cicatriz

sempre fiz quelóides. sabe uma cicatriz saltada que a gente vê vez em quando nas pessoas? isso, eu faço. dizem que é mais comum em pele negra. bom, não é o meu caso, eu até preferiria ser menos branca, mas não foi nessa vida. nasci branca como o papel. me esforço profundamente para não parecer doente. olha as ironias. não queria essa pele, mas a gente não muda algumas coisas. as quelóides, parece, vêm junto com isso. minha raiva da pele é tanta que ela se revolta contra si.

daí. é um corte no papel. uma espinha no lugar errado. que surge a tal da quelóide. é como se fosse o seu corpo querendo continuar o processo de cicatrização. é assim. eu me corto e paro de sangrar muito rapidamente. daí no dia seguinte cicatrizou. na semana seguinte tem quelóide. e quelóide não é inerte. ela coça. ela arde. a sensação é que ela continua crescendo sempre.

eu chorava de horror das minhas. marcas que eu não queria ter. achava que todo mundo só via elas. porque eu só via elas. fiz tratamento. corticóide injetado — que deve ser tortura em algum lugar, a sensação de queimação da pele no local dura cerca de 48h após a injeção, que já é dolorida. silicone em barra ou em gel com pressão — não dói, porém só funciona como paliativo para o incômodo da quelóide ou com cicatrizes novas, nessa semana em que a quelóide começa a querer subir. e precisam ser utilizados por mais de um mês, sob pena da quelóide voltar depois. pomadas diversas — reduzem a coceira e ardência/vermelhidão, mas não reduzem a quelóide. e finalmente, quando eu não aguentava mais, com uma quelóide que resistiu a todo tratamaneto, crioterapia, crio alguma coisa. eu queimei minha pele com nitrogênio. dói. mais do que vocês tão pensando. a médica me deu uma bola pra apertar. para eu aguentar a dor. eu machuquei minha mão com as unhas de tanto que apertei. dói. não funcionou da primeira vez. tive de voltar. porque é preciso que faça uma bolha. uma enorme bolha de queimadura com o frio. você corta a bolha depois. e espera cicatrizar de novo. usando o silicone para ela não voltar. e a quelóide, vejam só. voltou. coça e arde como sempre. a opção agora seria operar e fazer radioterapia.

a cicatriz me venceu. eu resolvi que temos cicatrizes de diversas formas na vida. e ter medo delas dá mais força a elas. e eu cansei de dar força pras minhas cicatrizes. as que aparecem e as que se escondem. depois que eu decidi isso. depois dessa dor infernal pela qual eu tentei passar — e que, vejam bem, tem paralelo com o resto da minha vida na época. as quelóides têm se comportado melhor. algumas até parece que nunca existiram. quer dizer, eu sei que elas tão ali. mais ninguém vê ou percebe. menos essa que eu tanto quis tirar. ela fica ali me lembrando. que eu passei por dor na vida. que eu sobrevivi. que eu mudei e tô aqui. convivendo com as cicatrizes. e sobrevivendo bastante bem.

ps: eu nunca fazia tatuagem com medo das quelóides. tenho duas. ok, são só em preto. mas nada de quelóide por enquanto