limpeza

eu não nasci limpa, que como diria meu avô, nasci por cruza. não nasci limpa, que vim com o coração defeituoso. acelerado, batendo em descompasso. não vivi limpa que vivi perdida e um pouco confusa. a confusão como estado de mente.

não me pretendo limpa em momento nenhum do meu viver no mundo. sou cheia de rasuras e incoerências. e defendo o direito dos outros de terem suas rasuras e incoerências. todos somos falhos e inoperantes por vezes.

eu faço minhas pequenas confusões do dia a dia. eu escondo que falhei num dever. eu tenho dificuldade em completar tarefas. eu já fui traída e não achei o fim do mundo. eu já achei que tinha traído e hoje em dia não sei mais.

o meu mundo não é feito de certo e errado e de culpa e desculpa. ele é feito de gente. e gente é maravilhoso, mas é falho. e vai ser sempre. e gente tem de se unir para poder ser mais livre.

o caminho da desunião dos diferentes leva pra união dos limpos e impolutos. que nasceram sem defeitos. que foram concebidos sem pecado original e se acreditam acima dos pecados. porque pagam seus impostos.

é, esse é um texto político. pra gente que nasceu com um defeitinho. que sabe o que é uma diferençazinha e o peso que isso tem la fora, no tal do mundo. que sabe que nunca vamos ser considerados limpos. nós somos os sujos, os errados, os incorretos. os fora da norma. nós precisamos aceitar o fora da norma uns dos outros. e sujar o mundo para podermos existir.

nós temos de aprender que. somos todos sujos, se de formas diferentes. e que sujos, juntos, podemos ser mais fortes. e o mundo ainda é disputa de força. e a única que podemos ter é ser juntos.

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