Caminhos Cruzados: Como podemos caminhar rumo a cidades mais saudáveis?

Caminhos Cruzados é uma experiência de debate virtual com o objetivo de discutir um mesmo tema a partir de visões e abordagens distintas. Além de responderem cada uma das três perguntas elaboradas pelo Como Anda, cada convidado deve comentar a resposta do outro. Trata-se de um esforço para revelar as divergências, singularidades e, também, as semelhanças entre as perspectivas de cada um sobre a mobilidade a pé no Brasil.

Como podemos caminhar rumo a cidades mais saudáveis?

Com Paula Manoela dos Santos, Gerente de Mobilidade Ativa do WRI Brasil, e Marco Martins, pesquisador do departamento de Saúde Ambiental da Harvard T.H. Chan School of Public Health.

1. Cada vez mais tem-se discutido o papel do ambiente urbano na saúde das pessoas. Especialistas inclusive já colocam que o nosso “código postal” possui igual ou maior influência na nossa saúde do que o “código genético”. Vocês concordam com essa afirmação? Qual a relação entre planejamento urbano e saúde pública?

Paula Santos: Concordo. As características de um bairro como alta densidade, diversidade de usos dos edifícios, quadras pequenas, limite de velocidade reduzido e acesso adequado ao transporte coletivo influenciam na escolha pela caminhada como forma de deslocamento no dia a dia. Estudos apontam que pessoas que vivem em cidades com características favoráveis para a caminhada têm menores riscos para hipertensão. Adicionalmente, esses ambientes favorecem a interação entre as pessoas, aumentando a sensação de segurança e melhorando a qualidade de vida.

MM: Exatamente. A população precisa se sentir segura no ambiente urbano para optar pela caminhada. A cidade/bairro não podem oprimir seus moradores, mas devem convidá-los a fazer parte do espaço público, gerando maior sensação de segurança, pertencimento e comunidade, favorecendo a qualidade de vida.

Marco Martins: Como não concordar? De fato, viver próximo à vias de alto tráfego pode ser associado a efeitos adversos à saúde, tais como adoecimento e mortalidade por doenças respiratórias e cardiovasculares, alterações cognitivas, câncer (principalmente do pulmão), além de alterações nas funções de vários órgãos e sistemas do nosso corpo, como o aumento da pressão arterial. Tudo isso devido a poluição do ar e ao barulho. Ou seja, o local onde moramos, trabalhamos e o deslocamento nos expõe à estes riscos, tornando o planejamento urbano uma ferramenta essencial para melhora da qualidade de vida e saúde da população. Planejamento urbano e saúde pública devem caminhar juntos para que seja possível gerir ambos de forma coesa, efetiva e eficiente, criando e administrando políticas públicas que causem impacto positivo na vida dos cidadãos.

PS: De fato as áreas da saúde e do planejamento urbano serão muito mais efetivas quando unirem esforços para atingir seus objetivos, pois realmente um influencia diretamente o outro. Desta forma, questões como os malefícios de se viver próximos a vias de alto tráfego devido à poluição e ao barulho seriam avaliadas em conjunto com os benefícios proporcionados pelo fácil acesso ao transporte coletivo.

2. O que precisa ser mudado em um país como o Brasil, onde mais da metade da população está com sobrepeso — um gatilho para diversas doenças crônicas — e onde 6% das mortes são causadas por doenças respiratórias? Como e quais mudanças nas cidades podem ajudar a melhorar esse cenário?

Paula Santos: Deve haver uma mudança de paradigma: em vez de cidades construídas para serem vistas de dentro de carros e condomínios fechados, o foco deve ser a construção de cidades que possam ser experimentadas pelas pessoas, caminhando pelas ruas e convivendo no espaço público. E isso envolve elementos de diversos níveis, desde fachadas dos edifícios até o planejamento de uma complexa rede de transporte coletivo. Tudo nas cidades deve ser desenvolvido tendo as pessoas como principais clientes, sobre os pilares da equidade e da responsabilidade pelas gerações futuras. Níveis de emissões, limites de velocidade dos veículos e distâncias de deslocamento que não são compatíveis com a escala e a vulnerabilidade do ser humano não devem mais fazer parte das ferramentas de construção das cidades que se preocupam com a qualidade de vida da sua população.

MM: São realmente muitos elementos envolvidos no planejamento, e todos devem ter como objetivo a qualidade de vida das pessoas e não a continuidade de um sistema de mobilidade urbana que já provou ser ineficaz e com impacto negativo na qualidade de vida da população.

Marco Martins: Uma das principais mudanças urgentes é relacionada à maneira como as cidades são planejadas, dando prioridade à mobilidade de carros e não de pessoas. Pesquisas mostram que cidades caminháveis, com boa infraestrutura de transporte público de massa e alternativos, como ciclovias, melhoram a saúde de seus cidadãos. O simples fato de caminhar 15 minutos pelo bairro para comprar pão ou ir ao banco sem necessidade do uso do carro já tem impacto na saúde das pessoas, por diminuir a emissão de poluentes e pelo exercício físico. Pessoas que utilizam o transporte público para ir e voltar do trabalho, por exemplo, caminham, em média, 30 minutos ou 3000 passos, o que de acordo com um estudo publicado no American Journal of Preventive Medicine, pode ser considerado tempo ideal de exercício moderado para o coração. Como mencionado na resposta anterior, a chave é pensar na cidade como um organismo vivo, onde cada elemento (saúde, planejamento urbano, educação) precisa tanto funcionar por si quanto interagir de forma produtiva e colaborativa. Não é possível termos uma população saudável se a prioridade for estrada para carros, prédios para empresas, energias para indústrias, e não qualidade de vida para pessoas.

PS: Muito interessante esse destaque das cidades como organismo vivo. Concordo que esse organismo seja composto por elementos que aparentemente trabalham de forma isolada, mas que possuem na verdade um objetivo em comum, que é o bem estar e evolução da população. Se saúde, planejamento urbano, educação e outros setores trabalhassem de forma mais integrada, as mudanças aconteceriam de forma mais rápida e eficiente.

3. Hoje andar a pé é o meio de transporte mais utilizado no Brasil (dados ATNP 2015). Ainda assim, percebe-se que políticas públicas na área da mobilidade tendem a priorizar os meios motorizados nas cidades. Por isso, esses pedestres enfrentam todos os dias a poluição do ar e sonora nas ruas, a inacessibilidade e as quedas em calçadas sem manutenção, o risco de atropelamentos em vias de alta velocidade com travessias inadequadas. Diante desse cenário, o que é mais “saudável”: sair de casa a pé ou de carro?

Paula Santos: Sem dúvida, a pé, pelos inúmeros benefícios para a saúde das pessoas e da cidade. No entanto, muita gente ainda sonha em poder sair de carro todos os dias porque o ambiente passa a mensagem de que essa é a melhor opção. Além disso, as doenças relacionadas ao contato com poluentes atmosféricos e com a falta de exercício físico são, muitas vezes, silenciosas e não são fatores decisivos na escolha da forma de deslocamento diário. Enquanto as ruas forem mais confortáveis e seguras para quem anda de carro, poucas pessoas mudarão seus costumes, mesmo que isso signifique melhoria da saúde a curto e médio prazos. A relação entre mobilidade urbana e saúde pública deve ser reforçada para gerar soluções que interrompam o círculo vicioso: quanto mais pessoas optam por andar de carro, mais poluída e perigosa fica a cidade e, consequentemente, menos pessoas se dispõem a sair a pé (ou outro modo de transporte sustentável).

MM: Caminhar a pé é tão importante para saúde quanto para a criação de um vínculo positivo dos cidadãos com o espaço público. Realmente, a cidade deve ser pensada para as pessoas e não para reforçar o transporte individual como matriz de transporte. O ciclo vicioso precisa ser rompido. Inicialmente, é natural que ações em prol do transporte coletivo, da bicicleta e da caminhada sejam impopulares porque é uma mudança drástica no estilo de vida das pessoas. Mas, a partir do momento que os impactos positivos foram notados, que a população sentir-se segura para alterar seu modo de transporte, aos poucos a mobilidade urbana eficiente e humanizada ganhará espaço.

Marco Martins: Neste ponto existe uma grande diferença entre saudável e seguro. Sair de casa à pé sempre será mais saudável, lúdico e apaziguador do que sair de carro, mas sem as condições necessárias para que sua caminhada seja segura, pode tornar-se insalubre. Mais uma evidência de que os setores do poder público precisam trabalhar juntos e cooperativamente, oferecendo opções viáveis e saudáveis de transporte à população. Enquanto tudo for compartimentalizado como “problema de transporte” ou “problema de saúde”, por exemplo, minimizamos as chances de mudanças perenes com impactos reais na vida das pessoas.

PS: De acordo. Problemas de mobilidade geram consequências na saúde. Logo, a compatibilização dos projetos desses setores é necessária para proporcionar melhor qualidade de vida para as pessoas que vivem nas cidades.

Paula Manoela dos Santos é engenheira civil e dedica a sua carreira a projetos de mobilidade urbana que favoreçam a qualidade de vida nas cidades brasileiras, priorizando a boa experiência de pedestres e ciclistas. É autora dos manuais 8 Princípios da Calçada, Acessos Seguros e Manual de Programas e Projetos para Incentivar o Uso de Bicicletas em Comunidades. Trabalha no WRI Brasil, onde gerencia projetos que promovam a mobilidade ativa, a segurança viária e a criação de um ambiente inclusivo. Paula é Mestre em Engenharia de Produção com ênfase em Sistemas de Transporte pela Escola de Engenharia da UFRGS. Iniciou sua carreira simulando a operação de sistemas BRT em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília e Vitória entre outras cidades do Brasil e do mundo. A partir do trabalho com BRT, Paula passou a estudar com profundidade a questão do acesso às estações de transporte e a influência das conexões para pedestres e ciclistas na operação do sistema.

Marco Martins é pesquisador associado do departamento de Saúde Ambiental da Harvard T.H. Chan School of Public Health, com mais de 10 anos de experiência na área de poluição ambiental e saúde humana, com foco nos efeitos da poluição na saúde e qualidade de vida nas grandes cidades. Com Doutorado em Ciências, Poluição atmosférica e saúde humana pela USP, atuou como especialista em qualidade do ar do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP (LPAE), pesquisador do INAIRA e responsável pelo desenvolvimento, teste e calibração de equipamentos utilizados nos estudos clínicos e experimentais do LPAE. E foi engenheiro de pesquisa do ISSRC (International Sustainable Systems Research Center) em diversos projetos na América Latina para estudos de emissões veiculares.