são paulo, amor e ódio

eu já escrevi outros textos para são paulo. nunca fui uma carioca que odeia a estranha cidade. não sei se entendo são paulo, mas lembro da primeira vez que fui lá. ainda criança. ver a bienal. eu lembro de ver matérias de jornal sobre o grupo de teatro ornitorrinco e ver uma foto de um homem de saia e meia arrastão. uma montagem de ubu, que era e ainda é uma das minhas peças prediletas. amo a patafísica. amo jarry. adulta, fui entender melhor o que era. a patafísica. as restrições. jarry. na época, só achava interessante essa quebra. eu que tentava tanto me adaptar. enfim.

minha tia estava trabalhando na bienal, na parte educativa. e fomos todos os primos. acho que cada família nuclear ficou num canto? não lembro. meu tio mais novo foi conosco dessa vez? ou foi em outra? caíque estava morando lá com hugo dessa vez? ou foi depois, que pegamos a gata e voltamos de carro por santos? não sei. são paulo ficou no meu afeto. como esse lugar onde pessoas queridas estavam sempre.

mas teve essa da tia trabalhando. os primos todos. onde levar as crianças todas pra jantar? fomos no américa, porque nós queríamos, claro, os milk shakes. como os do chaika. enormes, cheios de chantilly, como uma criança merece. era num shopping. na saída, a benetton do shopping tinha uma promoção. uma pessoa com olhos de duas cores ganharia uma frasqueira daquelas deles. minha tia tem olhos de duas cores. mas a loja tava fechada. eu sempre quis uma frasqueira daquelas. acho a coisa mais linda. ainda quero.

eu não sei contar uma viagem específica a são paulo. porque foram muitas, ao longo de toda a vida. depois que meu irmão se mudou pra lá, cada vez mais frequentes. virou meu porto seguro. mas talvez esse seja o irmão. o espaço em que posso. só isso, do lado dele, eu posso ser o meu pior, porque ele sabe que não é todo dia. e eu meio que espero que ele saiba que do meu lado ele também pode. que eu vou chiar, como ele chia. mas que ele pode.

eu fui a sp buscar o colo dele quando me separei. foi das viagens mais alucinadas que já fiz e lembro de nos perdermos em vila madalena buscando um restaurante argentino e de morrer de fome e pensar porque diabos eu tinha ido ali com ele antes do café. e de voltar e ir encontrar maurício e depois não entender o que ele tava fazendo. e de outras vezes ver ele tão bem e tão feliz que são paulo se tornou outra casa. um lugar de pessoas felizes é um lugar em que se quer voltar. e onde sempre se arranja uma desculpa para se receber carinho. as pessoas costumam ser o melhor dos lugares, sempre. em são paulo, com certeza.

a parte do ódio? a parte do ódio é porque a cidade é grande demais, feia demais, suja demais. eu com certeza já passei perrengues demais em são paulo por estar perdida, por não ter o papel certo, a vida certa, a roupa certa. são paulo pode te mastigar se você deixar. não deixe. lembre dos amigos, das pessoas e que são paulo pode permitir encontros. lembre dos encontros. das vidas que cabem nessa imensidão cinza. das possibilidades abertas daí.

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