Caminhos Cruzados: Lado a lado - a atuação da mobilidade ativa unida

Caminhos Cruzados é uma experiência de debate virtual com o objetivo de discutir um mesmo tema a partir de visões e abordagens distintas. Além de responderem cada uma das três perguntas elaboradas pelo Como Anda, cada convidado deve comentar a resposta do outro. Trata-se de um esforço para revelar as divergências, singularidades e, também, as semelhanças entre as perspectivas de cada um sobre a mobilidade a pé no Brasil.

Lado a lado: a atuação da mobilidade ativa unida

Com Joanna Almeida, Coordenadora Financeira na MobiRio — Associação Carioca pela Mobilidade Ativa, e Leonardo Aragão, Coordenador Geral na Amazônia pelo Transporte Ativo — APTA.

1. Quais foram as motivações para criar uma organização com foco em mobilidade ativa na sua cidade?

Joanna Almeida: Não havia, no Rio de Janeiro, uma entidade da sociedade civil que ocupasse lugares institucionais pautando a temática da mobilidade por bicicletas, que era o nosso foco inicial. O surgimento da MobiRio é uma construção de pelo menos cinco anos, que passou por diversas fases. Eu acompanhei ao menos dois anos dessa construção. Chegou um momento em que percebemos que não dava mais pra ficar fazendo barulho de forma não organizada. Ou a gente se organizava, sentava na mesa, criava um espaço, ou continuaríamos à margem (ainda estamos, mas um pouco mais organizados). E na hora de criar essa entidade, pensamos: vamos dar um passo além, vamos incluir os pedestres, afinal, a nossa batalha é a mesma. E assim surgiu a MobiRio — Associação Carioca pela Mobilidade Ativa. :)

LA: Oportuno enaltecer que a Apta não só acompanhou parte do processo de criação da MobiRio, como este serviu de exemplo para nossa constituição, principalmente quanto ao processo de organização como sociedade civil, de forma independente em face dos órgãos e instituições. Assim como para a MobiRio, a representatividade dos usuários dos modos de transporte ativos foi marco inicial para a Apta, bem como acreditar que o processo de ativismo e, posteriormente, formalização da associação é de extrema necessidade para legitimar o “sentar à mesa” e discutir o tema.

Leonardo Aragão: Apesar de ser uma metrópole com mais de 2 milhões de habitantes situada em meio a maior diversidade de fauna e flora do planeta, a cidade de Manaus nunca discutiu como deveria o tema da mobilidade ativa como proposta viável e necessária de política pública sustentável, assim como se desenvolve por um processo de urbanização direcionado e levando em conta a priorização do transporte individual motorizado. Nesta perspectiva se iniciou o processo de mobilização quanto a necessidade de valorização dos modos de transporte ativos. Com um embrião de articulação iniciado no início de 2017, a Apta nasceu com uma proposta de organização civil voltado à representação dos pedestres, ciclistas, skatistas, patinadores e demais interessados. Ainda, para atuar estritamente com a mobilidade urbana, em um posicionamento mais crítico e propositivo em face do poder público, iniciativa privada, universidade e demais atores locais.

JA: Diferente, de Manaus, o rio já começou a discussão sobre mobilidade sustentável há algum tempo. Contudo, na prática, as políticas urbanas adotadas ainda privilegiam o uso do transporte motorizado individual. A questão dos pedestres, por exemplo, ainda é muito pouco explorada nas ações municipais. Politicamente estamos num momento bastante ruim, com uma prefeitura fechada ao diálogo, o que dificulta ainda mais nossa atuação.

2. Existem dificuldades em atuar de maneira integrada pelos pedestres e ciclistas? O que as organizações de vocês têm feito para minimizá-las? E quais são as facilidades ou potencialidades dessa sinergia?

Joanna Almeida: Existem peculiaridades em cada movimento e é importante compreendê-las para delimitar até onde pedestres e ciclistas podem brigar juntos e a partir de qual ponto é preciso separar as demandas. Essa falta de compreensão (e maturidade, talvez) pode gerar atritos e dificuldades. A grande facilidade é que as reivindicações são em grande parte as mesmas: redução de velocidades, redesenho viário, iluminação, arborização, entre outras, são medidas que transformam para melhor as cidades atendendo a pedestres e ciclistas.

LA: Também pensamos que as reivindicações são em grande parte similares, entender que a política de visão zero para redução de vítimas no trânsito e medidas de estímulo ao uso de transporte ativo beneficiam integralmente tanto pedestres como ciclistas. Os exemplos apresentados são emblemáticos, da redução de velocidades a arborização. Em mesma via, em casos específicos a separação de demandas de pedestres e ciclistas serve para minorar ao máximo as interferências entre ambos, criando um ambiente de benefícios mútuos.

Leonardo Aragão: Inicialmente, tendo em vista a (ainda) inércia nas políticas públicas voltadas à mobilidade ativa, tivemos que partir da estaca zero com as pautas direcionadas aos pedestres e ciclistas, explicitando a importância da valorização dos modais, bem como resgatando o já existente amparo legislativo local sobre o tema. No ponto de vista mais prático, embora as pautas atuem naturalmente em sinergia para beneficiar tanto pedestres quanto ciclistas, a intenção é de minorar a interferência nas conquistas de um em detrimento de eventuais perdas para o outro. Por exemplo, independente da quase ausência de malha cicloviária segregada em Manaus (menos de 10 quilômetros no total), a mais emblemática ciclovia manauara foi construída na calçada, ou seja, retirou dos pedestres um espaço urbano raro aqui, permanecendo intocável o espaço viário destinado ao automóvel. Deste modo, em todas as ações e projetos sempre direcionamos para que os direitos conquistados de um não sejam afetados por medidas eventualmente benéficas a outro modal ativo.

JA: A colocação de ciclovias em calçadas é um “clássico” das prefeituras que, por um lado, “atendem” aos ciclistas, mas, por outro, não querem retirar espaço dos carros. Não estou dizendo que ciclistas e pedestres não possam harmonicamente conviver em um espaço não segregado, temos um bom (porém curtíssimo) exemplo aqui no Rio, na Avenida Rio Branco. Mas, de modo geral, essas ciclovias ou ciclofaixas roubam um espaço que os pedestres já não têm. É uma medida bastante controversa e que acaba incitando uma certa rivalidade entre pedestres e ciclistas.

3. Quais ações devem ser implementadas para que tenhamos cidades caminháveis e pedaláveis?

Joanna Almeida: Acredito que precisamos de uma mudança radical de paradigma estabelecendo o visão zero como meta. Essa grande ação mudaria por completo o cenário das cidades, colocando pedestres (crianças e idosos sobretudo) e ciclistas como prioridade. Até lá, seguimos no passinho de formiga, transformando aqui e lá, mas sem surtir um efeito potente e maior.

LA: E com essa mesma proposta de mudança do padrão vigente que a Apta atua. Assim como a MobiRio, entendemos que a visão zero é uma meta estabelecida para nortear nossas por uma cidade melhor. E é papel importante da sociedade auxiliar neste processo, mesmo que inicialmente em condições básicas de explicar e elucidar sobre a importância do tema.

Leonardo Aragão: Em curto prazo direcionamos as propostas e ações de segurança viária, principalmente as relacionadas à fiscalização, pelo controle de velocidade e oportunização de zonas seguras para a travessia de pedestres. Ainda, atuar no processo de construção da cidade de uma maneira sistêmica e multisetorial, inserindo o planejamento para uma urbanização pelo adensamento e uso misto e, concomitantemente, ações mais concretas que favoreçam os modos ativos, tais como requalificação de calçadas, malha cicloviária, paraciclos, dentre outros. Entendemos que os benefícios do andar e pedalar para as cidades já são notórios, então optamos por focar nas viabilização das políticas que estimulem estes modais e, principalmente, nas formas de custeio e execução. A ideia é criar uma clima de estímulo aos pedestres e ciclistas que permeie todas ações dos agentes públicos e privados, da arborização mais simples até a construção de grandes complexos viários, que o pedestre e ciclismo sejam lembrados (e valorizados) em todas as etapas e projetos. Outro ponto é demonstrar, por dados e exemplos práticos, que as ações de fomento aos modos de transporte ativos trazem benefícios a todos, não apenas aos pedestres e ciclistas.

JA: A agenda desenvolvida pela Apta coincide bastante com vários dos nossos objetivos. Caminhar e pedalar, em certa medida, já são “pop”, os benefícios já são conhecidos, mas, ainda assim, não conseguimos implementar isso em nossas cidades. Seguimos neste trabalho de base mesmo e nisso a realização de pesquisas, a demonstração através de dados é uma aliada irrefutável. Mas, repito, o momento político, no Rio, ao menos, não é dos mais animadores. Apesar disso, seguimos.

Joanna Almeida é baiana (mas mora no Rio há três anos), advogada, produtora audiovisual e militante da mobilidade ativa por acreditar que nossas cidades podem ser lugares melhores. É fundadora e está coordenadora da MobiRio — Associação Carioca pela Mobilidade ativa.

Leonardo Aragão é amazonense, advogado, mestrando em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia e voluntário na associação Amazônia pelo Transporte Ativo — APTA, onde ocupa o cargo de Coordenador Geral. Acredita que todos têm sua parcela de responsabilidade para o fomento dos modos de transporte ativos, e que as ações de incentivo e valorização dos pedestres e ciclistas são indispensáveis para a construção de uma cidade mais eficiente, saudável, democrática e sustentável.