Já que é pra tombar…
Reflexões sobre a Geração Tombamento.

Primeiramente é preciso dizer que este não é um texto escrito para criar intrigas ou desqualificar outras leituras do mesmo fenômeno, é apenas a tentativa de abertura para o diálogo a partir de uma outra perspectiva. É importante, para o desenvolvimento intelectual da nova negritude, nos colocarmos abertos para discussões e ideias diferentes, pois só assim conseguiremos juntos avançar intelectualmente e socialmente na construção dos “modos de existir” negros no mundo.
A demora em escrever sobre o tema Geração Tombamento, se deu pelo fato de que ao meu ver é preciso tomar contato com a manifestação em questão, conversar com as pessoas, amadurecer a reflexão para só então conseguir produzir algo sobre o tema que não se limite à lógica reducionista do contra ou a favor, e só agora me senti confortável o suficiente para escrever sobre o assunto.
No texto supracitado, a autora aponta a ausência de uma estratégia política inclusiva e mais eficiente no seio da Geração Tombamento, e também problematiza a forma como essa cria um novo estereótipo de negritude, excluindo assim, indivíduos negros que tem pouca afinidade com essa estética. A crítica se dá no levantamento de algumas questões colocadas pelo texto, como por exemplo, a construção de um novo estereótipo excludente de negritude e a oposição entre estética negra e política negra.
O primeiro movimento que farei é tentar entender um pouco de onde vem o fenômeno Tombamento, através de uma leitura puramente empírica e hipotética.
Sempre tive uma proximidade muito grande com o movimento punk e algumas de suas vertentes e grande parte da minha formação intelectual primária veio de dentro dessa cena, principalmente a ética “faça-você-mesmo”. Em 2006, caiu em minhas mãos um DVD de um documentário cujo título era “Afropunk — the movie that sparked the movement”, onde o diretor, James Spooner, explorava o papel dos afrodescendentes dentro do punk, entendendo estética em seus amplos sentidos (musical, visual, política, etc.), além de trazer histórias pessoais de seus personagens, mostrando também a dificuldade na construção da subjetividade e modo de existir negro dentro de um movimento majoritariamente e culturalmente branco, assim como o contraste com a própria comunidade negra e suas formas de existência que foram historicamente excluídas do rock pelo racismo da indústria cultural-muscal do século XX. Sendo assim, a primeira lição que tirei do documentário foi que ser negro e ser roqueiro caracteriza dois problemas:
- Eu negro em relação ao universo predominantemente branco do rock.
- Eu negro em relação a comunidade negra que me enxerga menos negro por ser roqueiro.
Por que trazer o Afropunk, hoje fenômeno mundial, para a conversa? Simplesmente porque grande parte dessa ideia de reformulação estética a partir de padrões distintos de africanidade tem sua semente plantada nesse cenário. O documentário e mais tarde o festival com suas lindas fotografias, inspiram jovens a construírem um modo de existência negra que tensione os estereótipos de negritude construídos pelo racismo estrutural. Basicamente diz: eu posso ser o que eu quiser e do jeito que eu quiser, e isso não me faz menos negro.
Com a popularização do Afropunk a partir do site e principalmente das fotografias de pessoas que frequentavam os festivais com seus penteados e tranças coloridas, suas roupas diferentes e de inspiração afrofuturista (assunto para outro post), foi-se criando a base para o surgimento da Geração Tombamento no Brasil, muito longe dos questionamentos primários colocados pelo Afropunk Movement, mas muito próximos dos elementos de moda que transbordavam no site. A hibridização do punk-negro com a cultura pop majoritariamente negra das últimas décadas, pode ser considerada a base para o surgimento da Geração Tombamento, referenciada na forma de se vestir e se comportar de Magá Moura, na música de Rico Dalasam, Liniker, Tássia Reis e com seu ápice de representação no videoclipe de Karol Conka, Tombei.
Feito esse primeiro movimento que cria uma hipótese para o surgimento dessa geração, é possível agora refletir sobre as limitações e alcances de tal fenômeno.
Nas palavras da autora do texto com o qual eu diálogo:
“A falha da geração tombamento foi não incluir todos os negros nas suas mais diversas identidades e colocá-los como algo homogêneo e puramente estético. Essa acomodação num discurso simples, raso e objetivo, acomoda cada vez mais os indivíduos no senso comum, dando uma falsa sensação de liberdade e impressão que os mesmos, de alguma maneira, estão fazendo mudanças estruturais quando na verdade estão criando novos padrões comportamentais pautados em tênis de marca e batom azul.”
A autora acerta em cheio ao reivindicar uma pluralidade de identidades negras, mesmo eu tendo questões com o conceito de “identidade”, irei assumí-lo aqui para facilitar o diálogo.
Realmente somos plurais em nossa negritude!
Por mais que historicamente o racismo sempre designou um lugar para nós na sociedade, na cultura, na política, etc. Não cabemos nesse lugar! Somos mais complexos e heterogêneos do que as caixas que o racismo estrutural nos impõe, mas quando penso a Geração Tombamento por uma perspectiva quase genealógica, percebo que para além do “puramente estético” que gera o incômodo em pessoas que vem de uma tradição intelectual que acaba separando estética de política, vejo as possibilidades de experimentações de negritude e de criação de liberdades em espaços de Tombamento como a Batekoo onde estética é política e política é estética!
Concordo que nenhuma mudança estrutural ocorrerá no seio de uma ativismo que se dá principalmente através do empoderamento-moda e que se manifesta principalmente em festas, mas a possibilidade de aceitação dos corpos, da sexualidade e de experimentação de liberdade nesses espaços, também são uma arma política, já que aos negros, historicamente, sempre foram negadas essas possibilidades. Digo isso pois acredito que política, e me refiro ao combate ao racismo especificamente, pode não ser feita da forma rígida como os cânones ocidentais nos ensinam, mas sim, através de indivíduos que passam de um estágio de não aceitação de suas existências para a aceitação plena, o que os fortalece para encarar os problemas estruturais do racismo. Conhecer e aceitar a si mesmo para poder combater as mazelas do mundo, deve ser uma premissa básica para colocarmos em consonância quem somos com o que acreditamos.
A Geração Tombamento está mais próxima de um fenômeno de contracultura do que de uma militância organizada, sendo assim, sua ação política se dá na forma de existir, por mais raso que muitas vezes o discurso seja. Como vimos anteriormente, não há ali a construção de um estereótipo do que é ser negro e militante, pois, esse estereótipo já estava sedimentado, quando o racismo designou o que era coisa de preto e o que não era, e nós negros, assumimos isso principalmente no âmbito cultural. Música de preto, roupa de preto, jeito de falar de preto, etc. Quando se experimenta um outro modo de ser negro, que é o caso dos Tombadores, é uma resposta ao que já está estabelecido e não um novo padrão de como todos os negros devem ser e militar.
Assim como outros fenômenos de contracultura como o Hip Hop, por exemplo, a moda chamada de estética pela autora, é parte desse repertório de indivíduos que se recusam a ser de determinada forma, e assumem uma outra que se diferencie do status quo e que reivindique um lugar no mundo, e mesmo que saibamos do risco de captura pelos aparelhos de controle do capital, nenhum de nós teria coragem de negar a importância do Hip Hop para uma geração inteira de indivíduos negros. Por que negaríamos então, a potência de construção de uma autoestima negra na Geração Tombamento?
Além disso, a ideia da “falsa sensação de liberdade” colocada pela autora, faz com que eu lance a pergunta provocação: o que é a liberdade?
Me parece que essa liberdade é entendida apenas do ponto de vista socioeconômico, e não como algo que construímos através das relações que temos com outras pessoas e com espaços de vivência. A liberdade para os Tombadores dentro de uma festa como a Batekoo é real, não mera sensação, e aqui enfatizamos a liberdade de experimentação desses corpos negros, que não é a liberdade que pode ser construída através da superação da lógica do capital. São ideias de liberdade diferentes, porém complementares se utilizadas estrategicamente.
Enfim, apesar de entender as limitações da Geração Tombamento em termo de sistematização de um pensamento e luta contra o racismo e da afirmação dos direitos dos indivíduos negros, consigo ver a potência desse fenômeno para jovens criados na era da imagem, onde eles dificilmente se veem representados. A reconstrução da imagem pautada em um repertório negro e híbrido ao mesmo tempo, ajuda a deslocar o imaginário criado pela sociedade branca em relação aos negrxs. Mais uma vez somos nós criando quilombos e resistências através dos corpos que dançam tambores sintetizados e experimentam outro tipo de liberdade que se dá pelas vivências e trocas. Cabe a cada um de nós ajudar a transformar essas vivências e trocas em ações efetivas, reflexões e estudos que ultrapassem alógica da festa.
Texto escrito por:
Mestre em Ciências Sociais, educador, produtor cultural e integrante do Coletivo Sistema Negro.
