O homem que quase traiu a si mesmo

“Não há nada mais inútil que a culpa moral,” disse o materialista.

Toda a sala calava. Estava abafado e lá fora caía uma pesada chuva. As poucas janelas existentes já começavam a embaçar, e a umidade inchava as cadeiras de madeira velha, trazendo à tona um cheiro repugnante. O materialista, um famoso articulador, mestre da retórica e sofista do nosso século, fora chamado por uns beneméritos juízes para defender o acusado. Este homem, um pequeno, mirrado e insignificante ladrão, se entregara recentemente, por iniciativa própria, tendo e vista o crime X, cometido em tal e tal dia, sob ímpetos vários, visando isso e aquilo. Seu caso havia sido processado e hoje era o dia do julgamento. O próprio caso, ele mesmo bem frívolo, atraíra — coisa estranha! — a presença dos mais ilustres procuradores, advogados, senadores e homens de poder, setores da classe média e estudantes, todos com olhos vorazes em busca da boa nova. No momento a plateia respirava com dificuldade e ruidosamente, e o grande materialista começava a desenrolar o seu monólogo tão somente para ela. Era quase inadequado que o metessem ali naquele lugar, de frente a um ladrão de galinhas, enunciando coisas nobres. Mas, parece, o benefício seria mútuo.

— O ideal é que a punição seja verificada e homologada pela sociedade — retomou o grande orador –, pois o indivíduo tem que responder somente aos seus pares e, uma vez mortificado, está hábil para o retorno à mesma comunidade que o habilitou. Mas às vezes não, todavia. Depende da pena. Bem! Já a culpa moral é acintosa e corrosiva e raramente oferece saída; com ela é possível sempre seguir em frente, e nos dias de hoje os limites da vida são tamanhos que isso realmente se faz plausível: o homem tem sempre aonde ir, sempre o que empreender e é curioso que, mesmo parado, pode evitar ser a si mesmo. Uma criança de hoje já nasce hedonista, não é o que dizem? Mas, ainda assim, com a culpa moral a normalidade nunca poderá ser recuperada. Veja bem, o estado anterior, toda uma beleza na vagueação anterior, o próprio firmamento vai inchar-se e inflamar-se até que tudo o que não é direcionado se torne desnorteante, acinzentado e finalmente distante.

O acusado o acompanhava com os olhos, negros e graúdos, e por um momento o seu defensor pensou que conseguira lhe ler a alma. Também dos seus próprios olhos negros emitia-se uma chama e, ao que parece, o ladrão a compreendia bem. O ilustre advogado quase riu com essa pretensão.

— Deixem-me chegar ao fundo de tudo isso, à redenção verdadeira — disse o materialista, animando-se em um instante. — Não há nada além de Deus, a onipresente ideia fixa e imutável, capaz de salvar o já entrado na maior das desgraças, na miséria extrema, no desespero que é a falta de perspectiva, no receptáculo que conduz as pessoas à infelicidade indissociável. O caminho não é o mesmo para todos, é verdade, para alguns a viagem é bem curta — e eu nada tenho a ver com isso, palavra. — Neste momento todos os olhares se dirigiram ao preso e era até engraçado ver como ele estava mal vestido e abatido. — E como se apresenta antes de tudo, Deus põe na luz a forma como a Humanidade conseguiu se salvar em vida. Porque não fosse Ele para se mostrar ao que já não tem nada, puxá-lo da dormência e emplumá-lo de um jeito em que o que é caro (o juízo, a bondade, a candura, o rigor, a capacidade de emergir sem asco da existência) não seja perdido, me diga: quem é que o faria? Ora, quem é que não o faria, certo? Não, não, não! Nada se concentra com tamanho ímpeto sem se esconder sob uma palavra! Deus tem forma difusa, se ajusta a qualquer compreensão e só se esvazia quando é superado.

Um aplauso massivo estourou e vacilou durar por cerca de um minuto. Mas o nosso herói não se desconcertou, e, tomando fôlego, pronunciou:

— Deus é um fantasma que se apresenta aos doentes. Qualquer um em busca da sua materialidade certamente não precisa disto, ou está procurando pela coisa errada. O Demiurgo, este está lá, não minto, mas me dá até sono de falar. Fossem quatro galáxias ou quatrocentas e estaríamos todos contentes e maravilhados idem. Não! O Demiurgo nada tem a ver com Deus, é perversidade comparar. O Pai só existe para os vivos, e os vivos — veja bem, os Vivos vivus — em nada se assemelham com isso ou aquilo que flui através de um corpúsculo sextavado, que crepita e encolhe-se na produção de relações que dimensionam. É tudo muito bonito, admito. É uma novidade que impressiona porque até ontem não tínhamos o que comer. Mas bonitas também são as músicas e as ciências sociais, não? Disciplinas completamente distintas, todas elas. Nisso eu valorizo os compêndios gregos. Veja, a minha avozinha duvida que a Terra seja redonda. Não ria, não feche a cara! Se você estivesse no lugar dela, creia que seria um absurdo achar o que quer que fosse da Terra. Perdão, perdão! Eu estou me deixando levar. Mas aí vai que você me espreme e largo desleixado um veredicto? Nem pensar. Por isso me antecipo: Deus é psicológico, é da psique — eu poderia argumentar — , e aí estaria o confundido com o outro novamente. Não, Deus é uma das manifestações da realidade que percebe, a condensação de uma impressão. E a percepção é vaga, curta e deixa lastro.

Nesse momento o próprio materialista ficou triste. De longe todos aplaudiam, por tantos motivos diversos, com alegria nas mãos de quem está entretido. Parece que o seu olhar se cruzou novamente com o condenado, e um nojo terrível foi lhe subindo a garganta por botar à vista tais pensamentos. Ficou meditabundo por uns cinco minutos, os aplausos não cessavam. O materialista segurou um dos pulsos com a mão e ele mesmo sentiu como se não existisse. Olhou para a manga do paletó bem cortado e se viu quase translúcido, em fade perpétuo.

— Já a culpa — foi voltando a si, retomando o fio de um raciocínio que nem o próprio juiz daria importância — é, assim como todos os conceitos que abordamos, a condensação de um facho de insensibilidades, a dobradura premiada, a realidade percebida. Se ela se insinua, então você já decidiu por ela. Felizes são todos os inconsequentes que não se sentem culpados, hein? — e o materialista soltou um riso murcho, como um ganido. — Até colocarem uma bala na cabeça em presença de um judeu, é claro.

Houve um desconforto. Semblantes severos se manifestavam, dois dos juízes pigarrearam. O materialista olhava para a plateia, para a bancada e para as galerias superiores daquele teatro. Olhava para as velhas cadeiras de madeira e via ele mesmo sentado em expectativa. “Por que vim para me ouvir? Acaso todos os meus iguais aqui presentes não são materialistas? Por que se envenenar com mais e mais de si mesmo?”, pensava e demorava-se. O condenado parecia chorar, tudo no rosto daquele homem era diferente de qualquer um ali. A cabeça esvaziou-se totalmente, o materialista gaguejou e só isso jorrou:

— Mas aí que está — muitas coisas facilitam a culpa. Porque toda a nossa empatia, toda nossa capacidade de confiar no outro, e amá-lo, e fazer pelo outro o que ele lhe faz, e permitir-se olhar para o outro sem se advertir, mergulhar no próprio Bem de si mesmo sem se constranger e ressentir-se com o Mal: todas essas relações de compromisso e sinceridade, tudo, tudo abre o caminho para a culpa… Eis o teu escudo para este mundo selvagem. Ora, que bela manifestação de um princípio real nós estamos celebrando aqui!

Antes que pudessem se manifestar, continuou:

— Concluo, não obstante, com um revés: viver com essa questão, resolvê-la diariamente, implica se vestir nesta estética particular de vida… Veja, viver é medir o incomensurável facho. Sabe, às vezes eu observo: há tantos que estão por aí e ambicionam tanto e, mesmo não sabendo, lutam com todas as forças para serem a versão mais acurada de si mesmo, a versão que melhor se movimentará. A estética deles lida com a forma de fazê-los funcionar; afastar as fraquezas, se mexer, piscar, sorver e sorrir. Eis o que os preocupa. E eu penso, penso de verdade, e só posso concluir que os certos são esses. É verdade! Porque a estética das coisas longas e imutáveis raramente funciona com os que realmente querem se debruçar e mergulhar no lago que é se sentir vivo. Você está familiarizado com a Patrística? — falou, movendo-se em direção a um expectador. — Se Santo Agostinho, no terceiro livro do seu Livre-arbítrio, parte III — “Os problemas diversos!” — precisa afirmar no item C (a terceira letra!), ao capítulo 23, versículo 66, que “a morte prematura das crianças e o sofrimento que padecem não são contrários à ordem universal”, de que vale a vida de Santo Agostinho? Qual a cura para um homem disposto a ir a um lugar como este para procurar sentido na existência? Não me leve a mal, fala corretamente o teu Santo Agostinho, os filósofos são uns desgraçados! Mas se você quer viver, viver mesmo, estas questões começam a se esvaziar completamente, a engessar, artificializar e virtualizar. Entretanto — e o homem riu quase fraco — , quão fácil não seria a vida com elas?

Mas foi justo aí que novamente veio o olhar do condenado e, parece, dessa vez aquele olhar lhe deu força. O advogado, que tinha se sentado, levantou de pronto e falou:

— Estamos o tempo todo nos reduzindo pelas teorias dos outros. Essa vontade de penetrar no campo abstrato da existência é o que nos envenena profundamente. Retornar de lá é trazer absolutamente nada que possa ser usado em vida no seu aspecto mais agudo. É a consciência que se elabora para a vida e nada mais que, se por um lado está longe de algo palpável, por outro está perto do totalmente real. E no fim nem a isso eu me prendo muito — confesso sinceramente, senhores! Pressentir a mentira nas nossas convicções é o que abre o caminho para a vida nova, a transformação; amar a vida, perseguir e fazer — essa é minha vontade, sobretudo nunca perder a vida de vista. Sem olhos míopes. E eu só penso em Deus fumando charutos. Adeus, camaradas! Soltem este homem se tiverem juízo!

Nesse momento nem o meirinho se atreveu a manter o outro homem algemado. Uma vez sem os grilhões, ele mesmo se afastou e correu em direção ao advogado. E, abraçados, os dois saíram pela porta do tribunal. Lá fora fazia um sol brilhante, amarelo e totalmente novo.

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