desalento

“eu faço versos como quem chora, de desalento, de desencanto”

foi o primeiro poema que eu lembro de recitar inteiro na vida. nasci dramática. nasci dizendo que nada vale se agora não tenho motivo de pranto. sigo dizendo.

o mundo lá fora? ele é desesperador e desconhecido. um desalento só. ele me apavora. sempre me apavorou. não sei namorar, não sei conversar, me sinto sempre, sempre, deslocada. o mundo lá fora não é pra mim.

o mundo pra mim é esse daqui. entre as curvas das palavras e o branco do papel ou da tela. o mundo que eu posso falar e que não me ouve. eu não quero ser ouvida. eu não quero ser entendida. eu só quero falar. o mundo aqui dentro é confuso. é torvelinho. é colagem. não acho a base.

eu não posso nunca fechar o livro. eu tenho sempre motivos demais de pranto. eu admiro o sofrimento de bandeira, como o de clarice. eu busco o sofrimento em mim, que aparece sempre. o sofrimento não é algo que a gente escolha. a gente nasce com esse pedaço que não encaixa.

e a gente encara o mundo lá fora de frente. porque não tem outro caminho pra vida. o mundo lá fora é o único que existe. amedrontador. barulhento. desagradável. cheio de regras estúpidas e conclusões estúpidas. o mundo lá fora quer nos deixar ser um deles.

eu sigo tentando me encaixar como uma peça de quebra cabeças que não é dali, e tentando me entorto. e me entortando choro. e o choro sai como se eu não tivesse outra saída que não chorar. outro caminho que não soluçar e pedir desculpas.

o corpo no mundo é deslocado, sem acolhida. o corpo no mundo é doloroso. o mundo é doloroso. com o pulmão inteiro ou com um quarto dele. a gente sabe. a gente anda. a gente melhora a dor. com amigos. chocolates. escrevendo. compulsivamente.