Caminhos Cruzados: Cada passo é um flash — o papel da imprensa na promoção da mobilidade a pé

Caminhos Cruzados é uma experiência de debate virtual com o objetivo de discutir um mesmo tema a partir de visões e abordagens distintas. Além de responderem cada uma das três perguntas elaboradas pelo Como Anda, cada convidado deve comentar a resposta do outro. Trata-se de um esforço para revelar as divergências, singularidades e, também, as semelhanças entre as perspectivas de cada um sobre a mobilidade a pé no Brasil.

Cada passo é um flash — o papel da imprensa na promoção da mobilidade a pé

Com Roberta Soares, jornalista de mobilidade do Jornal do Commercio, e Marcos de Sousa, diretor de jornalismo do Portal Mobilize Brasil.

1. Qual a importância do papel da imprensa na promoção da mobilidade a pé?

Roberta Soares: O papel da imprensa é fundamental na promoção da mobilidade a pé porque a imprensa é responsável por formar opiniões, mudar hábitos e promover discussões que possam resultar em mudanças da sociedade. O jornalista, por essência, é treinado e qualificado desde sempre a olhar na direção do que é melhor para a maioria, do que é mais justo socialmente. Quando veículos de comunicação sérios produzem reportagens, promovem discussões e fazem análises sobre determinados temas, eles estão influenciando diretamente os leitores e, consequentemente, a sociedade. Eles provocam mudanças de direção nas gestões e nas decisões políticas. A imprensa ainda tem esse poder. Por isso tanta responsabilidade. Imagine a consequência que teríamos se a imprensa defendesse a reação da sociedade aos assaltos nas ruas, por exemplo, ou estimulasse o assassinato de suspeitos ou até mesmo de condenados por crimes? Trazendo para a discussão da mobilidade, imagine se a imprensa especializada começasse a defender o uso irrestrito do automóvel e a busca pela infraestrutura ideal para ele no país? O que poderia acontecer com nossas cidades? Quando a imprensa começa (sim, porque só acordamos para essa defesa há poucos anos, infelizmente) a defender a mobilidade a pé, o direito que temos de caminhar, ela acorda a sociedade, os políticos e gestores para o histórico e ainda permanente esquecimento do país em relação aos pedestres.

MS: De fato, a imprensa demorou (ainda demora) a ver a caminhada como forma de mobilidade urbana. Todas as manhãs as emissoras de rádio colocam repórteres nas ruas (e sobre elas também, em helicópteros) para apontar congestionamentos e indicar caminhos alternativos. Fala-se sobre buracos no asfalto, problemas com semáforos — tudo voltado ao motorista. Mais recentemente — pelo menos aqui em SP — surgiram boletins sobre a situação de trens e metrôs. O caminhante só entra no ar anonimamente, quando ocorre um atropelamento, quando ele “atrapalha” a circulação da cidade. Enfim, salvo em canais específicos, como o trabalho realizado pela Roberta Soares no Recife, ou do Leão Serva em São Paulo, ou em publicações especializadas como os boletins da ANTP e os conteúdos do Mobilize, por exemplo, mobilidade a pé continua à margem. Falta ao caminhante um simbolismo semelhante ao já conquistado pelos ciclistas. Talvez nós jornalistas possamos ajudar a construir uma imagem mais sedutora, poética, aventureira e ecológica para esse jeito de se mover.

Marcos de Sousa: Desgastada, desvalorizada, com poucos recursos, desgastada por relações promíscuas com o poder, a imprensa continua sendo uma das atividades de maior credibilidade entre os brasileiros, segundo pesquisa recente da FGV. Em outras palavras, segue sendo uma importante formadora de opinião, em todas as faixas de renda e de formação escolar. Assim, é uma ferramenta decisiva para afinar as visões da população sobre questões como segurança, velocidade do trânsito, incentivo ao transporte sustentável e, especialmente em relação à mobilidade ativa. Exemplar foi a campanha movida por parte da imprensa contra a implantação de ciclovias na cidade de São Paulo, que levou a um certo descrédito da gestão anterior e sua derrota nas eleições. Assim, não haverá segurança para pedestres, ciclistas, deficientes físicos, nem para motoristas, não haverá uma cidade mais saudável, cidade para pessoas, sem o apoio decisivo da imprensa.

RS: Concordo totalmente com a resposta do Marcos. A mídia em geral demorou e ainda demora a defender e, principalmente, a entender a importância da mobilidade a pé. Eu mesma, que já cubro o setor de mobilidade há 14 anos, levei anos para voltar o meu olhar para o direito ao caminhar. Acredito que a mídia está melhorando e hoje já é possível ver inúmeros materiais defendendo o transporte coletivo e, mais recentemente, o transporte ativo. Acredito, também, que o lobby da ciclomobilidade ajudou muito nesse processo por envolver pessoas bem informadas, politicamente e socialmente. O ciclista se preocupa mais com o pedestre do que o motorista, é fato. Acredito que estamos no caminho certo, embora ele ainda seja longo.

2. Nos últimos anos, considera que a pauta dos pedestres vem ganhando destaque? Por quê?

Roberta Soares: Acredito que sim. O tema passou a ganhar força e, o que é mais interessante na minha opinião, é que o enfoque e as abordagens mudaram. A imprensa está começando a entender que a mobilidade a pé não significa apenas a calçada. Que ela vai muito além disso. Ela significa a segurança nas vias, principalmente a questão da travessia, a arborização das ruas, a iluminação específica para o pedestre e, não, sobre as árvores, voltada para a rua e para o automóvel. São nuances que a mídia e, muito menos a sociedade, discutiam no passado. Começamos a entender que o caminhar é direito de todos e um importante hábito para que as pessoas se apropriem de suas cidades, de seus bairros, de seus espaços. Que a mobilidade a pé é, sim, sinônimo de desenvolvimento sustentável. Passamos — sociedade e mídia — a gritar por esse direito. Exemplos dessa mudança são as inúmeras entidades criadas — infelizmente, ainda predominantes apenas no Sudeste — em defesa da mobilidade a pé e o próprio Estatuto do Pedestre da cidade de São Paulo. Vitórias e conquistas inimagináveis anos atrás. Outro exemplo é o especial multimídia PeloCaminhar produzido pelo Sistema Jornal do Commercio, que trouxe no ano passado essa discussão.

MS: Um pouco desse despertar tem a ver com experiências inspiradoras vivenciadas pelos jornalistas quando trabalham ou passeiam em outros países. O próprio fundador e diretor do Mobilize, Ricky Ribeiro, entendeu essa possibilidade quando esteve fora do Brasil, estudando em Barcelona, e pode experimentar a vida sem carro, utilizando os pés para caminhar e pedalar, além do transporte coletivo. 
Não é a toa que a maioria das organizações que defendem a mobilidade ativa foram criadas por jovens de classe média, que puderam estudar, viajar, ver o mundo. Eu mesmo, embora gostasse muito de circular de bicicleta, somente compreendi a amplitude de mudança proporcionada por uma pessoa pedalando nas ruas quando conheci a Holanda, a Bélgica, o Canadá. 
O problema é que algumas pessoas não acreditam que essa transformação seja possível no Brasil por conta das diferenças sociais, dos problemas de educação, do acesso à informação. Mas se olharmos para cidades latino-americanas, colombianas, como Bogotá e Medellín, que podem ser comparadas às capitais brasileiras, veremos que as transformações estão sendo realizadas coletivamente e envolvendo todas as classes sociais. Com mudanças urbanísticas, informação disseminada, implantação de bibliotecas e centros de cultura e esporte foi possível afastar a juventudes do crime organizado e reestruturar uma sociedade muito marcada pelo tráfico de drogas. 
Ainda hoje no Brasil predomina a visão de que notícia boa não é notícia, mas nossa mídia conseguiu banalizar de tal maneira a violência, o crime, que apresentar cases de sucesso, (boas práticas) talvez possa fazer a diferença na formação das pessoas. Nós da imprensa temos que falar com os motoristas presos nos congestionamentos, com as mães que levam seus filhos de carro à escola, com os professores, com motoristas de ônibus, policiais, políticos e demais gestores públicos. Precisamos sair de nossa bolha.

Marcos de Sousa: Pedestres — como vítimas, como um problema — sempre estiveram presentes nos jornais e revistas. O conceito de mobilidade a pé ainda é “novidade”, para a maioria dos profissionais de imprensa. Há um consenso de que calçadas devem ser melhoradas, de necessidade de respeito às faixas de travessia, de que a acessibilidade é desejável em todas as cidades. Mas o caminhar como forma de transporte — que demanda uma infraestrutura própria — ainda não foi incorporado aos manuais de redação dos jornais e ao pensamento dos editores. A partir de 2012 o assunto ganhou mais espaço — talvez sob influência da Política Nacional de Mobilidade Urbana ou de campanhas como as realizadas pelo Mobilize, Corrida Amiga e ANTP, mas ainda é visto como o “fato curioso” e não a forma mais simples e natural de deslocamento urbano.

RS: Entendo que, do mesmo modo que a imprensa demorou para acordar para a importância da mobilidade a pé, a sociedade também. Todos nós, imprensa ou sociedade em geral, sempre fomos talhados para evidenciar o automóvel. Começamos a mudar há pouco tempo. Criticar o estado ou a inexistência de calçadas são posturas mais antigas e adotadas por muitos, mas entender o caminhar e todos os fatores necessários para transformá-lo numa prática segura, é algo recente. E, sem dúvida, a entrada da classe média foi fundamental. No lobby da bicicleta aconteceu o mesmo. Enquanto a bicicleta era um meio de transporte apenas do trabalhador humilde, que não tinha dinheiro para pagar sequer a passagem do ônibus — o famoso bicicleteiro — , ela vivia à margem da sociedade. Foi necessário as pessoas descobrirem a bike como meio de transporte, de apropriação das cidades, para que tudo mudasse. E foi a classe média que assumiu o papel de porta voz. Há dois anos — talvez três — essa mesma classe média acordou para o direito e a importância do caminhar também como apropriação das cidades. Os grupos de defesa da mobilidade a pé são de classe média e surgiram há pouco tempo. Agora, começam a ganhar força. E isso tem repercussão direta na mídia, que passa a ser provocada e ensinada por eles.

3. Qual foi o momento ou o que te motivou a pautar a mobilidade a pé?

Roberta Soares: Tenho 21 anos de jornalismo e cubro o setor de mobilidade há, pelo menos, 14 anos. Os anos de coberturas me ensinaram que o transporte ativo (não motorizado) precisa ganhar vez e voz nas cidades brasileiras para que possamos nos apropriar delas. Passei a entender que o sistema viário é algo findável e que não podemos manter a lógica rodoviarista de construir mais e mais ruas e avenidas, que historicamente predominou no Brasil numa clara influência do estilo americano de construir suas cidades. Vi que o direito ao caminhar é o mais primordial de todos. Somos, todos nós, caminhantes, pedestres. Até aqueles que tudo fazem num automóvel. Em algum momento também serão pedestres. E, com o tempo, nas entrevistas, fui percebendo que o lobby pelo caminhar, pela mobilidade a pé, ainda é quase inexistente no Brasil. Passei a querer engrossar o coro dos que lutam por esse direito. Ensinar que todos que fazem o trânsito são responsáveis pelo pedestre. A luta ainda é muito, muito longa. Mas com o tempo vejo que vamos avançando. Mesmo que lentamente. E quero fazer parte dessa árdua luta.

MS: Nos anos 1970, o então diretor do DSV de São Paulo, Roberto Salvador Scaringella fez algumas modificações no trânsito da cidade para, sobretudo, proteger a vida das pessoas: motoristas e pedestres, entre elas, redução de velocidades, mais semáforos, mais controle… Essa política durou pouco mais de uma semana por conta das pressões e críticas que a proposta recebeu da imprensa da época. Privilegiou-se a fluidez em detrimento da segurança. E a cidade ficou sem fluidez, nem segurança. Coisa parecida ocorreu na última gestão municipal, quando o prefeito Haddad começou a reduzir o espaço do carro e iniciou sua política de priorização de ônibus, construção de ciclovias e experiências com faixas adicionais para a circulação de pedestres. A gestão foi malhada duramente na mídia e o resultados são agora conhecidos. Creio que a própria imprensa — especialmente os velhotes como eu — teriam que passar por cursos de reciclagem, seminários, experimentos práticos nas ruas para entenderem a proposta de cidade que agora perseguimos neste novo século. Parte importante da imprensa integra (sem querer, querendo) o lobby do automóvel e da motocicleta, talvez pelo poder econômico da publicidade, talvez pela ingenuidade de achar que carros elétricos ou autônomos resolverão os problemas de poluição e acidentes. Sim, temos que estruturar o lobby da mobilidade ativa, do novo urbanismo, da cidade para pessoas.

Marcos de Sousa: Atuo em cidades desde 1986, quando comecei como repórter na Folha. Mas só fui tomar contato com o assunto por volta de 1997, quando passei a editar a revista AU — Arquitetura e Urbanismo, que trazia alguns raros artigos em que a questão da caminhabilidade era colocada de forma meio lateral, marginal em projetos urbanísticos. Algumas viagens e cursos (CCA Montreal e Nai Roterdã) me apresentaram a possibilidade de forma mais concreta. Mas a ficha somente caiu em 2011, quando comecei a editar o Mobilize e fui “empurrado” a desenvolver a Campanha Calçadas do Brasil. A partir daí passei a participar de palestras em todas as partes do Brasil e tive contato com pessoas em todo o país que já lutavam pela melhoria da acessibilidade e caminhabilidade urbanas. Muitas leituras, conversas e debates depois passei a entender porque o caminhar — essa coisa animal — é tão importante para as pessoas e, portanto para as cidades. Hoje o tema é pauta diária, não apenas no Mobilize, mas também em outras publicações que fazemos aqui na Mandarim Comunicação.

RS: Acho que todos nós acordamos para a mobilidade a pé quando começamos a ver exemplos e a sofrer na própria pele. Eu mesma comecei a acordar para o caminhar quando, já bem envolvida com o tema da mobilidade, passei a não querer resolver tudo de carro. Passei um tempo sem o veículo, por questões pessoais, e descobri que era bom voltar a andar de ônibus e a pé. Uma coisa foi chamando a outra. Foi nesse momento que passei a enxergar além do problema das calçadas. Passei a reparar na ausência de arborização, no curto tempo semafórico para o pedestre, na insegurança das travessias e na iluminação voltada para a rua, não para a calçada. Um dos profissionais que mais me ensinou sobre mobilidade quando estava engatinhando nessa área, Oswaldo Lima Neto, especialista em transporte e professor da UFPE, sempre me disse que o transporte público precisa de bons exemplos. Que no dia em que o motorista ver, do carro, que o ônibus anda e chega mais rápido ao mesmo destino que ele, irá rever seus conceitos. Acho que o mesmo vale para o caminhar. Precisamos de bons exemplos para estimular cada vez mais pessoas a fazerem alguns percursos a pé, vendo, sentindo e vivendo suas cidades.

Roberta Soares é jornalista há 21 anos e trabalha no Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC), do Recife. Cobre o setor de mobilidade há 14 anos, produzindo reportagens sobre o tema tanto para o Jornal do Commercio como para o site JCOnline e o Portal NE10, que fazem parte do SJCC. Desde 2009 é titular do Blog De Olho no Trânsito e há quase dois anos também assina a Coluna De Olho no Trânsito, publicada aos domingos na versão impressa do JC. Também já recebeu diversos prêmios jornalísticos, nacionais e regionais, relacionados ao tema da mobilidade.

Marcos de Sousa é eletricista, jardineiro, síndico, músico, ciclista, caminhante, ambientalista e jornalista profissional desde 1985, quando a ECA o liberou para o mundo. Foi repórter, redator de política internacional, repórter e editor de publicações em urbanismo, arquitetura, construção civil, medicina, cultura, esportes e até política. Confessa que foi motociclista e motorista convictos, mas abandonou o vício em 2005, sob forte influência de sua mulher, a também jornalista Regina Rocha.