sobre buracos

a gente aprende. depois que o primeiro buraco abre. que ele nunca mais fecha. que o processo, a ferida, fica ali. em repouso. esperando uma lembrança simples. uma ligação estranha. uma notícia ruim não relacionada. uma data que nos lembre. o buraco ele aumenta e diminui. mas ele não some. ele engole a gente uns dias. a gente esquece dele nos outros.

eu nunca mais consegui gostar de páscoa. eu olho pros ovos e lembro do buraco. do barulho. minha mãe conta e reconta essa história. esse ano eu ganhei ovo de páscoa. e não chorei. eu ri e senti um pedaço do buraco tampando. foi importante. o buraco a gente consegue tampar uns pedaços. cobrir com cimento. mas é um cimento ruim, que descola fácil.

hoje por um momento. caiu o cimento todo ao ver os nomes dos buracos todos ali. com as datas do lado. tão bem cuidado tudo. naquela situação em que eu era a que não tinha buraco. tinha ido apenas para estar do lado. ali. eu tive de parar e tentar esconder o buraco. atrás daquele jasmim, acho. ele ainda tá me incomodando aqui. mas peguei um chocolate quente. tô vendo um programa ruim de culinária. e vou dormir cedo. e já sai o buraco, ele já para de me incomodar.

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