Aconteceu Semana Passada

“No dia em que o ser humano se deu conta de que, excluindo-se as crenças, ainda restam todas as imposições da realidade, nesse dia nasceu a estética, meu amigo”, grita a plenos pulmões o taxista cheio de brilho nos olhos que me dirige até o hospital. Ele derrapa um Fiat Doblò 2012 no asfalto molhado da Teixeira de Gouvêia, sentido contramão, sangrando o coração da cidade de Macaé. Eu estou deitado no banco de trás, e pela janela espio quando uma senhorinha é jogada por cima do capô, as compras do hortifruti explodindo no pára-brisa, e rola o teto do carro até à faixa de pedestres queimada tal qual uma linha de largada (talvez seja a hora de informar que estou delirando um pouquinho). O táxi faz a curva e a minha cabeça cola na porta do Doblò, esse carro é espaçoso demais, né? Tem elegância. Feio é o possante que não deixa espaço pro joelho, se tu quer saber o que eu acho. Feio é o gênero humano, como diria vovó.

“Olha, a vida impõe muitas responsabilidades, e poucas delas têm a ver com o que você julga e percebe”, continua o meu motorista. “Na real, bicho, só te digo isso: o Homem acredita em muito pouca coisa”.

Um sol frágil e inofensivo de dia frio sobe no meu rosto, eu deitei (me joguei, na verdade) de barriga pra cima, meu estômago virou de cabeça pra baixo, deve estar perto do meio-dia. Encaro o nada, um germe translúcido começa a passear na bola do meu olho. Largo metade da cara no assento do carro, aquele cheiro de peido guardado vai saindo da almofada. Meu crânio está pregado no teto da testa, uma flecha atravessou as têmporas, e lá vêm os calafrios! O troço laranja do cinto de segurança cutuca o cóccix e de repente eu sou criança de novo. “A única forma de agarrar a vida pelo chifre é ter uma atitude estética em relação a ela”, alguém fala lá no fundo. Eu to dormindo com o meu cobertor do Windows 95, onde estão meus pais? Esse estranho me achou na rua, você acredita? Eu poderia dizer que ele me salvou. Mas não dá mais: a própria dona Morte veio me abraçar, tudo acabou e eu fiz a passagem tentando manter conversa fiada.

Ai, papai, como é que eu cheguei aqui?

Eu flutuo dentro de um tubo escuro, as paredes estão me apertando. Deus é a abstração mais grosseira perto disso tudo. E eu subo mesmo enjoado. Vocês já dormiram vendo televisão? É horrível, o sujeito acorda que nem um boneco de corda, repassando na cabeça a programação da noite passada como se fosse o nascimento de um filho. Acho que isso é o que tá acontecendo, porque agora não consigo tirar a estética da cabeça. a e s t é t i c a. de repente é como se o vaporwave e o shoegaze não tivessem usurpado essa ideia sincera, e iogurte de morango fosse derramado em galões de água sanitária para purificar o Jovem. minha cabeça sem pescoço se apóia sobre os ladrilhos de uma sala comercial, onde pequenas senhoras ensebadas aguardam sessões de corrente russa. “acitétse acinílc”, leio no decalque invertido da porta de vidro. Um demônio é baixado por fios de nylon e paira sobre mim. “não é isso que você procurava?”, ele grita esganiçado. “me dê a sua mão e eu lhe mostrarei a verdade!” só que eu não tenho mão, não tenho corpo, eu sou uma cabeça. “Napalm nas catacumbas de minh’alma”, vejo escrito na camiseta puída do diabo. ele pega e se irrita por eu não ter lhe dado a gentileza do gesto, sou uma cabeça grosseira, ele me diz, e me chuta janela afora. eu voo novamente, observem minha liberdade, quebro o vidro e caio sobre a calçada. na rua um um hippie terraplanista discute o cisma católico com um agente da Lei, um discípulo confesso de crowley, ambos em perfeita comunhão. “MATEM-SE!”, rosna a minha boca raivosa. Nada acontece, o exército dos picumã, pequenos espíritos da poeira, marcha diante dos meus olhos. Eu não tenho cordas vocais pra gritar, eu mal consigo babar. Me arrependo tanto. Qual a crença daquele que atravessa uma rua se não um par de sapatos? Por que eu odeio o Jovem, na sua busca flamejante por identidade? Como é fácil dar um ou dois passos ousados quando você não precisa se comprometer com nada que acredita. E o que se há pra crer? Um segredo grande o suficiente pra tatuar na testa. O grego Aristóteles escreveu que o homem não deve se envolver na Política até os 25 anos, por conta de suas experiências superficiais. E experimentar leva à crença? Eu também odeio a filosofia, ela é a maneira de aproximar o cognoscível com a menor sensibilidade permitida. Agora eu sou velho, tenho mais de 100 anos, vivi para acreditar e não houve manhã de sol que me redimiu. Porque agora também sou prisioneiro do Presente e sua névoa que desorienta. Ela se aproxima e me pergunta por que parto o cabelo de determinada forma, e por que não encaro a chama dos seus olhos, e por que não me permito acontecer. “Eu só acredito em quatro coisas”, respondo, “nada me ensinou a viver com você”. ah mas se o seu corpo se movesse daquela forma, ela me diz, se sua boca se abrisse um pouco mais, é um instinto estético, compreende?, construído pelo Ego a partir de impressões não-submergidas. Um, dois, três, quatro, cinco. Já acredito em 5 coisas, meu Deus, por que é que ainda me prendes no Reino dos Mortos?

Acordo de tarde em minha cama. Febre, o mais terrível dos resfriados. O taxista toma café com minha família, estão em círculo, eles discutem a mais terrível desgraça. Bicho, eu penso, o que a gente não faz pra não ir trabalhar…

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