ACORDE !

cuidando das liberdades na chave da empatia

Por: Marcos Felinto

Este texto não se destina a cagar regras, mas se destina ao estimulo a que se traga para o plano consciente alguns padrões nocivos de afetividade, que se observados poderão estimular relações mais saudáveis.

Antes de iniciar, tenha em mente as seguintes afirmações: sabemos o que é um meio acordo, sabemos o que é omitir, quando ouvimos não, quando dizemos sim, sabemos a mentira no exato momento em que mentimos, sabemos o que é ser bem tratado, sabemos o que é bem querer e queremos bem.

Entremos em acordo, se um acordo UNI X PLURI / MONO X POLI (de um casamento, da arrumação de uma casa ou de uma separação etc) é necessário dentro de uma relação afetiva significa que há algo especial a ser manejado, além do objeto que suscita o arranjo, algo sensível e que pede cuidados conscientes, equânimes e maduros: você ! ou elas, as outras pessoas.

Relações afetivas co-responsáveis realizam acordos, de uma frequência outra, que difere do simples fato de ambos concordarem com um direcionamento a ser tomado diante de situações que possam causar desavença. Acordos, embora selados por duas ou mais pessoas podem, ainda que definidos por consenso, guardar espaços para sujeição…a sujeição por sua vez pode emergir de vários pontos conectados com o histórico de uma das partes a assumir um compromisso de aceitar algo que, no plano subjetivo, é repudiado. Talvez não caiba mais, diante de quem sofre, apenas questionar: “Mas por que você aceitou isso?” visto que as respostas podem ser variadas e de matizes que transcendem o próprio encontro entre as partes que acordam sobre um padrão de procedências.

As vezes se casais aceitam relacionamentos abertos, por afinidade com um modelo de afetividade libertária e, sabendo cuidar das relações, dialogando com uma consciência empática, encontram espaço fértil para um tipo de afetividade sadia e madura, por outro lado, há acordos de abertura consentidos por falta de recursos / defesa (falta de bagagem, pulso ou baixa auto estima) diante da vontade de permanecer com x parceirx proponente da solução, mais adiante há "acordos" taciturnos em que apenas uma das partes possui consciência “plena”de que os radares afetivos podem circular e consumar livremente, enquanto a outra permanece com um foco restrito na relação a dois.

Embora o amor ou o tesão sejam, por excelência, espaços consagrados a liberdade são também lugares para comuns práticas de violência de gênero e opressão de classe, o que equivale dizer que nos pólos do acordo há pessoas diferentes, condensando em si marcas históricas e condicionamentos sociais de seus grupos identitários, num nível atômico, sinais de empoderamento e silenciamento oscilando local de destaque na figura social que se apresenta por um nome diante de ti.

São homens e mulheres, negrxs e brancxs, cis, trans, ricx, pobre, repelindo suas dores pelo aceite, pela negação e pela aceitação.

Dos valores do patriarcado herdou-se a mentira e o medo de se lidar com a liberdade dx outrx, em certa medida, herdou-se o medo de se lidar com nossa própria liberdade e de lidar com o equilíbrio entre partes não iguais. Acordos co - responsáveis são consequentes, consideram que as forças em correlação são específicas e procuram pontos de privilégios a serem diluídos ou compartidos, consideram a materialidade que conforma x outrx dentro de seu corpo e os valores atribuidos a esta especificidade, que pode ser de cor, de peso, de sexo, de identidade assumida e externada.

Todxs temos um lugar nesta história e a oportunidade de desenhar relações nas quais somos mutuamente cientes daquilo que por força da normatividade nos favorece, mas também dos pontos nos quais somos silenciados, quer por fatores formativos da sociedade desigual, quer pela influência destes fatores no texto diretor de nossa subjetividade.

Acordos são feitos para evitar sofrimentos. Acordos realmente co-responsáveis por sua vez enxergam além e consideram aspectos subjetivos capazes de colocar a concordância entre as partes em cheque, criando uma nova e elevada perspectiva para que as noções de equilíbrio sejam redefinidas.

Quando fazemos um acordo é preciso que olhemos não apenas para o objeto sobre o qual se estabelece um aval, regra ou impedimento, é necessários que se observe também a pessoa com quem se acorda o aval ou impedimento em termos da subjetividade e da conformação física dela, de seu pertencimento, de seus condicionamentos involuntários, assim cria-se mais recursos para que um acordo não seja mais um espaço para sujeição de uma das partes que, ao acordar com algo, pode estar em conversa com o histórico de sua sujeição, vergonha e medo de perder.

Um acordo co-responsávell antevê a agencia de um tipo de sofrimento que possa vir a tona conectado ao contexto da SUBJETIVIDADE DE GRUPO e observa em que medida, após um primeiro aceite, o acordo ainda pode estar balizado pelo privilégio de uma das partes. Acordamos !!! Isto por si representa uma relação equilibrada? oferece segurança? pode ferir? tem como princípio o cuidado consigo e com outrem antes de uma satisfação hedonista?

Observe em que medida seus acordos reforçam práticas sexistas ou misóginas, em que medida o racismo e o privilegio de classe pode ser visto como subtexto nestes dialogos, em que medida acordos podem reforçar violências sutis contra nós e contra as pessoas com que desejamos estar.

Olhar profundamente para a parte com a qual se acorda é, mais uma vez, tão importante quanto olhar para o objeto do acordo. Hoje, como nunca antes, podemos liberar o amor para que ele flua, para que ele vá e para que ele queira ficar.

Basta saber acordar.

Like what you read? Give Coletivo Sistema Negro a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.