Vida de Subúrbio

No terreno baldio tinha um sofá abandonado, todo destruído, sobre o qual um casal de pombinhas pousava e, batendo as asas pra lá e pra cá, parecia se divertir bastante. Mais a frente uma pilha de entulho triunfava e, sobre ela, pedaços de uma caixa d’água azul-marinho ganhavam destaque. As galinhas ainda não haviam acordado para ciscar quando adiante, na ruazinha de paralelepípedos, dois cachorros seguiam cabisbaixos. Pichações no muro da vizinha dividiam espaço com uma grande placa vermelha de VENDA-SE, igualmente pichada, que parecia querer tombar. Minutos depois, passaram por aquela rua dois operários também cabisbaixos. Os pedaços quebrados do passeio espalhavam terra — curiosamente — e de um desses bocados de entulho nasciam muitas florzinhas. Um moleque subia o morro a pé, carregando a sua bicicleta, enquanto um Toyota branco se preparava para entrar na garagem. Enquanto o portão automático se abria, o garoto seguia olhando o próprio reflexo no insulfilm preto, desviando de toda a sujeira na rua. Mamãe saiu para tirar o lixo e, vendo o estranho passar, ficou por muito tempo na porta observando-o, sem se mover. Por fim entrou em casa e bateu o portão como que religiosamente. “Hoje em dia tem que tomar cuidado”, ela me disse.

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