Museu de Colagens Urbanas: os Haouka da Copa do Mundo

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Este ensaio composto de nove montagens fotográficas, na qual algumas imagens são sobreposições de mais duas ou três, é construído com o intuito de refletir sobre o processo de colagem e fragmentação do tempo/espaço urbano. Constitui parte da pesquisa de mestrado: corpo transgressão: manifesto performance (uma análise da economia política do corpo em performances de rua no Rio de Janeiro), coloca em dialogo performances urbanas decorrentes de processos de resistência, como os levantes de junho de 2013 com espaços da cidade em um exercício de reconstrução histórica. O estudo encontra referência na teoria do dispêndio de Georges Battaile (1975) e sua relação com a prática espacial de Henry Lefebvre (1986). Dialoga também com as noções que permeiam a passagem da sociedade disciplinar de Foucault (1988) para sociedade de controle de Deleuze (1990), em que o exercício performático atua sobre a desconstrução do corpo passivo e limpo dando lugar a um corpo mais combativo e menos vulnerável aos aparatos codificadores.

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Em dezembro de 2014 o Rio de Janeiro vive uma ressaca das mobilizações de junho de 2013 e seu desenvolvimento ao longo do período que se estendeu até o final da Copa do Mundo em 2014. As manifestações quase diárias, após forte repressão e criminalização, se encontram esvaziadas embora ainda ocorram com frequência. Neste contexto o museu de colagens urbanas realiza mais uma performance de interrupção no espaço público. A praça da cruz vermelha, localizada na região da Lapa, é o espaço escolhido para a intervenção. Os anti-artistas, como muitas vezes se denominam, experimentam o piso duro e quente de cimento no verão do Rio. A experimentação faz parte da desconstrução da passividade, limpeza e “cuidados de si”, que evoca o fim da disciplina. A mutação do corpo aponta para uma flutuação nômade que explora os objetos e o entorno como um habitat efêmero. Na multiplicidade de afetos que constroem as experiências corporais estão presentes a denuncia ao controle e a ordem. A supervisão da praça é feita por um representante da prefeitura subvertido em tatu, mascote da copa, que se mantêm grande parte do tempo apático.

O que a câmera não pode captar é o paradoxo desta situação, um grupo grande de habitantes de rua que hostis a fotografia me alertavam a não direcionar-lhes a captura. A performance também não era bem recebida por alguns, que olhavam desconfiados, embora sua intenção tivesse plena relação com a rua, com o lixo e a sujeira, com a mendicância, com a loucura. Outros se divertiam achando graça e estranhamento nos personagens.

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Os corpos se espalharam pela praça, ocuparam e re-maperam o espaço, dispuseram um varal de roupas, colaram mensagens: KD o Amarildo? Atualizavam a violência denunciada em 2013. A lama medicinal trazida do mangue protege a pele do calor, as ancestralidades se atravessam e se materializam em um devir entidade. Os transeuntes olham apenas de canto de olho para não encarar a loucura do outro que os constrange. Cada um em sua atuação particular vivencia uma experiencia de corpolimite (Panamby, 2013) deixando atravessa-se pelos fluxos da rua, pelos olhares desconfiados, pelo calor e poeira que levantam os carros entorno a praça. O tempo não existe, a respiração e concentração dita quanto dura cada movimento.

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As épocas se sobrepõem e os fragmentos se recompõem no bricolage de photoshop. A praça construída durante a reforma urbana de Pereira Passos, faz parte da modernização do centro da cidade no início do século XX, atravessada pela Avenida Mem de Sá, onde antes o bonde elétrico trazia o progresso. Marcada pelo processo de ordenamento e higienização, vacinação da população, expulsão dos pobres e demolições dos cortiços o local se desterritorializa quando ocupado com insistência e resistência pela população da rua. Os performances mediam esse fluxo ressaltando a criticidade à violência na prática espacial. A velocidade da modernização urbana se reproduz na multiplicação sequencial dos performances.

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A violência original, aquela que permanece, é ressaltada de forma poética em um ritual de descarrego corporal. Como em Les Maítres Fous de Jean Rouch (1995), a colonização marcada no corpo encontra transgressão quando transborda no espaço, dando novo sentido as relações. Os espíritos Haouka são submetidos a vida e já não tem mais poder sobre os corpos. A praça descodificada é quase um deserto surreal, onde os personagens híbridos recusam a ação espetacular. A sensação é de abandono do espaço, dos corpos, das pessoas que ali habitam. Integrados a praça, fundidos ao piso, os performances alcançam a invisibilidade. A supersaturação das imagens mistura corpos e cenários e o que se vê é a multiplicidade fragmentada da malha (Ibden, 1986) com sentidos difusos que emergem e se concretizam na repetição. O efeito de congelamento da fotografia, assim como a ideia de realidade, se dilui na colagem que garante a velocidade moderna sobreposta a resistência ancestral.

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Camile Vergara, Bacharel em Antropologia Social pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel/RS). Mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PPCIS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e membro do Grupo de Pesquisa Imagens Narrativas e Práticas Culturais (INARRA). camilevergara@gmail.com

Referencias:

Bataille, G. (1975) A Parte Maldita. Rio de Janeiro: Imago Editora ltda.

Deleuze, G. (1990) Post-escriptum sobre las sociedades de control. In: Conversasiones (1972–1990). Edición electrónica de www.philosophia.cl / Escuela de Filosofía Universidad ARCIS.

Foucault, M. (1988) História da sexualidade 1: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal.

Lefebvre, H. (1986) La production de l’espace, tercera edición, París: Anthropos.

Panamby, S. CORPOLIMITE: Estados insistentes de desterritorialização das matérias. (2013) [www.anpap.org.br/anais/.../Sara%20Panamby.pdf]

Les Maítres Fous (Jean Rouch, 1955) Disponivel em: [https://www.youtube.com/watch?v=yP4npWGiDoA]

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