Arestas

Veja bem. (começo com um veja bem e com parênteses. lidem com isso). Nasci com arestas. Briguenta, difícil, fechada. Eu era uma criança fofa e bem educada, não é disso que estou falando. Mas minha fala sempre foi dura, incisiva, direta. Ela tem arestas. Ela começa com parênteses. Mas tudo bem. Dizem que ao vivo eu compenso com a suavidade da entonação.

Sem o corpo, as arestas reaparecem. Demorei, e ainda estou aprendendo, a limar as arestas sem o corpo. A gente acha que o corpo complica tudo (ok, eu acho que o corpo complica tudo, as outras pessoas, não necessariamente), mas o corpo vez em quando resolve e suaviza.

A fala sem corpo da internet, que não é um texto teórico e separado do sujeito, deixa a gente num inter caminho, num entrelugar de fala muito estranho, que eu ainda tento domar, apesar de morar aqui. Pelos excessos, peço desculpas, pelas arestas, tento parti-las.

E um dia fico na internet redonda e macia e suave. Como consigo e posso ser. E a fala pode ser delicada e gentil. E podemos nos entender.