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Webinar [03]: Manifestos para uma cidade pós-coronavírus

Como Anda
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May 5 · 8 min read

Assim como modelos de cidades começaram a ser desenhados como respostas a aspectos naturais, culturais, sociais, políticos e econômicos e outras pandemias que já enfrentamos, o coronavírus vêm alterando o modo como enxergamos as cidades, nossas rotinas, deslocamentos e interações no espaço público. Nesse cenário, é urgente refletir os impactos que a epidemia da Covid-19 pode ter no comportamento dos indiví­duos e no planejamento e gestão das nossas cidades.

Por isso, no dia 30 de abril, a equipe do Como Anda preparou um webinar composto por especialistas em temas variados e pessoas interessadas em somar pontos de vista à essa discussão. A convocatória foi realizada com base na escrita de manifestos: uma ferramenta que desafia nossa realidade e traz valores à reflexão coletiva para uma cidade pós-coronavírus. Assim, durante o terceiro papo da série, ouvimos e discutimos questões apresentadas por 7 manifestos que abrangeram uma grande diversidade de enfoques, tal como são os centros urbanos, para discutir um novo modelo de cidade possível e necessária. Durante a conversa, participantes foram convidados a registrar reflexões em um documento compartilhado, contribuindo na produção de um manifesto coletivo.

Os resumos dos manifestos, de autoria dos proponentes e participantes, são apresentados abaixo.

O PRIMEIRO ANO DO RESTO DAS NOSSAS VIDAS (Mario Alves — International Federation of Pedestrians)

Fazer grandes previsões ainda sem saber ao certo a intensidade ou existência de novas ondas da pandemia é difícil. No momento atual as cidades ainda estão improvisando. Sabemos que precisamos de mais espaço para caminhar em segurança sanitária, e finalmente percebemos que os pedestres e ciclistas estavam, e estão, a lutar pelas migalhas do espaço público, até agora maioritariamente entregue aos automóveis a velocidades excessivas. Precisamos repensar em conquistar espaço, teremos que aumentar a capitação de espaços verdes e naturalizados nos nossos bairros, criar corredores prioritários ao transporte público, alargar passeios, e criar ruas mais lentas que permitam o uso de modos ativos em segurança e conforto. Estes tipos de medidas deverão ser implementadas já, aproveitando o fato de existir muito menos automóveis em circulação. E sempre que possível tornar essas medidas permanentes. É esta a oportunidade de testar uma nova visão de cidade, mas infelizmente — ou felizmente — teremos que viver entre dois paradigmas justapostos numa mesma cidade e comunidade. Haverá muitas tensões contraditórias, algumas até saudáveis. E como sempre será a ficção, a filosofia e a arte que nos ajudarão a procurar um caminho possível imaginando o desejado. Mas a política será sempre a chave para caminhar em direção ao futuro que desejamos.

A SOCIEDADE PÓS-PANDEMIA E A (RE)OCUPAÇÃO DA CIDADE (Bibiana Tini — Metrópole 1:1)

No contexto atual, a humanidade tem mais perguntas que respostas, e não somos diferentes. Nossa certeza é que estamos todos integrados, assim como nossas ações e consequências, mais do que imaginávamos. Nosso foco é divulgar informações e reflexões sobre o cenário para contribuir no alinhamento da discussão das mudanças que virão e, quando o momento for propício, AGIR. Não será a última crise que enfrentaremos, e os investimentos, provavelmente, não estarão direcionados às infraestruturas de espaços públicos, e sim para o setor da saúde e setor produtivo, como se tudo não estivesse INTEGRADO, como se os espaços urbanos não influenciassem a saúde física e mental da população, ou a economia. A sociedade pós-pandemia estará vulnerável e a cidade deve estar pronta para recebê-la. Nada mais democrático do que uma cidade que permita que seus habitantes tenham acesso igualitário ao deslocamento, ao exercício físico, ao lazer de forma gratuita e facilitada.

A PRÁTICA DA MOBILIDADE SUSTENTÁVEL E A REALIDADE PÓS PANDEMIA: CIDADES COMPACTAS E MOBILIDADE SUSTENTÁVEL AINDA SERÃO UMA SOLUÇÃO (Meli Malatesta — Meli Malatesta, Pé de Igualdade e doutora em Mobilidade Ativa pela FAUUSP)

A teoria urbanística da atualidade direcionada para a busca de práticas sustentáveis valorizam a cidade compacta que funciona com economia de recursos e investimentos em todos os seus aspectos. Entre eles se inclui o foco do grupo, a mobilidade sustentável.

Na realidade urbana pós pandemia caberá ainda a busca da cidade compacta onde se trabalha com conceitos de economia de espaços que abrigam ações que envolvem maior densidade de pessoas por metro quadrado, seja para morar, estudar, trabalhar, consumir e se entreter?

As formas de mobilidade sustentável representadas pelo transporte público coletivo e a mobilidade ativa continuarão sendo os mais adequados para atender às demandas de deslocamento de toda a população, considerando as necessidades do público que deverá ser priorizado na realidade pós pandêmica?

São pontos que merecem reflexão.

REPRODUÇÃO SOCIAL E MOBILIDADE A PÉ DAS MULHERES (Marina Pereira — Mestranda FAUUSP)

Para garantir a reprodução social muitas mulheres se deslocam a pé pelas cidades, e essa é uma questão que pode ser vista tanto pela quantidade quanto pelos motivos de viagem que produzem. Em meio ao Covid-19 e o isolamento social, ficou ainda mais evidente o peso do trabalho reprodutivo desempenhado, em grande parte, pelas mulheres. Por conta disso, pretendo abordar a necessidade de se discutir a desigual divisão das funções e tarefas sociais entre homens e mulheres, apontar os impactos na vida delas, e a importância deste tema para se pensar futuros possíveis para as cidades.

CASA É CIDADE (Guilherme Ortenblad — Fundador do Zoom Urbanismo, Arquitetura e Design)

Diante do momento presente em que estamos recolhidos em nossas casas, nossos espaços privados, em prol de um bem comum, refletimos sobre a expressão “cidade é casa/casa é cidade”. Essa expressão foi utilizada por diversos arquitetos e pensadores, rendendo diversas reflexões sobre a arquitetura — a construção, a habitação e a cidade.

Nossas casas literalmente viraram nossas cidades, nossos espaços de trabalho, de convivência e lazer. De uma hora pra outra emprestamos parte do nosso espaço privado e íntimo para as empresas que trabalhamos por meio do home office (para quem é possível). Também transformamos nossas salas de estar em salas de aula para nossos filhos. Nossas varandas viraram palcos para shows improvisados. Nossas cozinhas tornaram-se conhecidas e forneceram petiscos e drinks para as happy hours virtuais. Abrimos nossas casas para janelas virtuais, como portais que nos conectam e expõem nosso espaço privado ao mundo. E o objetivo desse isolamento é por um bem coletivo, de contenção de uma pandemia e de controle da saturação do sistema de saúde.

Então refletimos: Qual é o limite entre o público e o privado? Qual papel da casa na cidade? Qual é a função social da casa? Como as tecnologias interagem com a casa?

BRINCAR NA RUA DE FORMA HÍBRIDA (Vanessa Espínola — Designer de eventos e facilitadora de sessões de co-criação com crianças)

Só num mundo distópico poderíamos imaginar que nossas crianças não teriam permissão para brincar na rua com seus amigos. Antes da pandemia, estávamos vivendo tempos de luta para que as crianças passassem mais tempo ao ar livre, ocupando os espaços públicos. Como voltar a brincar no espaço público? Nossas crianças, por um certo período, poderão viver o espaço público de forma híbrida, parte em casa e parte na rua.

MANIFESTO PELA VALORIZAÇÃO DO PENSAMENTO PEDESTRE (Wanessa Spiess — Idealizadora do Calcadasp e colaboradora da Cidadeapé)

A luz do conceito de cidade para pessoas (GEHL, 2000), o caminhar e a escala humana ganham importância para a análise do uso do espaço urbano e influenciam a maneira como acontecem as decisões sobre políticas públicas.

Entender como o cotidiano das pessoas é afetado e afeta os processos de ordenação das calçadas pode representar um ponto de inflexão. Ao focar no pedestre e no espaço pedonal, somos levados a entender não a monumentalização da paisagem, mas sim como o pedestre usa a cidade e seus conflitos cotidianos. Trata-se da aproximação da parte com o todo, a definição de traços que permitam formular melhor a teoria do que deva ser uma cidade.” (YAZIGI, 2000).

A proposta é repensar a valorização do que chamo de “pensamento pedestre”. Nestes tempos onde sair para caminhar pelas ruas tornou-se objeto de desejo, o tema é ainda mais oportuno para discutir a cidade pós-pandemia.

Reflexões coletivas…

Na sequência das apresentações, os convidados se debruçaram sobre as perguntas levantadas pelo público e a reflexão coletiva avançou sobre dois grandes questionamentos: como podemos enfrentar um novo desejo de cidades espraiadas, que incentivem o isolamento físico dos usos da cidade e uso do automóvel e desincentivem o espaços coletivos; e quais ações podem ser implementadas de imediato, tendo em vista a desarticulação das ações dos governos e a limitada atuação em prol da redução das desigualdades.

Nos dois principais questionamentos, os convidados apontam alternativas para a construção de uma cidade mais inclusiva, resiliente e sustentável. De antemão, é necessário ter consciência de outras forças que atuarão nos novos modelos de cidades. Vivenciamos reflexos de uma pandemia em curso, mas também sentiremos outros reflexos econômicos e sociais como por exemplo, a redução do preço do petróleo e a crise financeira que já se apresenta e deverá afetar o poder de compra e a escolha do transporte. É possível que os reflexos do cenário atual apontem, dentro de alguns grupos sociais, o desejo de estabelecer moradia em locais que tenham atividades e infraestruturas próximas. O sonho da casa com jardim incitou, há algumas décadas, modelos de condomínios fechados horizontais e distantes do núcleo principal da cidade, e que se tornariam um “pesadelo” pelas necessidades de deslocamento diário que geram. A necessidade de isolamento social que vivenciamos pode trazer direcionamentos sobre novas revisões sobre os espaços da casa e os espaços públicos. É possível que tenhamos que repensar a distribuição de áreas públicas, sempre priorizando pessoas a pé e divisão igualitária de serviços e espaços.

De qualquer forma, é necessário reforçar que o uso dos carros traz grandes impactos ambientais e, se medidas não forem tomadas agora para desincentivar o seu uso, vão continuar ocupando o espaço urbano que, após o surto da pandemia, será demandado por outras questões colocadas. Reafirmar o espaço para pessoas é rever a prioridades, com novas e adequadas distribuições para pessoas poderem andar, brincar — sempre com segurança, conforto e acessibilidade. Além disso, o contexto atual pode ter aberto oportunidades para ampliar mais as discussões sobre cidades sustentáveis, para valorização e urgência do Estado como agente que lidera essa transformação, e do fortalecimento da sociedade civil organizada como incentivadora do debate por melhorias nas nossas cidades.

Agradecemos mais uma vezes a todas as pessoas convidadas e ao público que esteve online neste webinar. Se você se interessou no assunto e quer assistir o webinar completo com todas as apresentações, registramos e disponibilizamos esse encontro no nosso canal do Youtube:

Também se animou e que somar com a gente? Tem interesse em participar dos próximos encontros virtuais sobre o tema? Ainda teremos outras discussões interessantes pela mobilidade a pé. Preencha o formulário disponível neste link e faça parte de um grupo de diferentes perfis e este interesse comum. Fique de olho e acompanhe mais sobre táticas, ferramentas e outros estudos de caso nas nossas redes sociais (Instagram e Facebook).


Como Anda é o ponto de encontro de organizações que promovem a mobilidade a pé no Brasil, um projeto em desenvolvimento desde janeiro 2016 pelas organizações Cidade Ativa e Corrida Amiga através do suporte financeiro do iCS. Na terceira fase (2019–2020), o projeto está investigando experiências de incidência política na mobilidade a pé.

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Quem promove mobilidade a pé?

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