PARKLETS: a reinvenção da função das calçadas e um oásis para integração

São Paulo foi a quarta cidade do mundo a absorver a iniciativa como política pública; conceito melhora a qualidade da caminhada e a segurança da cidade

Por Diego Bonel

Quem está acostumado a caminhar pelas grandes cidades sabe que as calçadas brasileiras ainda estão muito aquém das necessidades dos pedestres. Além dos buracos, das irregularidades e inúmeros outros obstáculos, o passeio público não oferece muitas opções para quem deseja sentar, descansar, fazer um lanche rápido ou convidar um amigo para um bom papo.

Entrevistado pelo Como Anda, Lincoln Paiva, presidente do Instituto Mobilidade verde, destaca que a falta de mobiliário inibe a caminhada e todos os benefícios que ela traz. “A cidade precisa de locais de descanso, de convívio, áreas mais verdes. Isso aumenta a quantidade de ‘olhos’ na rua, influenciando na segurança, além do componente de melhoria econômica local”.

Só em São Paulo, para exemplificar, cerca de 80% do espaço viário da cidade é destinado à utilização por veículos automotores. Essa lógica de não integrar pessoas ao espaço público vem sendo subvertida em algumas cidades brasileiras desde a popularização dos parklets, um marco na quebra dos paradigmas da mobilidade a pé.

Apesar de algumas iniciativas já na década de 1970, e que se repetiram nos anos 1990, foi em 2005 que o conceito começou a ser disseminado mundialmente após uma ação realizada em São Francisco, nos Estados Unidos.

Ocupando vagas de estacionamento com bancos e jardins, convidativos à maior permanência, até então vistas apenas como locais para deslocamento e passagem, os parklets trazem uma mudança no papel e na vocação das calçadas. “Os parklets se tornaram uma boa oportunidade de trazer uma infraestrutura nova para a cidade e contruibuem para a experiência do pedestre. Ao se trazer bancos e áreas de permanência, [a calçada] deixa de ser um lugar só de passagem para ser também um local de desfrute”, contou Mariane Takahashi Christovam, arquiteta do Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design.

Foto: Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design Crédito: Como Anda

Enquanto isso, no Brasil…

Por aqui, os parklets começaram, mesmo que timidamente, a fazer parte da paisagem urbana de algumas cidades em 2013. Com o esforço de diversos grupos e coletivos, como o pessoal do Instituto Mobilidade Verde e Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design, foi dado o pontapé inicial na capital paulista.

Depois do projeto piloto, além de muita negociação com sociedade civil e poder público, os parklets passaram a integrar as políticas de mobiliário urbano da capital paulista, garantindo sua ampliação para bairros mais afastados, além de autorizar a instalação de equipamentos privados (patrocinados, mas sempre de uso público) e públicos.

“Em 2014, São Paulo foi a quarta cidade do mundo a ter uma política pública sobre parklets, hoje perdemos a conta”, comemora Paiva. Muitas vezes os questionamentos partem da sociedade civil, caso da capital paulista, mas também podem surgir do poder público, como no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife.

Guilherme Ortenblad, idealizador do Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design, relatou para o Como Anda a importância do surgimento dos diversos parklets para a mobilidade a pé com o advento da regulamentação “Com a dispersão [dos parklets], forma-se um sistema, uma rede de espaços públicos que cria paisagens mais interessantes na cidade e estimula as pessoas a caminharem.”

A ressignificação do espaço público, a mudança de olhar da população, e as novas possibilidades que surgem, atraem cada vez mais a atenção do poder público. “Antigamente, uma intervenção urbana era considerada uma desobediência civil, contravenção etc. Uma pessoa poderia ser punida por ocupação ilegal do espaço público. Após os parklets, vieram os food trucks, os pocket parks, as ruas abertas, ocupações de praças”, explica o presidente do Mobilidade Verde.

Hoje, os parklets são uma realidade em diversas cidades do Brasil. O pessoal da Sobreurbana, de Goiânia, acabou de inaugurar um parklet por lá e contou como está sendo essa redescoberta dos espaços públicos. “Os parklets aparecem em um momento de fomento à baixa velocidade. Ele incentiva a utilização da cidade pelo pedestre e pelo ciclista, em uma relação mais próxima entre pessoas e lugares e, por isso, são locais de encontro”, revelou Carol Farias, da Sobreurbana.

Quer saber mais? Confira aqui os relatos do pessoal do Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design e Sobreurbana e saiba mais sobre como os parklets promovem mobilidade a pé.

Mostrar os diversos usos dos espaços públicos é um dos focos da pesquisa Como Anda, que já está recebendo a participação de dezenas de organizações que estão mostrando que é possível transformar uma pequena intervenção em melhorias urbanas.

Conheça o site da pesquisa, preencha o questionário e faça parte da rede que está sendo criada entre os atores da mobilidade a pé no país.