O acaso em uma chuvosa tarde — parte II

Por tempo indeterminado ficaram em silêncio absoluto. Ouvia-se apenas buzinas e o barulho, não mais intenso, da chuva. Cada um estava em uma guerra interna. Cada um com suas dúvidas, arrependimentos. Com seus medos. Com as feridas que um amor mal resolvido deixa.

A coragem invadiu Rafael e ainda trêmulo ele quebrou o silêncio:

— Eu tinha o direito de escolha. Você foi… foi extremamente egoísta. Simplesmente covarde. Me encantou, me despertou amor e depois? Depois me abandonou. Não explicou, não quis saber minha opinião. Me tirou o direito de escolha. Eu deveria escolher se ficava ou não. Eu, somente eu, saberia o que seria melhor pra mim. Você não tinha esse direito.

Verônica ouviu tudo sem reação alguma. Os pensamentos vagavam e a voz dele estava em segundo plano. Contudo, ainda assim, ela compreendia cada palavra. Tentava digerir tudo aquilo, mas sentia apenas fraqueza e enjoo. Não sabia ao certo quanto tempo havia se passado, mas tinha certeza que era hora de ir pra casa. Virou-se, olhou para Rafael ainda com os olhos marejados e disse:

— Preciso ir pra casa. Nesse momento é minha maior necessidade. Podemos continuar essa conversa lá, se você concordar.

— Tudo bem. Meu carro está logo ali, perto do salgueiro. Vamos?

— Pode me ajudar? Estou um pouco tonta, não sei se consigo levantar.

A chuva havia diminuído, o intenso fluxo de carro e gente já não existia. A cidade estava tranquila e agradável. Abraçados, andaram calmamente em direção ao carro. Ele já não sabia ao certo aonde ir. Sabia apenas que ela não residia mais no mesmo lugar. Durante o percurso a comunicação se resumia as coordenadas de Verônica. Estavam desconfortáveis, não só pelo fato de estarem extremamente molhados. Ia muito mais além. Depois de uns 40 minutos ela ordenou que parasse em frente a uma singela casa amarela com um enorme jardim. Na rua Paulista, esquina com Sophia de Mattos número 897, ela se escondia. Se escondia dos outros e em especial de si mesma. Ele desligou o carro, olhou para ela, que procurava a chave dentro da bolsa, esperando mais coordenadas.

Era uma casa pequena, bem dividida. A cozinha americana era conjugada com a sala. Tinha um sofá bege relativamente pequeno, uma mesinha de centro e uma estante que tomava quase toda parede. Na instante, alguns livros, diversos bibelôs e muitos porta retratos. Enquanto ela tirava a sapatilha e colocava as coisas na mesa ele observava minuciosamente os detalhes e pôde perceber que havia três ou quatro fotos deles. Cada foto era repleta de significado. Seu coração estava acelerado, quando ela avisou:

— Vou pegar uma toalha e uma roupa para você. O banheiro fica no final do corredor à esquerda. Imagino que nossa conversa vai ser longa e de doente aqui já basta minha pessoa. — disse ela tentando fazer piada da sua condição.

— Oi? Aaaah sim, tudo…tudo bem. Obrigada! — respondeu ele ainda perplexo e absorto em seus questionamentos.

Depois do banho os dois estavam sentados no sofá tomando café e comendo biscoitos de aveia e mel, os prediletos de Verônica. Ainda estavam monossilábicos, robóticos. Era estranho perceber que mesmo conhecendo tão bem um ao outro, se viam, naquele momento, tão desconcertados . Era estranho perceber que o casal das fotos parecia ser outras pessoas, em uma outra época, em uma realidade inexistente. Não se conheciam mais. Eram um para outro pura interrogação. Eram diferentes, ainda que fossem os mesmos.

Within my heart are memories
Of perfect love that you gave to me