pedaços

eu tenho pedaços de mim aqui. espalhados pelas ilhas. eu tenho pedaços de mim pelo mundo. e daí eu fiz a interrogação nas costas. tem gente que detesta essa minha tatuagem, eu sei. já fui parada na rua por senhorinhas incomodadas. mas eu não gosto de contar a razão dela ser assim. e sou apegada a ela.

o que aconteceu foi que, recém separada e com muito tempo livre, fui ao parque lage e comecei um curso de formação daqueles gratuitos deles. aprendi gravuras. e ao fim, suzana queiroga quis que fizéssemos uma exposição. eu sempre acho que meu trabalho não é bom o suficiente. talvez seja algo que a nigéria está me dando. confiança no que faço. enfim.

o meu trabalho, no caso, eram fotos. e recortes, colagens, gravuras, textos. e eu tinha pego mil fotos de viagem minhas. não queria que fossem fotos boas. o projeto do começo era um projeto meu da faculdade de design ainda. com literatura e rio de janeiro. eu devia publicar esse trabalho. tergiverso.

me vi ali com as fotos todas dos lugares que já visitei, onde já passei mais ou menos tempo. e em vez de respostas pra o que seria meu trabalho, eu tinha cada vez mais perguntas. em vez de saber os textos e ícones dos locais, eu tinha mais perguntas. eu sabia que em oxford eu queria alice. que pra paris eu queria a vie en rose. que madri tinha sua literatura. eu sou apaixonada por representação de cidades em literatura. é parte da minha paixão pelas aulas do renato. não gosto de estudar isso, que como a internet, quero pro meu lazer. e eu olhava aquilo e só me vinha essa pergunta. o que eu faço com isso? porque isso com cidades? porque essas imagens? e o ícone que me ocorreu foi a interrogação.

que eu, sempre gostando de definições, sempre me defini como carioca antes de tudo. a que vai na praia, que curte o samba, que usa o short e não sabe que horas volta quando sai de casa na sexta antes do carnaval. e quando me olhei ali. me vi como alguém que foge e se adapta. e cria novos mundos. a interrogação, sou eu. a pergunta. a dúvida. a falta de conhecimento. a interrogação é minha única forma de lidar com o mundo.

aqui na nigéria, em lagos ou ilé-ifé. a interrogação nunca fez tanto sentido. e eu tô aqui tentando pensar o que farei da vida nos próximos meses. e só aparecem interrogações. sem respostas. e por um lado me angustia. por outro, me sinto voltando ao lugar de onde não deveria ter saído.

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