Vivendo como um Cristão no Estado Islâmico

por World Watch Monitor

Feb. 18, 2016

Quando John, um Cristão Sírio, resolveu ficar em Raqqa depois que o Estado Islâmico tomou controle da cidade em 2014, ele não fazia idéia de como iria sobreviver. Centenas de pessoas abandonaram a cidade, acreditando que era melhor salvar suas vidas do que viver no centro do novo “califado” Islâmico. John sobreviveu em Raqqa por 18 meses antes de escapar no meio da noite. 
Ele contou ao World Watch Monitor sobre a vida de frequentes assédios, testemunhando execuções semanais, e a tristeza de cidadãos sírios que receberam os soldados do Estado Islâmico em um primeiro momento, e mais tarde se arrependeram amargamente de terem dado apoio a eles.

John está na faixa dos 20 anos. Ele não pode revelar seu nome real, o que ele estuda, ou que tipo de negócio seus pais estavam envolvidos. 
“A vida em Raqqa continua de forma normal, em muitas maneiras. As lojas e restaurantes estão abertos. Temos comida, eletricidade e água. As pessoas tem mais sorte do que aqueles vivendo em cidades como Aleppo.”

“Mas você está constantemente em alerta, nunca olhando nos olhos de uma pessoa quando está andando na rua; sempre tomando cuidado com o que diz e com o que não diz.”

As tropas do Estado Islâmico venceram a batalha por Raqqa em Janeiro de 2014. Após uma semana de luta intensa com outros grupos radicais, eles tomaram o controle e declaram a cidade como capital do califado.

“Antes [do Estado Islâmico vencer a batalha] nós tivemos uma semana assustadora. Nós ficávamos em nossas casas porque todas as pessoas nas ruas estavam sendo alvejadas.”

John observou da calçada as ruas se enchendo de pessoas gritando “Allahu Akbar” (“Allah é grande”). “Eu não gritei [“Allahu Akbar”] — Eu sou Cristão. Mas quando um soldado do Estado Islâmico me viu em silêncio, ele parou o carro. Eu tive que dizer ‘Allahu Akbar’ também.”

“Muitos em Raqqa receberam o Estado Islâmico, mas hoje todos se arrependem.”

Logo as pessoas descobriram que as coisas haviam mudado radicalmente. 
O EI começou a executar aqueles que eles suspeitavam ser apoiadores do Presidente ou que haviam feito parte de outros grupos rebeldes contra o Estado Islâmico.

Na mesma semana que o Estado Islâmico declarou Raqqa sua capital, eles destruiram o interior de 3 igrejas. “Eles quebraram tudo que havia dentro — os ícones, os altares, tudo. Uma das igrejas é hoje um centro do Estado Islâmico.”

Ninguém foi forçado a ficar no novo califado, e muitos foram embora. 
“De certa forma a vida voltou ao normal”, diz John, mas logo ficou claro que a cidade estava sobre controle do EI. Eles mudaram os nomes dos prédios públicos, “Estado Islâmico” estava impresso nas placas dos carros e o grupo baniu o uso das novas notas de banco que eram impressas pelo governo Sírio.

Logo após o EI declarar Raqqa sua capital, os Cristãos foram comunicados sobre como eles deveriam viver sobre as regras do Estado Islâmico.

“Nós poderíamos [converter e] nos tornar Muçulmanos e viver uma vida normal em Raqqa, nós poderíamos ir embora, ou nós poderíamos ficar e pagar a taxa jizya. No primeiro ano a taxa era 54.000 Pesos Sírios [aproximadamente US$300] por homem — mulheres e crianças não eram ‘taxadas’ — mas no último ano a tava aumentou para 164.000 Pesos Sírios por homem.”

O preço do ouro é usado para calcular a jizya; na tradição Islâmica é de 16 a 18 gramas de ouro por ano por homem.

John aconselhou seus pais a deixarem Raqqa, mas eles não queriam abandonar sua casa e seus negócios, e vendê-los era impossível. Mesmo que muitas das aproximadamente 1.500 famílias cristãs tenham ido embora, eles ficaram; pelo menos isso significava que John poderia continuar seus estudos. John logo testemunhou como o Estado Islâmico lida com aqueles que não obedecem suas regras.

“Eu vi muita crueldade. Toda sexta-feira eles executavam pessoas. Eu estava lá quando eles decapitaram o primeiro homem em público. 
Eles não conseguiram decapitá-lo com apenas um golpe. Ele sofreu tanto que eles tiveram que atirar nele.”

John descreveu o quão mal ele se sentiu quando o Estado Islâmico decapitou centenas de soldados do Exército Sírio da base de Raqqa e empalou suas cabeças numa cerca que ele passava diariamente em seu caminho para o trabalho. Ele sentia que os soldados do EI eram monstros, que poderiam atacar a qualquer momento, e por qualquer razão.

“Quando eu falava com eles, eu tinha que saber o que ia dizer. Uma palavra errada poderia ofendê-los. Vendo todas essas atrocidades, eles não parecem humanos, eles são como monstros para mim, especialmente depois do que eles fizeram com aqueles soldados. Isso me traumatizou. Era muito pra mim.”

“O EI pendurava as cabeças decapitadas nas cercas. O que também me chocou é que eu via pessoas tirando selfies com as cabeças. Eu acredito que eles fazem isso para assustar as pessoas, para mostrar o que acontece quando você faz algo errado.”

Apesar do horror que testemunhou, John continuou em Raqqa porque ele queria trabalhar e continuar seus estudos, e pagar a jizya lhe dava uma certa liberdade.

“Por causa da taxa que nós pagávamos e a declaração que nós tínhamos [confirmando que a taxa havia sido paga] sempre com a gente, ninguém podia nos fazer mal por sermos Cristãos.”

A proteção era importante porque John tinha que lidar com os soldados do Estado Islâmico todos os dias.

“Eu os encontrava no trabalho, nas lojas, até mesmo na academia.”

Apenas 50 famílias cristãs deixaram Raqqa

É notável o quanto John sorri quando ele fala sobre a vida em Raqqa.

“Eu me acostumei. Eu acho que tem algo a ver com a maneira que nós crescemos como cristãos; nós éramos pessoas fortes, isso nos ajudou a ficar. E sim, você pode viver como um cristão em um estado islâmico. Ninguém te pertuba se você paga a taxa.”

Contudo, John conhece apenas 50 famílias cristãs remanescentes. O único pastor foi embora assim que o Estado Islâmico dominou a cidade. Nenhuma igreja permaneceu — os cristãos visitam uns aos outros para manter a comunhão.

“Eu não os vi maltratar os Cristãos por causa da fé. A única coisa que eles fizeram foi tirar os cristãos de suas próprias casas — e qualquer um — que tivesse deixado Raqqa, porque os soldados não tinham casas suficientes para morar.”

“Nós nunca imaginamos que isso podia acontecer. Os cristãos eram respeitados em Raqqa. Era normal numa cidade síria sem uma população muçulmana radical. Na minha opinião, o que o Estado Islâmico faz não é o verdadeiro Islã. Eu convivi com muçulmanos a minha vida toda; nós tínhamos respeito mútuo e vivíamos juntos em paz.”

Alguns soldados do EI tinham sido Cristãos

Apesar da crueldade, John disse que os soldados do Estado Islâmico eram pessoas normais.

“Eu podia conversar com eles normalmente. Era apenas quando eles descobriam que eu era cristão que eles mudavam. Eles eram até engraçados em certos momentos. Uma vez na academia eu escutei eles contando piadas, sobre todas as cabeças que eles já tinham cortado. Em outros momentos, nós tínhamos conversas sobre eu ser um cristão. Eles me aconselhavam a me tornar muçulmano. Uma vez eu fiquei realmente chocado depois de conversar com dois soldados. Eles eram armênios. Eles me disseram que cresceram em lares cristãos, e que ambos haviam se convertido do cristianismo para o islamismo. As barbas deles ainda não eram tão longas, eles eram bem novos no Estado Islâmico. Depois eu escutei que um deles se tornou um homem-bomba e se explodiu.”

“Um dia no ônibus eu encontrei um antigo colega de classe. Ele estava usando as roupas do EI, tinha uma longa barba e estava segurando uma metralhadora. Ele estava convencido da escolha que ele tinha feito, dizendo que queria lutar pelo Islã e pelo Corão. Duas semanas depois ele havia sido morto em batalha.”

“Eu ouvi que eles enviam os soldados sírios para as linhas de frente; os estrangeiros tem posições de liderança. Uma semana depois, o irmão desse meu colega também morreu lutando pelo Estado Islâmico. Eu sei de mais um amigo meu que se juntou ao EI. Eu não sei o que aconteceu com ele.”

Corte de cabelo ‘ocidental’ causa problemas

Tiveram momentos em que John esteve realmente com medo. Um soldado do Estado Islâmico o parou uma vez na rua gritando: “Porque você está usando esse corte de cabelo?” John mostrou para ele o papel declarando que ele era Cristão e que ele havia pago a taxa, e o soldado foi embora.

Outro dia, ele foi forçado a entrar em um ônibus porque um soldado do EI não havia gostado da calça jeans que ele estava usando ou do seu corte de cabelo.

“Nós dirigimos até um espaço subterrâneo onde haviam centenas de homens. Fomos todos divididos — primeiro os mais velhos eram separados dos mais novos, depois eles separavam os mais novos com calças jeans skinny dos outros. Depois eles separavam o grupo pelo corte de cabelo. Eu estava nesse grupo.”

Depois do grupo ter sido reorganizado, um soldado tunísio do Estado Islâmico fez um discurso inflamado para os homens.

“Ele disse: ‘Vocês são a nova geração da juventude islâmica. Vocês parecem com ocidentais e parece que gostam deles e de seus estilos, mas eles não gostam de vocês. As pessoas no ocidente odeiam vocês. Os ocidentais estão trabalhando para afastá-los do Islã.”

“Aqueles que estavam usando calças jeans skinny tiveram que assinar um documento prometendo não usar mais aquele tipo de roupa. Depois nossas cabeças foram raspadas e fomos ditos para não usar mais o estilo ocidental de corte de cabelo. Eu tentei explicar que eu era Cristão, mas eles não prestaram atenção a isso.”

As mudanças em Raqqa foram mais radicais para as mulheres. Todas as mulheres, muçulmanas ou não, tinham que se cobrir completamente quando saiam de casa.

“Era difícil para minha mãe e minha irmã. Elas tinham que comprar roupas, que, é claro, não tínhamos em casa”, disse John.

O Estado Islâmico proibiu imagens publicitárias que mostravam mulheres que não estavam completamente cobertas. Embalagens de shampoo, por exemplo, que continha imagens de mulheres impressas, tinham que ficar em lugares fora do campo de visão ou completamente removidos. Checagens regulares eram realizadas.

“Eu me lembro de um incidente engraçado. Um lojista tinha um balão vermelho no formato de coração em sua janela. O Estado Islâmico veio, gritando que aquilo era um pecado. O lojista disse que era apenas um balão. O soldado do EI insistiu que era um pecado por causa do formato que poderia ser visto como os seios de uma mulher. O lojista teve que estourar o balão.”

John aprendeu a como responder o Estado Islâmico.

“Um dia um homem do EI ouviu meu nome mencionado e imediatamente entendeu que eu era um Cristão. Eu vi a expressão no seu semblante mudar. ‘Você é um infiel?’ ele me perguntou. Eu respondi: ‘Você não conhece o verso do Corão que diz que qualquer um que acredita em Deus, nos anjos, no livro e em seus profetas, no bem e no mal e na vida eterna, é um fiel?’ Ele ficou chocado por eu saber um verso do corão e eu fui embora.”

Fugindo de Raqqa no meio da noite

Foi por não poder continuar seus estudos em Raqqa que John eventualmente teve que deixar a cidade. Pelo que ele saiba não haviam mais jovens cristãos lá.

“É claro que me sinto melhor. Eu posso não ter água e eletricidade todos os dias como eu tinha em Raqqa, mas eu me sinto mais seguro; eu tenho paz. Em Raqqa existia um constante medo e estado de alerta. Onde eu vivo agora, eu não preciso ter medo das pessoas que eu encontro nas ruas.”

John e alguns outros fugiram da cidade em segredo.

“As pessoas podiam deixar a cidade se fosse justificável. Eles podiam sair para receber tratamento médico que não estava disponível em Raqqa. Eu até ouvi sobre cristãos que eram autorizados a ir para outra cidade para celebrar o Natal ou o Ano Novo. Eu não tinha uma razão, então tive que ir ilegalmente.”

Ele deixou Raqqa num pequeno ônibus com outras 15 pessoas.

“Eu estava com tanto medo que nós fossemos parados em algum checkpoint do IS. Mas isso não aconteceu. Nós pegamos estradas pequenas, evitando todos os checkpoints.”

“Depois de 4 horas, nós chegamos em um checkpoint do exército sírio. 
Eles nos receberam e perguntaram porque estávamos tão pálidos. Nós estávamos realmente muito ansiosos. Eles checaram nossas identidades, nos deram iogurte. Estava delicioso.”

John continua em contato com pessoas que ficaram em Raqqa. Não é fácil, mas “sempre há maneiras”, diz ele.

Perguntado sobre a atração de se juntar ao Estado Islâmico, John disse que ele pensa que muitos soldados do IS foram atraídos pelos altos salários pagos no começo.

“Eu ouvi [que o salário é] algo em torno de $1.200 por um soldado estrangeiro. Se eles tem uma ou mais esposas, eles dão $100 por esposa e $50 por criança. Eu os via em lojas com muito dinheiro, muito para gastar.”

“Eu acho que eles são enganados. Eles realmente acreditam que aquilo que eles fazem é certo. Eles ficam felizes sempre que matam alguém. Você pode ver isso pela forma que eles executam pessoas — toda semana buscam um novo jeito, até mesmo crucificando-os. Graças a Deus nenhum cristão foi executado por ser cristão, mas por terem lutado contra o exército do Estado Islâmico.”

Viver debaixo do Estado Islâmico por 18 meses não ajudou John a entender porque eles precisavam estabelecer um novo território.

“Eles já viviam em um país islâmico; na Síria a maioria é sunita. Eles tinham a terra deles mas se eles quisessem viver sobre a rigidez islâmica eles poderiam se mudar para a Arábia Saudita.”

John disse que está disposto a servir ao exército Sírio após concluir seus estudos.

“Eu não quero fugir. Nós temos o direito de tomar nossas terras de volta. 
Esse é meu país, não deles. Eu estou disposto a lutar por isso.”

Texto traduzido e republicado com autorização da World Watch Monitor.

Link Original do Texto com Fotos: www.worldwatchmonitor.org/2016/02/4307204/
Tradução: Felipe Câmara