Perguntas que precisamos nos fazer enquanto jornalistas que cobrem o tema do estupro

Crédito: Eduardo Valente/ protesto contra a cultura do estupro em Florianópolis

O tema do estupro, devido ao crime de estupro coletivo ocorrido recentemente no Rio de Janeiro, está diariamente na mídia. Isso é bom, pois é preciso que os meios de comunicação tratem do tema, possibilitando uma discussão ampla sobre essa violação gravíssima dos direitos da mulher. Mas há meios e meios de se fazer isso — tomando cuidado para não reproduzir a cultura do estupro por meio de entrevistas e reportagens. Selecionamos algumas perguntas que jornalistas devem fazer a si mesmos quando iniciarem a apuração do tema:

- É realmente necessário entrevistar a vítima?

- Eu busquei formas respeitosas de fazer o contato com a vítima, como, por exemplo, pedindo que um familiar próximo ou um profissional faça a ponte, ou abordei a vítima abruptamente pelo telefone, celular ou pessoalmente?

- Eu estou preparado para entrevistar e fazer a escuta de uma vítima?

- Minhas perguntas são respeitosas, ou apenas reforçam a vitimização e são fruto de uma curiosidade mórbida ou que beira o fetiche e a sexualização da vítima?

- Tomei todas as precauções para não identificá-la, como alterar a voz e desfocar o rosto?

- Mesmo fazendo isso, é possível que as pessoas identifiquem a vítima pelo ambiente, pelos prédios que aparecem numa janela, pela rua onde a entrevista foi gravada?

- Ao usar sonoplastia e trilhas sonoras, tais recursos e músicas passam uma ideia dramatizada e ficcional, sensacionalista ou mórbida do que houve, banalizando o fato?

- As informações que reporto são realmente necessárias, ou podem, mesmo com a melhor das intenções, reforçar o preconceito contra a vítima?

- Eu busquei ouvir uma fonte especializada no tema das relações sociais de gênero sobre o caso, ao invés de simplesmente repercutir informações de fontes oficiais que por vezes são preconceituosas, como policiais e delegados?

- Ao invés de apenas cobrar leis mais duras contra o crime, eu busquei fazer uma investigação para saber se o Estado está cumprindo as leis que já existem?

- Eu exercito a empatia em relação a esta vítima, ou ela é apenas um instrumento para que eu realize uma entrevista ou reportagem bombástica?

- Eu busquei compreender os caminhos pelos quais a vítima precisa passar quando resolve fazer a denúncia, ou de certa forma culpabilizei-a por não procurar as autoridades policiais?

São várias perguntas que devemos nos fazer antes de iniciar uma apuração, ou logo após acharmos que ela está concluída. Quais outras perguntas vocês acham importantes de serem feitas a si mesma/o pela/o jornalista? Ajude o Coletivo de Jornalistas Nísia Floresta a pautar este debate!