Nós no Bola

Por Philipe Ramos

Fazia mais ou menos um mês que um amigo me chamava para ir no Bola de Fogo (in memoriam). Era a volta do único rock bar da cidade. Sempre dizia: “Vou tentar ir”. Mas na hora do “vamo vê” acabava não indo. Interesse e curiosidade não me faltava: “Porra, um bar de rock em Gurupi”. Porém, o dia com a melhor programação do bar era a sexta-feira. Sábado pela manhã eu tinha aula. Era inviável.

Na época apresentava um programa de rock na rádio 95 FM e era super importante para mim fazer contatos com a galera underground de Gurupi, que eu ainda pouco conhecia.

Até que um dia resolvi ousar. Porque não ir pra aula após passar a noite em claro?

E assim eu fui para o Bola. Mal sabia como aquela noite seria produtiva, o que eu não esperava. Queria só diversão.

Como o bar ficava longe da minha casa, já havia planejado de dormir na república de uns amigos, chamada Amoricana. Lembro que cheguei cedo, estacionei minha bike num muro que tinha ao lado, entrei no bar e sentei numa cadeira. Eu, o dono do bar e o garçom. Era 21h, super cedo. Como no Bola de Fogo se pagava couvert antes de entrar, acho que o pessoal do bar pensou que eu tinha chegado mais cedo justamente para não pagar.

O povo foi chegando. Para a minha sorte conhecia todo mundo e não tive problemas de socialização. Pelo contrário, no Bola eu não tinha uma mesa fixa, rodava por quase todas. Era a primeira apresentação do Olho Grego no local. Lógico, Roberta e cia mandaram super bem. Som maneiríssimo. Estava achando tudo muito bom. Era a minha primeira noite em Gurupi num bar para roqueiros. Me sentia em casa. Na verdade todo mundo se sentia em casa ali. Como não? Não havia diversidade nos bares da cidade. Aqui é sempre: Bruno e Andrey, Bruno e Andrey, Bruno e Andrey…

Logo, o professor Cláudio Carvalho me chama em sua mesa e começou a trocar um papo legal sobre cultura. Eu já colaborava com o Jaê (coletivo cultural) e o nosso principal projeto, Cine na Rua, estava parado. E aí ele veio com uma ideia: porque não fazermos um projeto como o Amigos da Praça de Goiânia. O professor me explicou que era um movimento de ocupação cultural de uma praça da capital goiana com o intuito de chamar a atenção do poder público para a revitalização dela.

Sempre muito animado quando se trata de projetos culturais já fui logo dizendo: “Vamos fazer isso aqui”. Acho que o Cláudio não esperava que ultrapassada às 3h da madruga eu fosse começar de fato a correr atrás do projeto. Sim, isso mesmo, logo eu saí da mesa onde estava o professor e fui atrás daquilo que é primordial no Nós na Praça: as pessoas. E naquele momento precisava de colaboradores.

Lembro mais exatamente quando fui na mesa onde estava Rose e Sara, hoje duas grandes colaboradoras, e elas toparam em ajudar. Logo conversei com o Lucas Alencar da banda Olho Grego, outro cara que ajuda pra caramba, e ele também topou em ajudar. E aí começamos a debater, em relação a programação, local entre outras coisas.

Sugeri a Praça do Centro Cultural Mauro Cunha, por ser significativa para a cultura de Gurupi e por causa do coreto, que não era utilizado para a arte. Mas precisávamos de patrocínio. Como tinha um bom relacionamento com a secretária de cultura, Zenaide Dias, pedi para ficar com essa tarefa, tanto de pedir ajuda quanto para pedir autorização para utilizar a praça. Em relação a programação estabelecemos que iríamos fazer convites para os artistas da cidade apresentarem seus trabalhos. Na noite nem falamos muito sobre as oficinas, que hoje é um dos nossos diferenciais.

E aí, claro, tínhamos que escolher um nome para o evento. Eu sempre fui péssimo para escolher nomes. O Cláudio disse que podia ser Amigos da Praça mesmo. Eu rebati e disse que não seria legal copiar. E aí ficamos pensando por alguns minutos, até que me veio a ideia do “Nós na Praça”. Todos gostaram. A Rose lembrou que no Rio de Janeiro tinha o “Nós no Morro” e que Nós na Praça ficaria massa. E foi assim que nasceu esse nome.

Para finalizar… faltava a data. Quando vamos começar? Pensei, porque não já no próximo sábado. E a galera concordou. Mas para começar de fato precisávamos falar com a Zenaide. O que não foi problema, na terça-feira ela autorizou, inclusive durante a conversa com ela foi tirado uma foto minha e meu cabelo estava mais descabelado do que já é. Parecia um doido pedindo para colocar um monte de “doido” na praça. É isso mesmo, somos doidos. Doidos por arte.

Para terminar aquela noite no Bola de Fogo… Sai muito contente, pois tinha curtido um som muito da hora, ao lado de pessoas legais e ainda sai com um projeto cultural em mente. Já era cinco e meia da manhã quando saímos até a Amoricana, que ficava perto do bar. Sete horas “rasguei” de bike para o Campus II da Unirg. Aula de jornalismo online…

… Durante a semana organizamos o Nós na Praça. Fizemos um grupo no facebook para divulgação e a ideia foi muito bem aceita. Sobre a primeira edição, vou deixar que vocês vejam no youtube, (http://migre.me/n77yj), como o bagulho aconteceu.

Foi assim que o Nós na Praça nasceu. A história dele se entrelaça com o Bola de Fogo que não teve o mesmo sucesso e faliu. O Nós na Praça organizou duas festas no bar, a Toca Underground e conseguimos colocar os maiores públicos da história do lugar. Essas histórias explicam também em parte o meu ano de 2014, um dos anos mais intensos da minha vida, onde dividi as minhas sextas-feiras no Bola de Fogo e os sábados no Nós na Praça, que após duas edições se tornou quinzenal. Nesses dois locais, conheci amigos que vou levar para a vida inteira e passei por momentos inesquecíveis. Ainda por cima, conseguimos fortalecer o Coletivo Jaê.

Após o fim do Bola de Fogo (saudades!) tudo voltou a ser como antes nas noites de sexta-feiras: Bruno e Andrey, Bruno e Andrey, Bruno e Andrey… Só não fico em casa a noite justamente pelas amizades que fiz no Bola.

Já o Nós na Praça está firme e forte. Na verdade, tá do caralho! Viajamos para Palmeirópolis, Palmas e vários artistas aderiram ao movimento. Temos planos ousados para 2015. Aguardem!

Texto escrito em novembro de 2014.

P.S.: Os nossos planos deram certo.

P.S. 2: O Coletivo Jaê agora é Coletivo Nós.

P.S. 3: Infelizmente a secretária de cultura do município não se interessou tanto por nosso projeto.

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