Caminhos Cruzados: Mobilidade urbana como termômetro das mudanças climáticas

Caminhos Cruzados é uma experiência de debate virtual com o objetivo de discutir um mesmo tema a partir de visões e abordagens distintas. Além de responderem cada uma das três perguntas elaboradas pelo Como Anda, cada convidado deve comentar a resposta do outro. Trata-se de um esforço para revelar as divergências, singularidades e, também, as semelhanças entre as perspectivas de cada um sobre a mobilidade a pé no Brasil.

Mobilidade urbana como termômetro das mudanças climáticas

Com Aline Cavalcante, articuladora da Coalizão Clima e Mobilidade Ativa (CCMob), e Walter De Simoni, coordenador de portfólio de transporte do Instituto Clima e Sociedade.

1. Quais são os principais desafios de se discutir mobilidade ativa no âmbito das mudanças climáticas?

Aline Cavalcante: Acredito que o primeiro grande desafio é incluir a agenda de ‘cidades’ dentro do debate de clima no Brasil, mostrar que as emissões urbanas estão crescendo e que precisamos olhar para as emissões “futuras” e não só para as “passadas” como aquela proveniente do desmatamento. Dentro das emissões urbanas, o transporte é — e será cada dia mais — o principal “vilão”, tanto no transporte de passageiros quanto de cargas e o maior desafio a partir desse cenário é superar o discurso do carro elétrico ou da tecnologização como únicas soluções para o setor. A questão colocada é, então, falar sobre reorganização das cidades e nova forma de planejamento e urbanização dos espaços a fim de incorporar outras formas de enxergar o problema e as soluções. Diante desse olhar, incluir a mobilidade ativa — pedestres, ciclistas — como pilares fundamentais dessa quebra de paradigma. Além de ser “transportes emissão-zero”, a mobilidade ativa agrega ainda uma série de outras várias externalidades positivas tanto no campo individual quanto coletivo e garantir a segurança e conforto desses atores pode ser uma contribuição rápida, eficiente, imediata, barata e fundamental dentro do discurso climático.

WS: Concordo plenamente com a Aline de que a pauta urbana ainda não é vista como prioridade para o Brasil. Além disso, quando se fala de transporte de baixo carbono, dificilmente se pensa no pedestre como parte fundamental dessa solução. Ocupar esse debate e mostrar que o pedestre é parte indispensável do futuro de baixo carbono é fundamental.

Walter De Simoni: Quando se fala de transporte de baixo carbono, o imaginário automaticamente vai para soluções mais tecnológicas, como o carro elétrico. Acontece que o pedestre e o ciclista não só são parte fundamental do futuro da mobilidade de baixo carbono, eles são a base de todo o sistema. O transporte ativo não só é um modal importante por si só, mas ele é o conector que viabiliza todo o sistema de transporte público. Essa visão da mobilidade com um sistema multimodal é fundamental para mostrar a importância do transporte ativo no futuro de baixo carbono. Além disso, quando se fala de um futuro menos desigual, mais acessível, mais humano e com maior qualidade de vida o transporte ativo aparece ainda mais como uma parte desse futuro, ganhando espaço de soluções puramente tecnológicas para o transporte individual motorizado. Agora, do ponto de vista prático, a dificuldade é: não se fala sobre esse tema nas discussões climáticas. Ocupar esses espaços, trazer esses temas para a mesa de discussões de clima, é absolutamente fundamental.

AC: De acordo! Diferentemente das realidades dos países desenvolvidos, nós aqui no “sul global” precisamos incluir em toda e qualquer agenda de desenvolvimento a questão da redução das desigualdades, essa é a base de todas as lutas seja em que campo for. A agenda climática é a melhor oportunidade de revertermos erros históricos no nosso desenvolvimento como sociedade e, dessa vez, é fundamental que não repliquemos os mesmos erros que aprofundaram tanto a exclusão social. Para isso é preciso ocupar a discussão climática e sempre pautar questões sociais das minorias e dos mais vulneráveis, no campo e na cidade, pois sem dúvida são as pessoas que já estão sofrendo com as transformações do clima e vão sentir ainda mais daqui pra frente.

2. O Brasil tem avançado na aproximação das pautas ambientais e da mobilidade urbana sustentável? Quais experiências vocês destacariam?

Aline Cavalcante: Acredito que ainda temos muito o que avançar no sentido de entender, quantificar e qualificar os impactos da mobilidade urbana para o meio ambiente, em especial as externalidades negativas causadas pelos automóveis, pelo rodoviarismo e pelo combustível fóssil para desincentiva-los, inclusive tirando seus subsídios públicos. Para mim as melhores experiências brasileiras de conexão dessas agendas se dá justamente no âmbito da sociedade civil e da mobilidade ativa onde nos últimos anos houve um aumento importante de visibilidade, fortalecimento da pauta e marcos regulatórios (como a Política Nacional de Mobilidade Urbana) relacionados à questão dos pedestres, ciclistas e mudanças do clima. Mas, como disse, ainda falta muito pra tirar todos os planos do papel e transformar de verdade nossa forma de enxergar o papel dos deslocamentos nas políticas ambientais.

WS: De fato ainda estamos longe de, na prática, pautar a formulação de política pública de forma objetiva discutindo benefícios sociais e ambientais das políticas de mobilidade. Querendo ou não, o centro dos investimentos em mobilidade ainda são os veículos motorizados individuais e a combustão de combustíveis fósseis, o que trazem consigo impactos negativos de grande magnitude para o clima, para a saúde e segurança da população e para o desenho de cidades menos acessíveis e mais desiguais.

Walter De Simoni: A mobilidade urbana não é exceção em uma tendência da política pública brasileira: temos belos arcabouços legais e jurídicos, mas somos péssimos em sua execução. Explico: a Política Nacional de Mobilidade Urbana cria uma hierarquia de políticas públicas que é compatível com uma visão progressiva de cidades de baixo carbono: primeiro o pedestre, depois o ciclista, depois o transporte público, seguido do transporte de carga e por fim o transporte individual motorizado. Lindo, não? Mas isso não se traduz na realidade: carros ainda ocupam 85% das vias públicas e emitem mais de 70% das emissões de GEE em grandes cidades. O nosso desafio é menos filosófico e mais de implementação. Como tornar isso realidade? Como traduzir isso em investimentos e em redistribuição de espaços públicos? A meta de redução de emissões brasileiras, a “NDC” segue o mesmo padrão: ela menciona apenas de forma vaga que devemos trazer melhorias para o sistema de transporte público. Um dos nossos trabalhos é trazer o tema do transporte ativo pras metas climáticas brasileira e detalharmos o que isso quer dizer na prática.

AC: Sim, é um jogo de “vai e volta” políticas globais, acordos internacionais impactam governos locais e vice-versa. Agora o desafio é conseguir transformar tudo isso em mudanças reais no território. Acredito que não é mais uma questão técnica ou jurídica, a questão é quase que exclusivamente de ordem política, de como vamos conseguir refletir nossos anseios por cidades de baixo carbono e menos desiguais em nossos representantes de governo. E, mais, como vamos participar dessas escolhas e acompanhar esse desenvolvimento que ultrapassa gestões e mais gestões e terão impacto profundo no longo prazo. Não dá mais tempo para a sociedade deixar de se envolver de verdade com as questões políticas de seu bairro, cidade e país. A participação social é o cerne de qualquer transformação profunda no rumo das políticas públicas.

3. Atualmente, chama a atenção o surgimento do debate sobre veículos elétricos como solução para mitigar emissões. Qual a opinião de vocês sobre os impactos dessa adoção com relação às mudanças climáticas e à mobilidade urbana sustentável?

Aline Cavalcante: A eletrificação do setor de transportes é fundamental para um futuro de baixo carbono, mas entendo que é essencial que essa mudança e seus investimentos comecem pelo transporte coletivo prioritariamente. Não dá pra aceitar que o discurso da indústria automobilística — tentando sobreviver — ganhe novamente o debate no Brasil, se não mudarmos completamente a lógica da mobilidade das nossas cidades — e, consequentemente impulsionar uma mudança cultural profunda — usaremos a tecnologia para reforçar um velho paradigma e todas as suas externalidades negativas relacionadas ao uso do automóvel (uso irracional do espaço público, mortes no trânsito, congestionamentos, sedentarismo etc). Considerar apenas a eletrificação do carro como solução para os problemas de emissões no setor de transportes é uma farsa, uma mentira e esse discurso precisa ser combatido em todas as esferas da sociedade.

WS: Faço das palavras da Aline as minhas. Eletrificar é fundamental, mas comecemos pelo transporte público, que como já mencionei é um modal intimamente ligado ao transporte ativo. Utilizar o paradigma do baixo carbono para reforçar a preponderância do carro nas políticas de mobilidade brasileira é um risco real.

Walter De Simoni: Ao contrário de países como a Inglaterra e a Alemanha, o desafio do sistema de mobilidade não é prioritariamente a sua descarbonização. É a sua descarbonização e a ampliação de um sistema de mobilidade que sirva à população, seja acessível, reduza desigualdades e aproxime as pessoas das oportunidades que as cidades tem para oferecer. Temos um gap gigantesco na infraestrutura e serviços de transporte ativo e de transporte público, portanto o desafio da descarbonização muda de forma. Em um ambiente de recursos escassos para financiamento, entender essa diferença é fundamental, afinal, se temos pouco dinheiro público para investir, é melhor investí-lo na expansão do transporte público e do transporte ativo, beneficiando mais de 70% da população, ou investir na eletrificação de veículos individuais motorizados? A resposta parece fácil, embora não seja o que acontece na realidade. Porém, vamos sim eletrificar, a começar pelo transporte público.

AC: O que precisamos ficar muito atentos nesse processo irreversível da eletrificação é pra onde e pra quem vão os financiamentos e subsídios públicos. Esse é o principal debate pois todas as transformações que precisamos passar para termos cidades de baixo carbono exigem necessariamente um esforço enorme de financiamento, público e privado. É primordial que eles primeiro favoreçam o transporte coletivo e traga benefícios de estrutura também para o transporte ativo. A bicicleta elétrica, por exemplo, tem sido muito discutida em outros países e pode ser uma ótima solução para cidades muito sinuosas e também incluir pessoas da terceira idade.

Aline Cavalcante é jornalista, nordestina e empreendedora social que atua na promoção da bicicleta, em especial por mulheres, desde que se mudou para São Paulo em 2008. Atualmente ela é articuladora da Coalizão Clima e Mobilidade Ativa (CCMob), diretora da Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo) e Conselheira Regional da União dos Ciclistas do Brasil (UCB).

Walter De Simoni é economista e cientista ambiental formado pela Universidade de Tufts, em Boston. É especialista em mudanças climáticas e economia verde, com um foco em políticas públicas. Trabalhou como consultor em estratégia corporativa em mudanças climáticas e sustentabilidade em setores como energia, finanças e alimentos. Foi superintendente de Economia Verde no Estado do Rio de Janeiro onde foi responsável por políticas de clima e desenvolvimento sustentável. Atualmente, ele é coordenador de portfólio de transporte do Instituto Clima e Sociedade.