O tal do cansaço

É oficial, definitivo, doloroso e inegável: perdemos a graça. As coisas perderam seu sentido, sua razão de ser. Estamos amontoados em nossos desesperos, nossas “querências” de abraços maiores que os braços, nossas crises existenciais, conflitos com o que somos e com o alheio, ah, é tudo uma junção, uma hipérbole, um misto de frases sem ponto final… mas que perdeu a graça. Frases desgastadas pelo tempo e pela insensatez do caminho que trilhamos. Aos vinte e poucos anos, o dorflex já perdeu o efeito, e o tarja preta é o próximo. A gente até força o kkkkkk, o morri, o berro, o meme, a afronta. Ninguém sabe o monstro por trás da tela. Se o conhecesse, acabaria por assumir sua monstruosidade, e então o mundo inteiro se deitaria numa cama coletiva em posição fetal. 
Como coletivo literário e promessa cultural, é exatamente assim que nos sentimos. Não há apoio, sustento, gente pra ajudar. A vontade de fechar as portas imaginárias e assumir o fracasso é grande, meus amigos. Afinal, o que estamos refazendo? Nada. Absolutamente nada foi refeito. É como se todo trabalho fosse pelo ralo, e nós somos apenas vozes que tentam gritar numa multidão barulhenta. Você pode dizer que estamos exagerando, afinal, isso é só o começo… Mas não é verdade. Não há exagero. Estamos sentindo exatamente isso: cansaço. Que gera desânimo. Que gera silêncio — aquele silêncio incômodo, a espécie mais irritante que existe. Talvez o mundo realmente seja quadrado, e a gente não tem coragem de se olhar no espelho e admitir que somos o cara tocando violino enquanto o Titanic afunda. 
Esta não é uma despedida. É um desabafo de quem tenta fazer cultura na Baixada, no Rio, no Brasil. De quem tenta falar de literatura saindo da casinha estreita do elitismo, aquela feita pra você desfilar seus diplomas, suas palavras difíceis e seus falsos sorrisos. É um desabafo de quem sabe que se torna um mero sonhador simplesmente por insistir. De quem tá cansado de lutar contra a gravidade pra peteca não cair. 
Deve haver luz no fim do túnel, é verdade. Enquanto isso, pensemos em… não sei. Não sabemos. Melhor dizer assim: pensemos no que pensar. Como se fosse um “entrega na mão de Deus” — sem crivellices, é bom frisar. 
Estamos exaustos de tanto remar contra a maré. É bom darmos uns segundos pra nós mesmos, só pra pegarmos um fôlego e, então, voltarmos a navegar.

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