aqui

não estou mais aqui. ainda não estou lá. não consigo me organizar para as menores coisas. nem mesmo para planejar joanesburgo. não consigo. não consigo saber o que farei hoje de tarde. querer estar em lugar algum. a cabeça voltou já. a cabeça está indo para o rio. está pensando no milésimo funcionário da alfândega. no quinquagésimo cara a pegar meu passaporte e em será que ele vai encrencar com o carimbo. que não tenho mais dinheiro e saco para a nigéria. que pior que vou querer voltar. que as pessoas aqui realmente tem outro funcionamento. mas que eu sou um intermediário entre eles e os europeus. que os alemães são malucos. que eu agora durmo no meio da cama. que tenho saudades de casa. que chego domingo que vem no rio. que faltam 9 dias. a cabeça não está mais aqui. muito difícil ainda estar em corpo. eu sempre soube que eu era fixa. apegada. imutável. eu nunca tinha entendido o tanto que isso era real. eu não sei sair do lugar. eu não quero sair do lugar. no entanto eu saio. eu me mexo. eu me desloco. sempre e ainda sempre. porque não gosto também de estar parada. eu me coloco em desconforto. eu me tiro do lugar. eu busco o outro espaço. e eu descubro o espaço em mim. porque fora de mim não vejo nunca nada. eu estou tentando sair desse eixo e de alguma forma eu só reforço ele. o meu eixo só se coloca nos meus pés, o meu eixo só se dobra e se verga, mas volta. eu ainda não aprendi o deslocamento. eu ainda não consegui fechar os olhos. talvez minha cabeça nunca tenha vindo e eu tenha deixado meu corpo vagando aqui com olhos fixos, tomando banhos frios e tentando saber. o que, não sei. o corpo precisava estar. precisava mudar. o corpo precisava experimentar o que desconhecia. a pobreza é parecida em qualquer lugar do mundo? a gente sofre o que não entende em qualquer lugar do mundo?
eu não posso parar, e no entanto eu preciso. eu não consigo fechar a mala. sigo deixando coisas pelo caminho. bolsas. eu não consigo pegar, separar as roupas e fechar. fico me dizendo que falta só a necessaire. eu não consigo ir e não estou mais aqui. não sei mais de nada. me desloquei e não cheguei. algum dia a gente chega?
