bicentenário

daí que eu fui conhecer a argentina. eu precisava ir, me diziam. eles têm memória, me diziam. e eu fui. daí eu vi o museu do bicentenário. eles têm memória. eu tirei a foto da inauguração. eles têm memória. eu curto essa foto. porque tem os presidentes todos e é sintomática. da esquerda latina. vemos um guerrilheiro. um operário. um índio. a argentina, meus amigos. têm memória. mas não do branqueamento.

não me levem a mal, eu adorei o país. que gente bonita e educada. como me impressionaram as placas para os estudantes desaparecidos em cada escola. como me emocionou o museu do bicentenário. como fiquei impressionada com a manifestação dos sindicatos dia 29, em preparação para a do dia 1º de maio. é uma esquerda combativa, sem a menor sombra de dúvida.

mas é um país que esqueceu completamente que foi branqueado. que esconde seus pibes. o maradona é bacana, apesar de todos os seus erros — e de ser um babaca, demos nome aos bois — porque faz questão de ser o pibe. porque faz questão de lembrar a todos que ele venceu na vida apesar de ser um índio. enfim. a cidade é branca. aflitivamente branca. eu sou bem tratada. falam comigo em inglês. e morrem desapontados ao ver que sou brasileira.

eu amei a cidade, repito. amei as comidas. amei a arquitetura. os museus. meudeus, que museus — vazios, no entanto, o que me entristeceu — que artistas. posso estar perdidamente apaixonada pelo jorge macchi. adorei a ironia presente na arte conceitual deles. que briga com o nosso escracho. a menujín é fantástica, se completamente louca. quero voltar. quero conhecer mais. mas eu digo isso de toda cidade, não me levem a mal. cidades me encantam.

eu gosto de perceber onde que viro a esquina e tudo muda. onde eu posso confiar que a empanada vai estar fresca. onde eu posso acreditar que comerei bem e onde posso comprar um vinho de madrugada. gosto de saber onde tomo café e gostaria de saber por que diabos vendem o pó de café torrado já com açúcar. considero enorme aleivosia. curti a carne, claro, e amei a feira dos livros. a cultura bibliofilia deles é linda.

moraria lá. com os livros, os psicanalistas, a luta de esquerda, os cafés, os museus. não moraria lá pelo resto. o branqueamento me incomodou. como me incomoda aqui. me incomodou o museu chique no meio da boca. achei acinte tanto luxo ali. não sei. me incomodou o vazio do museu ali. estávamos sós. tergiverso. é só um post de viagem. conheçam e vamos falar. a cidade vale o passeio. sempre vale o passeio.

era um post sobre a américa latina. as veias abertas. nunca fecham. é questão de saber de que veia estamos falando.