente a combater isso. Eu, como feminista interseccional, incluo todas essas pautas em minha militância. Feminismo está, entre outras coisas, combatendo o patriarcado, e o patriarcado anda de mãos dadas com o CIS-tema heteronormativo. “

EU: Os movimentos sociais vêm buscando integrar as pessoas fluidas de gênero em suas causas, e a representatividade LGBTTIQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transexuais, Intersexuais, Queer) vêm crescendo atualmente. Você se sente representade pelo movimento LGBTTIQ?
COSMO: “Gênero fluído está dentro do termo guarda-chuva “não-binárie”: é um gênero não-binário. Muitas pessoas não se sentem representadas por essa sigla, pois a versão mais famosa é a LGBT, fora que existem inúmeros gêneros e sexualidades, fica meio impossível representar todes numa sigla assim. Estão estudando siglas novas para substitui-la, como MOGAI (Orientações e Alinhamentos de Gênero Marginalizadas e Intersexo). 
Dentro da comunidade LGBT existem muitas discórdias, disputas e opressões internas, como os GGGG (homens cisgêneros gays que querem tomar o protagonismo do movimento LGBT inteiro e torná-lo apenas sobre gays por puro egocentrismo e ignoram as outras integrantes da sigla) das baladinhas, dos filmes e series com personagens LGBT (na maioria com a sexualidade apagada, pele branca, pessoas bonitas e ricas, péssima representação), das propagandas estilo O Boticário etc. 
A comunidade LGBT como um todo continua muito marginalizada, principalmente pessoas que não estão na sigla mais conhecida e pessoas que estão na favela/em situações precárias sociais/econômicas. As pessoas mais pobres não se importam se elas podem se casar ou adotar, porque simplesmente ainda não possuem o direito de existir, de andar de mãos dadas, de beijar na rua, de usar as roupas que querem. A realidade dessas pessoas, principalmente na mídia, não é representada e muito menos respeitada. A mídia só quer propagar uma imagem higienizada, racista, gordofóbica e machista, entre outros preconceitos, da comunidade LGBT. 
As travestis negras que são obrigadas a se prostituir não são contempladas por esse movimento. As pessoas que não tem acesso a esse movimento, que apanham até a morte ao serem vistas indo pra casa após as paradas de orgulho LGBT, que apanham em casa após serem vistas beijando alguém do mesmo gênero na rua pelos vizinhos fofoqueiros, que não tem dinheiro pra se expressar de maneira confortável e agradável (seja com roupas, hormônios, cirurgias etc), que são expulsas de casa /do trabalho quando são expostas como sendo parte des LGBT… essas pessoas não são contempladas pela comunidade LGBT que a mídia quer propagar. Se sua militância não contempla essas pessoas, há algo muito errado.Se você só aceita LGBTs se forem “machos, não veados”, há algo errado. 
Se você só aceita lésbicas quando estão “realizando um fetiche” seu, há algo errado. 
Se você diz que bissexuais não existem e que isso é apenas indecisão e falta de vergonha na cara e acha que servem apenas para “menage” contigo, há algo errado. 
Se você acha que assexuais não existem, há algo errado.Creio que o maior problema dentro da comunidade LGBT seja o egocentrismo e a falta de empatia. Muites integrantes apenas se preocupam com as causas que es abrangem, não se importam com pessoas diferentes delus. Por causa disso, há preconceito e opressão dentro do próprio movimento, como: misoginia entre os gays cis, transfobia entre as lésbicas cis, bifobia/panfobia entre os gays e as lésbicas, acefobia (preconceito contra assexuais) entre vários membros, elitismo e higienização entre as pessoas mais ricas e racismo entre as pessoas brancas etc. Esses problemas são muito graves e precisam ser combatidos, principalmente com diálogo, empatia e respeito. Mas também não podemos medir a reação de uma pessoa oprimida. Se uma pessoa trans não se sente confortável com uma lésbica cis transfóbica, não podemos mandar elas darem as mãos e serem amigas pois o “verdadeiro opressor” são os héteros cis/o patriarcado. 
Mesmo sofrendo opressão, você ainda pode usar os poucos privilégios que tem para oprimir outras pessoas. Devemos reconhecer nossos privilégios e usá-los para ajudar a ampliar as vozes das pessoas oprimidas, tentar ajudá-las. Devemos ouvir o que elas têm a dizer e lutar de maneira secundária, deixando o protagonismo a elas. Não me sinto representade pelo movimento LGBT da mídia, que vemos na TV e nos jornais. “

EU: Qual o significado da expressão “queer”?
COSMO: “”Queer” na verdade começou como um xingamento. A tradução mais adequada parece ser “veado”. Muitas pessoas da comunidade LGBT, inclusive eu, retomamos essa palavra e ressignificamos ela de maneira a nos empoderar, que nem acontece com “sapatão/bicha/vadia”. A gente usa como símbolo de orgulho. Uma palavra usada para nos difamar agora a gente usa para mostrar que nossa sexualidade e nosso gênero não são motivos para ofensa. Têm pessoas que se empoderam com isso, mas também têm pessoas que não gostam, têm traumas e, com razão, sentem desconforto com esse uso. Ambas perspectivas são respeitáveis. Não dá para forçar essa palavra em toda pessoa, não dá para chamar alguém de um xingamento mesmo que a gente queira empoderar ou usar como elogio se a pessoa não gosta disso, se ela não quer, se ela tem trauma. “

EU: Política pode ser a atividade de associar e defender pessoas semelhantes, revolucionando o coletivo. Você considera o seu existir um ato político?
COSMO: “Citando frase de autore desconhecide, “quando a sociedade te odeia simplesmente por ser quem você é, ®existir é um ato revolucionário “”.

EU: Levando em conta sua vivência, qual o comportamento necessário que as pessoas assumam para que es não-bináries se sintam apoiades e segures?COSMO: “Em qualquer caso de tentar militar em algo que está fora de sua vivência: você, como uma pessoa aliada, tem que primeiramente enxergar que tem certos privilégios. Esses privilégios são frutos de uma opressão sistemática.Não, sua mera existência como pessoa branca / hétero / cis / homem / rico não é sua “culpa”. Mas sim, diante desses fatos, você tem privilégios e precisa reconhecer isso. Sua vida é diferente de uma pessoa oprimida em um aspecto no qual você não é. Sendo assim, você pode ler todos os livros do mundo, fazer um TCC, uma tatuagem etc que mesmo assim você nunca vai entender como uma pessoa diretamente afetada por essa opressão sofre. 
Por causa disso, você tem que aprender a ficar em silêncio e simplesmente ouvir o que as pessoas oprimidas tem a dizer.
Você não tem direito de dizer o que é ou não é opressão para essa pessoa.Você não tem direito de medir a reação dessa pessoa, dizer que ela tem que ser pacífica e paciente, “deixar quieto” e “ficar na paz” com o opressor.Você tem que respeitar a dor dela, respeitar que cada pessoa lida com isso de uma maneira diferente.Não tens direito de falar sobre essa opressão diretamente. Você pode ler e ouvir o que essas pessoas dizem e reproduzir isso.Por exemplo, se você estiver diante duma situação de injustiça e não tiver alguém com conhecimento/propriedade para falar sobre essa opressão, você pode falar o que você já leu sobre e reproduzir esse discurso, como “tal pessoa negra diz que isso é uma piada racista e que você não deve achar graça disso por isso e isso”, “ pessoas trans acham essa palavra ofensiva por isso e isso, você não deve usá-la”. Você precisa respeitar as pessoas e tentar aprender, lembrando que existem páginas e livros e documentários etc que são didáticos e falam disso. Nem toda pessoa oprimida é obrigada a ser seu Google pessoal. Às vezes, é irritante falar sobre isso e simplesmente não estamos afim, às vezes, a pessoa é muito ignorante, não está disposta a aprender e não queremos nos estressar com isso. 
Existem militantes que batem de frente e são violentes com os opressores, existem militantes pacientes e didátiques. Devemos respeitar ambos. Se a pessoa estiver disposta a te ensinar, você deve respeitar os limites dela e ser uma pessoa educada, tentar ao máximo não ser invasive. Se ela disser que você está passando dos limites, recua e respeite, peça desculpas sinceras.Você deve respeitar os pronomes dela, mesmo que ache “feio/errado de acordo com a gramática/difícil se acostumar”. 
A língua é algo fluido, evolui junto com as pessoas que a falam. É possível mudá-la. Se você ler um livro antigo, ele não é escrito do mesmo jeito que escrevemos hoje, isso é normal. Tente se adequar. Tudo bem errar, peça desculpas e tente se policiar para não acontecer de novo. E se você acha um incômodo, tente ter empatia com a pessoa e pensar o quão difícil deve ser para ela ter seu gênero constantemente deslegitimado e desrespeitado.Não é porque você “acha” que a pessoa parece tal gênero que necessariamente ela seja. Não é porque a pessoa tem peitos ou porque ela usa vestidos que necessariamente ela seja mulher cis. É sempre bom perguntar, com respeito, pois realmente ninguém vai adivinhar gênero alheio. Se uma pessoa usa vestido, batom, cabelo longo e salto alto e mesmo assim diz que usa pronomes masculinos, não importa o que você acha, você tem o dever de respeitar isso. Só você sabe de seu gênero. Ninguém tem direito de te deslegitimar. Seu gênero é válido sim. Você existe sim. “

*Entrevista de 2015