O que há por trás do ódio nas redes?

Há algum tempo eu li um texto muito interessante chamado “Why Twitter’s Dying (And What You Can Learn From It) — Por que o Twiter está morrendo? (e o que podemos aprender disso).O texto, escrito por Umair Haque, defende a teoria de que a rede social está morrendo, não pela competitividade no setor, mas por uma espécie de vírus interno: o abuso e a agressividade dos usuários. A cada post publicado, uma enxurrada de comentários críticos são expostos publicamente de forma violenta, podendo inclusive incluir ameaças. “Quando uma tecnologia é usada para encolher possibilidades das pessoas, mais do que para expandí-las , ela deixa de criar valor” Umair Haque

A máxima compartilhada pelo autor, na época direcionada ao Twitter, pode ser aplicada também às demais redes sociais. As pessoas estão tão incomodadas com a violência e intolerância nas redes, que acabam deixando de compartilhar novas ideias, contribuindo para que essas ferramentas de autopoder de comunicação e impacto, acabem perdendo o seu valor, pouco a pouco.

Frente ao anonimato digital, as pessoas sentem-se mais seguras em expressarem suas críticas negativas e disseminar o ódio. Mas afinal, quem são os críticos abusivos que estão por trás das telas? Estaremos todos nós ajudando a disseminar a intolerância e o ódio nas redes? Que tipo de crenças permitem que sejamos uma sociedade tão crítica e intolerante?

Em busca da resposta, lhes convido a um passeio rumo ao auto-análise. Será que estamos sendo levados pelo nosso próprio ego a agir contra os demais?

O orgulho

Considerado o pecado capital primeiro, aquele que origina os demais, o orgulho alimento o “eu” em detrimento aos “demais”.

“Eu sou o Centro do mundo — tudo que é mais ou menos que eu, é fora da norma: eu sou a norma.”

A partir desse pensamento, é normal que eu critique aqueles que não sigam a norma — no caso, eu mesmo.

Nós paramos para refletir o quão real pode ser essa crença de nosso ego de que somos o centro do mundo? Quais razões nos fazem ser e/ou saber mais do que os demais, a ponto de estarmos acima de todos?

Através de trabalho, experiência e estudos, podemos saber mais do que outras pessoas em determinados assuntos. Isso nos dá a competência de falar sobre alguns temas e executar atividades com mais propriedade. Dividir opinião e conhecimento é saudável. Julgar, diminuir, xingar, criticar, disseminar o ódio, não.

O orgulho nasce naturalmente da nossa condição enquanto indivíduos. Não é um problema sentir. O problema é o que fazemos com este sentimento. Eles não devem ser negados, mas sim, acolhidos e trabalhados.

Competitividade

Com o intuito de alimentar o orgulho e as aparências, é comum transformamos nossa vida social em uma competição.

Passamos a acreditar que só seremos felizes e realizados se formos “melhores” do que os demais. O melhor aluno, o melhor filho, o melhor profissional. O mais bonito, o mais legal, o mais popular.

O problema de um ambiente onde a competitividade orgulhosa impera, é que para um seja o “mais”, os demais devem ser o “menos”. Diminuir o outro é apontar o dedo, julgar e criticar.

Quantas vezes na nossa vida, ao não sermos reconhecidos como “o mais” em alguma área, nós desejamos que o próximo seja “o menos”, só para ganharmos a competição?

A inveja

Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela !
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- Pudesse eu copiar o transparente lume, 
que, da grega coluna á gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela !
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- Misera ! tivesse eu aquela enorme, aquela 
claridade imortal, que toda a luz resume !
Mas o sol, inclinando a rutila capela:

- Pesa-me esta brilhante aureola de nume… 
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?

Machado de Assis

Quando invejamos, nos comparamos aos demais. Sofremos ao ver nestes, a alegria que gostariamos de ver em nós mesmos.

Ao nos depararmos com essa situação, é comum demerecer aquilo/aquele que invejamos, de maneira que este “torne-se” menos e eu me torne “mais”.

A raiz da inveja está dentro de cada um e nasce a partir da comparação com o próximo. Eu versus o meu próximo. O que ele é versus o que eu não sou.

Não seria a inveja uma ilusão?

Como posso me comparar ao próximo, sendo que somos os dois seres tão complexamente diferentes internamente e externamente? Somos únicos na maneira que pensamos, sentimos, conhecemos, cremos e experienciamos a vida.

Cada pessoa tem suas virtudes e as suas cruzes. Demonstrar nossas fraquezas é considerado uma vergonha em nossa sociedade, e por isso fazemos de tudo para escondê-la. Passamos e esbanjar nossas felicidades e esconder nossas tristezas. Por que é tão vergonhosa a tristeza se ela é inevitável?

A inveja nasce de uma ilusão. É ser vaga-lume e querer ser sol. Mas quais são as belezas de ser vagalume? E quais são as penas de ser sol?

O EU em Unidade

O orgulho, a competitividade negativa e a inveja fazem parte da nossa condição enquanto seres-humanos. Ningué é perfeito. A diferença entre cada um de nós está na maneira como lidamos com tais. O primeiro passo é reconhecer que eles existem; em segundo, trabalhar para torná-los menores.

E se ao invés de ditar as normas, competir e invejar, nós cooperássemos? Se ao invés de apontar o dedo para o próximo, nós pudessemos assumir perante todos os nossos erros e fraquezas e ninguém julga ninguém?

Ao aceitar que temos qualidades e defeitos, teremos a empatia necessária para aceitar que os demais também o tenham. Através da empatia, nós podemos nos respeitar e nos ajudar.

Nossa vivência em sociedade é tão lógica quanto um quebra-cabeças. Cada um é uma peça única, com capacidades “mais” e capacidades “menos”. Se todos usarem seu lado “mais” em favor do conjunto, o quebra-cabeça se monta.

Nossa função enquanto “individuo” é muito limitada. Mas enquanto “comunidade” é ilimitada. Ao invés de diminuir, nós podemos somar.