cozinha

sinto falta de cozinhar. evitei os afazeres femininos por muito tempo.
quis ser menino. quis ser independente.
quis não mexer em casa. abandonei minha casa.

cheguei aqui. e a casa me faz falta. a casa me berra pela distância. e eu não me adapto. eu, que me adapto a tudo.
eu não consigo não poder cozinhar. não poder arrumar outro lençol. não poder.

a casa é parte do corpo da gente. o meu corpo anda alijado de parte dele.

de colocar a mão na farinha. de experimentar o tempero. de comer o meu tempero. de refogar alho. de lavar louça até.

não, eu não sinto mais medo dos afazeres femininos. de cuidar da casa. de cozinhar. eu sinto falta deles. eu não acho que ser menina é um problema mais. eu não acho que ser menina precisa ser menor mais. eu aprendi que a luta pode ser amorosa e pode cuidar. de si e dos outros.

a delicadeza me faz falta. aqui os sabores, o tempo, as pessoas, são brutos, explícitos, declarados. as mulheres tem seu lugar. os homens o seu. a chuva. os santos. quero as coisas escondidas. as sutilezas. os meio termos. quero não saber. colocar no forno e esperar.

a descoberta para mim de que o que eu quero é não saber é impressionante.

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