O homem negro periférico II

Reflexões e autoanálise a partir de uma masculinidade negra.

Coletivo Sistema Negro
Jul 31 · 7 min read

O ano de 2016 foi paradigmático para minha experiência enquanto homem, e mais especificamente, enquanto homem negro. Foi o ano em que eu tive que me confrontar com a minha masculinidade pela primeira vez. Se anteriormente ela era um fato dado, passando longe das minhas reflexões intelectuais; a partir de uma crise emocional disparada pela forma como eu exercia a minha afetividade com mulheres e homens, fui psiquicamente, fisicamente e intelectualmente forçado a me debruçar sobre as discussões de masculinidades negras para encontrar o meu processo de mudança e cura.

Foi neste ano que escrevi o texto catártico, “O homem negro periférico”, como um relato de autoficção que trazia questões de forma generalizante sobre a estrutura de masculinidade reproduzida entre os homens negros de periferia. Na época eu tinha pouquíssimas referências sobre essa discussão de masculinidades, exceto pelos textos de antropologia clássica que vi na graduação, mas que abordavam sempre o tema a partir de uma perspectiva do europeu colonialista olhando para o que era identificado como “o outro”. Além disso havia Franz Fanon com seu “Peles Negras, Máscaras Brancas” que eu havia lido pouquíssimo antes e reverberava levemente nas minhas reflexões. Mas o que de fato trouxe a emergência de pensar e agenciar o tema foi a experiência pessoal, vivida, aquela que transborda qualquer teoria.

Três anos passados, resolvi retomar o texto de forma mais crítica e autoanalítica, sendo que minha própria masculinidade se reposicionou durante este tempo, e isto fez com que eu adquirisse mais ferramentas para lidar com o tema e comigo mesmo. A tentativa aqui não é de criar uma referência teórica ou acadêmica sobre o tema (evitarei citações e referenciamentos), mas sim, dar continuidade ao processo de reflexão iniciado tempos atrás, para entender de forma mais “fria”, o que estava naquele texto e quais as mudanças, continuidades, recusas e desdobramentos possíveis no atual contexto.

A linguagem da violência.

Ao reler o texto de 2016, o primeiro parágrafo traz o cerne principal, ao meu ver, da socialização masculina periférica, ou seja, a violência e o flerte constante com a morte. Li certa vez em algum lugar que grande parte da socialização masculina é bélica, tanto que, em diversos grupos sociais ser guerreiro é visto como algo valoroso, é motivo de honrarias e há toda uma preocupação em preservar ou defender a honra. Nas sociedades ocidentais, coloniais ou não, é comum os pais incentivarem seus filhos homens a participarem de competições que remetem a rivalidade da guerra ou incentivarem a participar da guerra de forma lúdica com a presença de armas de brinquedo ou das famosas brincadeiras de “lutinha”. Mesmo os esportes carregam essa carga de masculinidade bélica, e se tratando de Brasil, o futebol é o principal meio de reprodução desta lógica. Se por um lado o futebol ensina a ganhar e perder, agir coletivamente para atingir um fim, a não desistir até o último minuto, por outro lado, frases que exaltam a violência como “Se passar por você, quebra no meio!”, “Zagueiro que é zagueiro tem que mostrar quem manda!”, “Futebol é pra homem, não é pra viadinho não!”, entre outras, são comumente ouvidas por crianças desde a primeira entrada em campo e o primeiro chute na bola. Outro exemplo dessa sociabilidade violenta que podemos pinçar, são as próprias brincadeira e ações recreativas entre os meninos. Piadas ofensivas ou o chamado bullying, são lugares comuns de exercício de poder e disputa masculina por espaço e autoafirmação.

Ao mesmo tempo em que essa violência e belicismo é produzida e reproduzida nas sociabilidades masculinas normativas em geral, os homens negros são também os alvos preferidos da violência policial e da autoviolência. Em seu indispensável livro “Race Matters” de 1993, mais especificamente no prefácio da edição de 2001, Cornell West abre o texto colocando a problemática do auto-ódio negro dizendo que “nenhum povo foi ensinado sistematicamente a odiar a si mesmo quanto o povo negro”, e poderíamos, seguramente, adicionar a essa frase o homem negro como maior disseminador desse auto-ódio. Fugindo do discurso racista-essencialista de uma branquitude que constrói o homem negro como o vilão em si, podemos citar, como exemplo, a forma como as condições sócio-econômicas atravessadas pelas performances de gênero e sexualidade, forjam o homem negro para a violência contra seus iguais e os empurram para o universo da criminalidade que criou as rivalidades entre gangues que assolaram os Estados Unidos na década de 90 e as facções do tráfico que assolam as periferias brasileiras nos dias de hoje.

A relação do homem negro com a violência, se dá em uma via de mão dupla. Se por um lado ele é sujeito da violência em relação aos seus iguais, homens e mulheres negras, por um outro ele é objeto dessa violência que o coloca em situação de desumanização. Esse processo faz com que ele crie, lentamente conforme se desenvolve enquanto ser humano, as estratégias que lhe parecem corretas, dada a afirmação acima, para a sobrevivência, e uma dessas estratégias resulta em uma eterna desconfiança:

“Eu só confio em mim, mais ninguém, cê me entende?

Falar gíria bem, até papagaio aprende”

(Racionais MCs — Eu sou 157)

Mesmo entre outros homens negros a desconfiança se manifesta em forma de competição. Aquele que desconfia de tudo e de todos, compete para se certificar de que é o melhor, e sendo o melhor, não precisa correr o risco de ter que confiar em ninguém. Cria-se então, uma fantasia de autossuficiência ao mesmo tempo em que outras pessoas, negras principalmente, são colocadas inconscientemente como objetos as quais as ações desse sujeito serão direcionadas, e não como pares, sujeitos em pé de igualdade.

A fala como inimiga.

Aquilo que falamos, como falamos, quais palavras escolhemos para comunicar, são elementos importantes para entendermos como nos relacionamos, o que consequentemente, nos dá indícios de como nossa subjetividade está sendo construída. É comum que entre grupos de homens a competição se manifeste nas conversas, mesmo que de forma velada, ou diluída nos comportamentos de camaradagem. A disputa por quem tem o direito a fala e qual fala será a dominante reflete, em muitos casos, questões relacionadas aos problemas de autoestima desses homens negros. Aquele que fala ininterruptamente, sem dar ao outro a chance de também falar, quer dominar e se mostrar digno de atenção e de amor através do discurso, modulando isso em espaços em que é mais ou é menos ouvido e silenciado.

Em uma sociedade cujas as esferas de poder real e simbólico são lugares ocupados pela branquitude que fala de si mesma para si mesma ignorando outras existências (pacto narcísico da branquitude), as pessoas negras em geral tem sua fala tolhida. Ela só se manifesta de fato endogenamente, ou seja, só nos sentimos no direito de falar com certo conforto dentro do nosso próprio grupo, mas essa fala contaminada por violências estruturais (racismo, classismo, machismo, etc) se pretende hegemônica, a medida em que o exercício de poder só pode se manifestar dentro do grupo de origem, ou seja, entre os próprios negros.

A importância do sexo.

Deivison Nkosi nos traz uma importante reflexão sobre a ausência de poder real e simbólico para os homens negros, mesmo em uma sociedade em que as esferas de poder são absolutamente masculinas e funcionam visando manter o privilégio deste grupo, este poder que se manifesta simbolicamente através no falo, não nos pertence. O que nos pertence é o poder que se manifesta materialmente através do pênis!

É neste lugar que a masculinidade negra se vê em plenitude, é o lugar que inconscientemente ou não, grande parte dos homens negros se sentem “confortáveis”. O sexo enquanto consumo do outro, comum no modelo capitalista-colonialista de relacionamento ao qual somos inseridos e replicamos sem questionar, pode ser visto como uma das bases das relações de sociabilidade dos homens. Falar de sexo de maneira quantitativa é um dos sintomas desse tipo de pensamento. A qualidade não importa! Os laços rasos ou profundos que podem ser criados no encontro entre dois corpos, não importam! A ausência do falo libera o pênis para, incessantemente, exercitar o seu pequeno poder de penetração e domínio do corpo das mulheres e/ou dos homens, sendo que o sexo se torna ao mesmo tempo muito importante e extremamente vazio de troca.

O efeito disso? Relacionamentos disfuncionais quase sempre baseados em mentiras e na falta de coragem em lidar com o próprio desejo, pensando desejo aqui de forma ampla. A traição é fruto desse tipo de amor que os homens negros primeiramente foram condicionados viver e depois se transformaram em replicadores. Aqueles que fogem desse lugar geralmente são ostracizados, pois, do outro lado entende-se que abandonar o pênis como condutor das ações é uma traição a própria masculinidade (hegemônica).

Continua no próximo texto…(será?)

Para não me alongar demasiadamente e inviabilizar a leitura daqueles que dispõem de pouco tempo, pararei por aqui por hora. Lembrando aos leitores que essas reflexões partem de um processo autoanalítico, de um texto de autoficção, de dentro para fora, ou seja, parte de mim. Mas acredito que em termos estruturais, muitos homens vão se reconhecer nessas palavras, muitas mulheres vão reconhecer seus companheiros, pais, irmãos, primos e amigos.

Minha intenção com essas reflexões não é criar um padrão homogeneizante de masculinidades negras, mas sim, trazer à superfície reflexões que vem me inquietando nos últimos anos, e provavelmente, inquieta muitos de vocês irmãos e irmãs de pele preta, para que possamos juntos começar a nos curar e criar outras formas de nos relacionarmos.

Texto escrito por:

Viny Rodrigues

Doutorando em antropologia social, produtor cultural e integrante do Coletivo Sistema Negro.

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